A palavra cantada

A palavra devolvida à sua origem, de onde nunca saiu: sua musicalidade

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O livro O canto das musas – poemas para conhecer, ler, recitar e cantar se apresenta como um trabalho caracterizado pela ousadia. Como?A resposta parece ser clara: lançar-se num projeto educacional poético (entenda-se poético como uma reunião de fazeres) é, já de si, uma marca de ousadia. A primeira entre algumas que enumeraremos.


A ousadia é marca do modo como o projeto está proposto – educar musicalmente reunindo música e poesia propriamente dita. Ou vice-versa, o que é o mesmo, diga-se de passagem, educar poeticamente reunindo os mesmos elementos. A apreciação dos poemas se dá por aquilo que menos atentamos neles – seu ritmo e sua sonoridade.


Outro modo da ousadia é evitar as fastidiosas análises de conteúdo, já tão feitas, refeitas e desfeitas em relação aos poemas e mesmo à música. Isto já seria um mérito, mas mostrar o que faz com que um poema seja efetivamente um poema é pensar o poema por um caminho primeiro, original e originário.


Diga-se de passagem: um poema se faz não pelo que diz (para dizer não há necessidade do poema, esta necessidade só se dá com o poema, pelo poema desde o poema) e sim pelo como o faz presentificar-se concretamente, isto é, sua substantividade que são som e ritmo. Nos encantamos primeiro a partir destes e depois podemos até racionalizar os conceitos e representações que o encanto sonoro-rítmico torna possível.


O ousado se torna perceptível na sua forma de organização: um livro, um CD e um livro de proposta de utilização. Bem, diria alguém: mas já vimos isso em outros livros! É verdade. Mas não do modo como este trabalho realiza. O livro traça um perfil amplo da poesia brasileira, mas sua preocupação vai além das cronologias e das cronometrias – o livro mostra o modo como essas poesias vêm a ser efetivamente poesia e aí está a novidade.


O ousado se manifesta nas propostas de exercícios de sala de aula, na construção dos exercícios que, principalmente, não fazem a pergunta fatídica: o que quis o autor dizer? Não mostram o que o poeta disse e tentam fazer entender como a construção do poema se deu.


O ousado do CD se mostra nas composições inéditas que exploram uma gama de recursos e estilos de fazer música em que esta se integra ao texto e o conduz como palavra cantada, tradução da palavra grega “musa”. Musa aqui é, como na mitologia grega, filha da memória e constituidora fundamental desta e este é o papel da música no trabalho, que quando utilizada em sala de aula tem tudo para se converter num excelente recurso, seja de uma aula de literatura que tenha por assunto a poesia, seja num trabalho de musicalização. Assim, o que os autores propõem é o mais velho, o resgate da dicção mito-poética, como possibilidade de ser o que de mais novo pode ser alcançado, como, aliás, nunca deixou de acontecer. Vale a pena, ao menos para professores de Literatura e de Educação Musical e também para quem esteja interessado em poesia e música, conhecer e considerar.

O canto das musas – poemas para conhecer, ler, recitar e cantar, de Cibele Lopresti Costa, Aline Evangelista Martins e Péricles Cavalcanti, organização de Zélia Cavalcanti (Cia. das Letras, 176 págs., R$ 42).


* Antonio Jardim é compositor, integrante do grupo vocal-instrumental Música Surda, professor de Teoria Literária da UFRJ e de Filosofia da Educação da UERJ

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