A qualidade resiste

Pequenos selos preservam boa música infantil desprezada pelas multinacionais do disco

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Alexandre Pavan*

A crise que assola a indústria fonográfica mundial não se restringe ao âmbito econômico. Se as empresas do disco não souberam antever o surgimento da pirataria ou se adaptar às novas tecnologias (a exemplo do MP3), muito antes, se descuidaram da qualidade dos produtos que ofereciam aos seus clientes.



Já faz duas décadas que tais empresas se pautam pelo desnorteamento estético e pela falta de conceito. Na esteira da mudança, os departamentos artísticos ficaram subordinados aos diretores de marketing, e a regra passou a ser a aposta em fórmulas musicais repetidas, de fácil absorção pelo público, que vendam milhões de unidades em poucos meses.



A nova lei do mercado fonográfico propagou os artistas descartáveis. A diversidade musical brasileira foi preterida em prol de uma estratégia tacanha. O ouvinte perdeu o direito de escolha, porque, citando Chico Buarque, “os donos da voz” só oferecem a mesma música, embora ela venha vestida com o rótulo de novidade.



No entanto, à margem do mercadão, os artistas que tiveram sua produção ignorada passaram a criar selos alternativos, apostando que suas obras interessam, sim, ao público. Na música infantil, o exemplo mais conhecido é o dos compositores Sandra Peres e Paulo Tatit, criadores do selo Palavra Cantada. Neste ano, eles firmaram uma parceria com a editora Cosac & Naif para o lançamento da Coleção Siricutico. São livros-CDs com um belo tratamento gráfico, cujas histórias são as letras de músicas extraídas de discos do Palavra Cantada. Os primeiros títulos da coleção são
Rato

, de Paulo Tatit, e
Pindorama

, de Sandra Peres e Luiz Tatit.



A outra novidade vem do Rio de Janeiro. A gravadora Biscoito Fino – comandada pela cantora Olívia Hime e pela empresária Kati Almeida Braga -, que dedica-se à MPB de qualidade, estreou o selo infantil Biscoitinho com o CD
Samba pras Crianças

, um projeto do cantor Zé Renato em parceria com o pianista Leandro Braga, que reúne clássicos do samba na voz de quem entende do assunto: Dona Ivone Lara, Nei Lopes, Dudu Nobre etc.



As contadoras de histórias também estão em alta. A dupla Celelê e Relalá aparece com novo CD,
Para Cantar o Ano Inteiro

. E Sherazade, personagem da atriz Raquel Barcha, expõe sua narrativa moderna no álbum
Sherazade e os Bichos

e no livro-CD
João e Maria

.



Todos são títulos interessantes, feitos fora das regras do mercado. Afinal, quando se produz pensando na inteligência do ouvinte, coisas boas aparecem.





SERVIÇO





·




Samba pras Crianças

(Biscoitinho, R$ 20), vários artistas

·
Sherazade e os Bichos

(Azul Music, R$ 12,90), trilha sonora de Michel Freidenson

·
João & Maria

(Cosac&Naif, R$ 25), de Sherazade e Sérvulo Augusto

·
Para Cantar o Ano Inteiro

(Independente, R$ 20), de Celelê e Relalá

·
Coleção Siricutico

(Cosac&Naif/Palavra Cantada, R$ 29 cada livro-CD):
Rato

, de Paulo Tatit e Edith Derdyk, e
Pindorama

, de Sandra Peres e Luiz Tatit



*Jornalista e co-autor do livro
Populares e Eruditos





apavan@uol.com.br





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