A poesia é fotografia verbal

Não há dois leitores que, ao ler uma frase, visualizem exatamente a mesma coisa, e é isso que garante a riqueza e a imprevisibilidade da prosa e da poesia

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Nas conferências de Seis Propostas para o Próximo Milênio (Companhia das Letras, 1990), Ítalo Calvino sugere características que a literatura deveria valorizar nos próximos séculos: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência. Calvino extrai seus exemplos do romance, do conto, da fábula, da lenda, e também da poesia épica e lírica. As qualidades que defende não dependem do gênero adotado, mas da relação do autor com a escrita. 

Mas o que é, por exemplo, a visibilidade, numa arte em que só há a palavra?  Calvino nos adverte de que "estamos correndo o perigo de perder uma faculdade humana fundamental: a capacidade de pôr em foco visões de olhos fechados, de fazer brotar cores e formas de um alinhamento de caracteres alfabéticos negros sobre uma página branca, de pensar por imagens".

O escritor Damon Knight já disse:
"Uma história não é aquela porção de páginas com palavras impressas. Aquilo ali são as instruções verbais para criar a história. A história é o que acontece em sua mente enquanto você lê as instruções". 
Não há dois leitores que, ao ler uma frase, visualizem exatamente a mesma coisa, e é isto que garante a riqueza e a imprevisibilidade da prosa e da poesia. 


Imagem verbal


Algumas imagens devem ser tomadas ao pé da letra, por serem meramente descritivas ou narrativas, como ocorre tantas vezes na prosa:

"O carro não pôde subir até ao alto do morro, onde havia uma clareira.  Vilela saltou, acompanhado de Washington e Casemiro. Havia chovido na véspera; o caminho enlameado sujava o sapato dos três" (Rubem Fonseca, A coleira do cão).

Outras estão ali não para mostrar algo, mas para sugerir, para despertar emoções ou associações de idéias que são mais profundas e mais ricas quando reveladas de maneira indireta. 

Há poetas que, pelo mero poder da imagem visual, criam diante de nós um mundo fantástico, como o de Raul Bopp em seu poema-livro Cobra Norato, descrevendo uma viagem fantástica através da floresta amazônica, e nos fazendo ver coisas que nunca vimos:

"Escorrego por um labirinto / com árvores prenhas sentadas no escuro / raízes com fome mordem o chão (…) O céu tapa o rosto / chove… chove… chove… (…) A noite encalhou com um carregamento de estrelas (…) Chegam ondas cansadas de viagem / descarregando montanhas (…) Árvores nuas tomam banho / Jacarés em férias / mastigam estrelas que se derretem dentro dágua".  

Tão visual quanto Bopp, mas com outro tipo de visão, é João Cabral de Melo Neto, cujo olhar percebe semelhanças imprevistas nas coisas que nos rodeiam:

"A cidade é passada pelo rio / como uma rua / é passada por um cachorro; uma fruta / por uma espada".


Comparações

A poesia de Cabral consiste em grande parte nessas comparações visuais em que ele nos mostra a semelhança entre o balanço das canas de um canavial e o movimento das ondas do mar; entre o corpo de uma dançarina e uma labareda; entre uma fileira de casas e os vagões de um trem estacionado. O olho treinado do poeta nos ensina o tempo todo a ver de maneira diferente as coisas que nos são familiares, a perceber a semelhança entre formas e entre movimentos.

Perceber semelhanças inesperadas é uma parte importante do flash poético. Tão importante quanto a percepção em si é a escolha das palavras certas para exprimir o que foi visto, para que o leitor recomponha instantaneamente, sem esforço, a imagem original que ocorreu ao poeta. Como Augusto dos Anjos, quando diz, em Gemidos de Arte:
 
"Um pássaro, alvo artífice da teia / de um ninho, salta, no árdego trabalho / de árvore em árvore e de galho em galho / com a rapidez duma semicolcheia".

Podemos dar o desconto, num poema de mais de cem anos, de um termo hoje em desuso como "árdego" ("árduo, duro, difícil"). Quando o poeta qualifica o pássaro como um "artífice" refere-se ao seu trabalho de construir o ninho, mas por outro lado prepara o terreno para a comparação que vai fazer com o mundo da arte, do artificial: nos galhos horizontais das árvores, o pássaro se move como que reproduzindo as posições das notas musicais nos traços de uma partitura.
 
O haicai é um tipo de poesia japonesa que tenta produzir na mente do leitor, em apenas três linhas, a imagem de uma cena, com o ambiente humano ou natural que a cerca, o tempo (a hora do dia ou a estação do ano) e o conjunto de emoções resultante da combinação disso tudo.  Um haicai, com sua linguagem concentrada, é a síntese de tudo isto expressa sob uma forma visual.

O poeta Paulo Leminski comparou a arte do haicai à da fotografia: o clique instantâneo fixando um momento que jamais se repetirá. A essência, o mistério e a delicadeza desse momento podem ser reconstituídos pela imagem visual que deixou.
Yosa Buson (1716-1784): "Sobre o sino / repousa e dorme / a borboleta".

Matsuô Bashô (1644-1694): "O velho lago. / O ruído do salto / da rã na água".

Carlos Seabra: "Velho jornal / levado pelo vento / prevê temporal"; "No despenhadeiro / a sombra da pedra / cai primeiro".

Alice e Estrela Ruiz: "Engano amigo / tenho a impressão / que a lua vai comigo".


Verso popular


A poesia popular cultiva fotografia verbal, como na sextilha de Manoel Xudu:

"Eu admiro o pião / quando ele sai da ponteira / fura um buraco no chão / forma nuvem de poeira / com tanta velocidade / que muda a cor da madeira".

Ou Ismael Pereira, descrevendo o modo repentino como chegam as enchentes do sertão:
"O sertão estava enxuto / de repente a chuva veio / a peixeira do relâmpago / rasgou a nuvem no meio / o rio foi dormir seco / quando acordou, ‘tava cheio".

Em versos assim concretiza-se o que Calvino descreve como sendo a missão de Dante, na Divina Comédia:
"O poeta deve imaginar visualmente tanto o que seu personagem vê, quando aquilo que acredita ver, ou que está sonhando, ou que recorda, ou que vê representado, ou que lhe é contado, assim como deve imaginar o conteúdo visual das metáforas de que se serve precisamente para facilitar essa evocação visiva". 


Braulio Tavares

é compositor e autor de livros como Contando histórias em versos (Editora 34, 2005) e ABC de Ariano Suassuna (José Olympio, 2007)

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