A ponte frágil

Falta de qualificação adequada dos responsáveis por processos de mediação segue como problema central a ser resolvido

Compartilhe
, / 879 0

Em um trecho de Como um romance (Rocco, 1993), o autor Daniel Pennac empresta espaço às recordações de um ex-aluno do poeta Georges Perros sobre suas aulas de literatura. "Ele nos falava de tudo, nos lia tudo, porque não supunha que tivéssemos uma biblioteca na cabeça. Seria má-fé a merecer grau zero. Ele nos tomava pelo que éramos, jovens colegiais incultos e que mereciam saber."

A ausência desse termômetro para sentir a temperatura adequada para desvelar o universo da leitura para alunos das mais variadas faixas etárias é um dos maiores problemas para fazê-los avançar nessas competências.

A pesquisa "Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE): leitura e biblioteca nas escolas públicas brasileiras", recém-divulgada pelo MEC, mostra que um dos problemas ligados ao fato é a inexistência de projetos pedagógicos em que a leitura e a biblioteca sejam vistas como essenciais à aprendizagem. Onde se constatou a intenção de fazê-lo, aferiu-se falta de articulação das estratégias para levá-la a cabo.

Um dos maiores problemas é a falta, em primeiro lugar, de pessoas designadas para o papel de mediador de leitura e, em segundo lugar, a falta de qualificação da grande maioria daqueles que desempenham o papel. No caso do PNBE, a recomendação é que haja formação dos professores para que possam trabalhar com o acervo. Na atual edição do programa, os livros serão acompanhados de um catálogo com resenhas das obras.


Novo perfil


O tempo se encarregou de colocar em xeque o perfil profissional do responsável pela biblioteca. Os cursos de biblioteconomia são poucos e as redes escolares praticamente pararam de contratar bibliotecários formados. Exemplo disso é a rede estadual paulista, cujas 5,5 mil escolas contam com 4,5 mil salas de leitura. Por opção tanto terminológica quanto prática, não há nenhuma biblioteca ou bibliotecário, todos já aposentados.

Segundo Valéria de Souza, da equipe técnica da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas da secretaria estadual paulista, a atual gestão fez um diagnóstico das salas de leitura e deverá centrar esforços nas escolas da Grande São Paulo, em pior situação. Entre 2.400 unidades, 500 estão sem condições físicas de utilização e 800 não dispõem de recursos humanos para funcionar. A promessa é que estejam em operação no começo de 2009. Para as 800 que carecem de pessoal, há três possibilidades: "vamos dar formação a professores adaptados, contratar estagiários ou fazer um processo seletivo entre os professores da rede", diz Valéria. Os contratados terão como função fazer a seleção do material, catalogá-lo, apoiar, ajudar e fazer a interface com os professores. O orçamento para as salas de leitura em 2008 é de R$ 35 milhões. O orçamento total da secretaria é de R$ 13,7 bilhões.

Já a Prefeitura de São Paulo, que tem bibliotecas nas 33 unidades do CEU e salas de leitura nas outras unidades escolares (485), fez, no início deste ano, um concurso para contratar 180 bibliotecários.

Para Vera Lúcia Stefanov, presidente do Sindicato dos Bibliotecários, a situação atual no Estado de São Paulo se deve à "falta de cultura que priorize a biblioteca". O avesso desse panorama, diz Vera, ocorre nas escolas particulares de Educação Básica e, sobretudo, no Ensino Superior. As universidades e faculdades privadas, por exigência do MEC, têm de manter bibliotecas e renovar seus acervos, item que conta pontos em sua avaliação. Essa postura estaria se estendendo também para escolas particulares. "Sentimos que há uma expansão nas privadas de 1º e 2º graus", relata. Nesses casos, os bibliotecários-chefes chegam a ganhar até R$ 8 mil mensais. Bem mais do que o piso da categoria, de R$ 1.450.

No entender de Graça Paulino, editora adjunta da revista eletrônica Língua Escrita, do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da UFMG, a contratação de bibliotecários seria um dos itens requeridos de políticas públicas consistentes para melhorar os níveis de letramento, sobretudo o literário. Além disso, diz ela, "seria preciso transformar a biblioteca num lugar aprazível, onde os alunos queiram ir, resenhar sempre os novos títulos, classificá-los, distribuí-los bem e fazer visitas a livrarias e outros espaços culturais". E investir no professor, completa.


Novo patamar


Já Edmir Perrotti, da ECA/USP, acredita que o lugar destinado ao bibliotecário hoje é diferente daquele de 30 anos atrás. Com o advento da internet, cabe a esse profissional atuar no planejamento de sistemas de informação cada vez mais complexos, estabelecer relações entre o livro que está na estante e o que está na rede virtual, realizando buscas em outros bancos de dados.

Já no interior da biblioteca, no contato com o usuário, Perrotti defende a figura do infoeducador, um perfil que cruza as habilidades do bibliotecário e do educador, próprio daqueles que estão "na intersecção entre sistemas e subsistemas culturais". Com o cenário de excesso de informação, esse mediador tem de trabalhar em equipe e deve possibilitar ao usuário se apropriar dos meios de navegar pelas informações.


Os auxiliares de BH


No município de Belo Horizonte/MG, a secretaria estadual de Educação decidiu, a partir de 1996, introduzir uma nova figura para ficar encarregada da mediação dos processos na biblioteca escolar. Depois de duplicar o acervo da rede entre 1994 e 2003, a secretaria, assentada nas idéias da "Escola Plural" do educador Miguel Arroyo, apostou na inovação e abriu vagas para o cargo de auxiliar de biblioteca escolar, que deveria, entre outras atribuições, "proporcionar ambiente para formação de hábitos de leitura e gosto por essa atividade" e "participar da elaboração do projeto político-pedagógico da escola".

"A idéia era que houvesse um professor ativo, não alguém afastado de outras funções", explica Aracy Martins, pesquisadora do Ceale/UFMG que estudou a atuação dos auxiliares na formação de leitores.

Aracy identificou três grupos entre os ocupantes do cargo: aqueles com alguma formação na área de leitura (pedagogia, letras etc.), os que provinham de outras áreas (matemática, ciências contábeis etc.) e aqueles que tinham apenas o ensino médio. Como a formação recebida por quem passou no concurso era de apenas uma semana, o sentimento de poder incentivar práticas de leitura ficou associado à qualificação anterior e à vivência de cada auxiliar.

"Há aqueles que tomam o cargo como uma missão; outros atuam apenas com viés burocrático, sem se sentirem formadores."

Aracy alinha algumas diretrizes para que o trabalho de auxiliares e da biblioteca seja mais efetivo. Em primeiro lugar, que se invista na formação dos profissionais. Em segundo, que a escola se interesse tanto por um como por outro. Para isso, diz ela, é preciso trabalhar com a pedagogia de projetos, integrando toda a comunidade escolar e fazendo com que a biblioteca congregue todas as atividades desenvolvidas

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN