A política de bonificação por desempenho, para Deleuze

As ponderações que o filósofo francês faria sobre o pagamento por performance para docentes

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Apesar de nunca ter se dedicado especificamente ao tema educacional, Gilles Deleuze (1925-1995), filósofo francês, produziu reflexões que tangenciam a discussão sobre a política de bonificação por desempenho para professores. A partir da análise que Michel Foucault (1926-1984) faz das relações de poder nas chamadas “sociedades disciplinares”, Deleuze desenvolveu o conceito de “sociedades de controle”. Para Renata Aspis, graduada em filosofia e doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é aqui que pode haver um ponto de convergência entre a bonificação e a filosofia do autor.


O que Deleuze pensaria da política de bonificação por desempenho?
Deleuze nunca escreveu nada específico sobre educação, tampouco sobre professores e políticas educacionais. No entanto sua contribuição à análise que se faz do que é chamado de sociedades de controle é bastante significativa para o tema, apesar de estar explícita apenas em um breve artigo, de 1990, chamado “Postscriptum sobre sociedades de controle”. No texto, ele destaca  que, nos dias atuais, o confinamento já não é mais necessário para o controle, como o era nas sociedades de disciplina. Aqui, ele se refere ao pensamento de Michel Foucault, filósofo francês, que fez uma análise da passagem das sociedades de soberania, nas quais os indivíduos estavam sujeitos ao soberano, para, a partir do século 18, as sociedades disciplinares. Nestas os indivíduos estão constantemente confinados em instituições de disciplina, que têm funcionamento e linguagens analógicas entre si. Na família, estão submetidos às palavras de ordem do pai; na escola, às do professor, e assim por diante.


Dizer que passamos, a partir da 2ª Guerra Mundial, para a era das sociedades de controle, não significa que não estamos mais sujeitos às disciplinas, mas que se acrescentou a elas o controle, feito a distância – atualmente, não faltam meios eletrônicos para que isso aconteça. O controle é fluido, contínuo e funciona como modulação dos desejos, das crenças, das subjetividades como um todo. Para Deleuze, o marketing é agora o instrumento de controle social. As empresas não produzem mais mercadorias, mas “mundos”. Os mundos estão dados e devem ser desejados e ser comprados. São descartáveis, constantemente renovados, reformados, repaginados: o mesmo em novo modelo. A lógica é esta: dê de entrada o modelo anterior e assuma a dívida parcelada em suaves prestações, que não poderão ser concluídas antes que surja ainda um novo modelo irresistível a ser renegociado e assim sucessivamente. A política de bonificação por desempenho, originada dentro das empresas, segue essa linha de pensamento: fomentar a competição entre os pares, incentivar que se tirem as condições de desempenho de um bom trabalho da própria vida do trabalhador, focar as ações educacionais na produtividade. Porém, poderíamos perguntar: o que a educação tem a ver com tudo isso?

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