A pedagogia do chinelo

Agressões físicas a crianças e adolescentes se mantêm em casas e escolas de vários países – às vezes autorizadas pelos próprios pais

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Sérgio Guimarães*

Feche os olhos por alguns instantes. Não já, claro, senão não vou conseguir nem passar a proposta de exercício. Sugiro que você o comece assim que eu disser “já”, mais adiante. Tente se lembrar de você como criança. “Que é que cê tá fazendo aí?” Pense em você fazendo alguma coisa errada, em casa ou na escola, tanto faz. O que é que aconteceu? Lembra da cara da tua mãe, ou do gesto do teu pai? O que foi que a professora fez? Procure se lembrar também como é que você se sentiu. Quanto tempo dura o exercício? O necessário pra você encontrar as imagens na memória e pensar um pouco sobre elas. Vamos lá, pode começar. Já!



E aí, apanhou? Foi chinelada ou foi com cinto? Tapa na bunda? Na cara?! Fio de ferro de passar, nas pernas? Tamancada, beliscão, puxão de orelha, de cabelo, safanão, cabeçada na parede, murro na cabeça, pontapé, reguada… Se eu fosse pedir agora para cada um dos milhares de leitores de
Educação

partilhar com os outros – como em sala de aula – o resultado desse pequeno exercício, a lista ia ser muito mais longa. Isso aqui é apenas um artigo, cabe não.




Uma coisa é certa: vai ser difícil encontrar alguém que nunca tenha apanhado ou sofrido algum tipo de castigo físico quando criança: ajoelhar no milho, ficar de pé atrás da porta ou no corredor, segurar livros pesados com os braços abertos na frente da classe, o quê mais?






“Grito? Pego o chinelo?




Viro a mão?”





A Pedagogia do Chinelo



: desde os tempos do meu curso de magistério trago o título de um possível livro na cabeça. Instituto de Educação, sabe como é: tantas matérias – psicologia da criança, filosofia, sociologia educacional, didática, tudo tão bem estruturado, com tantas nuances teóricas, tantos autores, tudo tão bonito!




Aí você chega em casa, depois de um dia cheio de aulas, a criançada correndo dum lado pro outro, a maior bagunça. “Falo uma vez, nada. Falo mais alto, e a baderna continua. O que é que eu faço? Grito? Pego o chinelo? Viro a mão?” Como dizia o jornalista Joelmir Betting – que, se não me falha a memória, até escreveu um livro sobre economia com esse título – “na prática, a teoria é outra”.




No caso desse meu livrinho, aliás, a idéia não era fazer tese, não. Era ir juntando uma porção de situações concretas do dia-a-dia como essas lembradas acima. Em casa, em sala de aula, na rua, onde fosse. Ouvir crianças, pais, professores. Refletir e escrever um pouco sobre o que é que nos leva ao uso da força contra as crianças – começando às vezes pelos nossos próprios filhos, em nome da educação. Olhar também pra trás e pra fora: como é que nossos antepassados tratavam as nossas crianças, como é que elas são tratadas hoje, no Brasil e em outros cantos do mundo. Um livrinho com linguagem simples, que fugisse do palavreado acadêmico e pudesse ser lido pelos meus colegas professores primários, por exemplo.




Como a idéia era de livro, não de artigo pra jornal ou pra revista, não houve data marcada. Aí, os livrinhos em parceria com Paulo Freire (
Sobre Educação,

dois volumes
; Aprendendo com a Própria História,

dois volumes
;

e
A África Ensinando a Gente

, todos da Paz e Terra, entre 136 e 196 págs., R$ 27 em média, cada) acabaram passando na frente, e
A Pedagogia do Chinelo

foi ficando pra escanteio. Mas nem por isso: dez, 20, 30 anos depois da idéia do título, mundo afora, continuo recolhendo material. De lá pra cá, evidentemente, muitos livros, artigos, reportagens já saíram sobre o assunto. Se tiver acesso à internet, por exemplo, verá que são milhares as referências, sobretudo em inglês. O problema aí, cada vez maior, é o de conseguir enxergar o milho no meio da palha, mas isso já é outra conversa.




Quer saber? O fato é que fala, fala, passa o tempo,
A Pedagogia do Chinelo

sai não sai, e o uso da força contra as crianças continua correndo à solta pelos quatro cantos do mundo. Exemplos?




Estudos feitos nos Estados Unidos, nos anos 90, mostram que cerca de 90% dos pais com crianças de 2 a 6 anos castigam seus filhos fisicamente. E, veja só: à medida que as idades sobem, as porcentagens caem – são de 75% a 80% quando as crianças têm entre 7 e 10 anos; 50% continuam batendo quando elas têm 13 anos; 32% aos 16 anos; e, finalmente, “apenas” 18% batem nos filhos de 17 anos. Trocando em miúdos: quem é pequenininho, com menos condições de reagir e, portanto, mais fisicamente vulnerável, apanha mais.




Na França, segundo uma pesquisa de 1999, 85% das crianças apanham dos pais. Apesar dos castigos físicos estarem proibidos por lei desde 1887, 44% dos professores primários franceses confessaram, em 1990, dar palmadas na bunda dos alunos, sabia?




Até no Japão a coisa aperta pra criançada: entre 1990 e 1995, foram registrados entre 700 e mil casos de castigos físicos nas escolas, por ano. Uma pesquisa feita com 600 mães de filhos com 13 anos revelou que 56% deles haviam recebido castigos corporais. Cinqüenta por cento das mães declararam aceitar essas punições em caso de mau comportamento dos filhos. Note: a primeira lei japonesa proibindo o castigo físico nas escolas saiu em 1879, caiu em 1885, voltou em 1890, caiu de novo em 1900, e voltou uma vez mais, até hoje, desde 1941.




Um exemplo africano: em novembro de 2001, o então presidente da República da Libéria, Charles Taylor, fez questão de ir à escola de uma de suas filhas, Edena Taylor, de 13 anos, para castigá-la por mau comportamento. Diante dos alunos todos e de seu fotógrafo oficial, fez a menina deitar de bruços sobre a mesa do professor e deu-lhe dez chibatadas. As fotos e a notícia do evento rodaram o mundo.





O silêncio quebrado, cena de terror





Quanto ao Brasil, tenho estado fora desde 1985, portanto vocês sabem da situação certamente melhor que eu. Pelo que vejo na mídia, o tema volta e meia vem à tona, e o silêncio vai sendo quebrado. Dois casos concretos:




Psicólogos lançam a campanha
Palmada, não!

contra os tapas em crianças e afirmam que esse modo de impor limites não ajuda a educar. Uma extensa matéria
on-line

da revista
IstoÉ,

de 27 de fevereiro de 2002, deu bom eco a essa iniciativa do Laboratório de Estudos da Criança (Lacri), do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).




Uma reportagem de mais de 5 minutos foi o tema de abertura do programa
Fantástico

, da Globo, dia 11 de julho deste ano. “Os pais devem ou não dar palmadas nos filhos? A pergunta, que pode parecer banal, virou tema de debate num dos mais importantes parlamentos da Europa [
Inglaterra

]” – informa um dos apresentadores. “Qual deve ser, afinal, o limite que os pais devem seguir na hora de repreender os filhos?”. E aí, em voz
off

diante de uma cena de terror do famoso filme com o gorila King Kong (1933), a apresentadora comenta: “Os pais que perdem a paciência acabam ficando com a fama de vilões. Mas controlar um pestinha só com bons argumentos é mais fácil nos livros do que na prática.”




Livros? Há certamente vários no mercado editorial brasileiro a respeito, mas um deles me chamou particularmente a atenção. Esse sim, verdadeira tese, que vale a pena consultar:
Violência de Pais contra Filhos: A Tragédia Revisitada,

da doutora Viviana Nogueira de Azevedo Guerra (Cortez, 264 págs., R$ 28).






A força, em nome da


educação: sim ou não?







A Pedagogia do Chinelo

por enquanto continua na moita. Vou terminar primeiro o
Sobre Educação –


Lições de Casa

, o último da série em parceria com Paulo Freire. Aí, seqüência lógica, vou ver se consigo desencalhar o tal livrinho. Como provável subtítulo, a pergunta: “sim ou não ao uso da força contra a criança, em nome da educação?”.




E pra que você não pense que vou apenas alimentar o debate, encarapitado em cima do muro, aqui vai a dica: a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança – de longe o tratado internacional mais reconhecido da história desde que a gente anda em pé (com apenas dois países que não o ratificaram: os Estados Unidos e a Somália) -, em seu artigo 19, garante a toda criança o direito à proteção “contra todas as formas de violência física ou mental, dano ou sevícia, abandono ou tratamento negligente, maus tratos ou exploração, incluindo a violência sexual, enquanto se encontrar sob a guarda de seus pais ou de um deles, dos representantes legais ou de qualquer outra pessoa a cuja guarda haja sido confiada.”





Nesse tal debate, portanto, a resposta curta e simples é: não.




*Sérgio Guimarães é educador, escritor e representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na Guiné-Bissau, desde 2001



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