A miséria transformada em violência

Documentário Ônibus 174 aponta o modo do Estado lidar com os meninos de rua e a delinqüência juvenil como responsável pela violência no Brasil

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Sérgio Rizzo

Ônibus 174

Brasil, 2002, 130 min.

Direção: José Padilha

Co-direção e montagem: Felipe Lacerda

Distribuição: LK-Tel, tel. (11) 3879-9799


O Dia dos Namorados de 2000 entrou para a história do país graças a um episódio de violência urbana, revelador de aspectos nefastos da sociedade brasileira. Naquela tarde, milhões de pessoas acompanharam ao vivo, pela TV, o cerco policial a um ônibus no Rio de Janeiro. Era um assalto que, involuntariamente, se transformou em seqüestro. A tragédia de 12 de junho, que terminou com um saldo de dois mortos, durou cinco horas, mas os fatores que a provocaram continuam produzindo seus efeitos, sem que boa parte da população se dê conta.

A tomada de consciência pode ser facilitada por Ônibus 174, documentário que reconstitui o episódio com o uso de imagens captadas na ocasião pelas TVs Globo, Record e Bandeirantes. O diretor José Padilha respeita a cronologia dos acontecimentos e adota a estrutura de um filme de suspense. A excelência técnica passa pela montagem das cenas de arquivo, que inclui a contribuição de especialistas em leitura labial para identificar os diálogos dentro do ônibus, e pelos efeitos de som, que recriam a atmosfera em torno do ônibus.

O resultado é tão envolvente quanto um bom filme de ficção, o que lhe valeu diversas críticas. Alguns críticos o acusaram de “sensacionalismo”, ou seja, de manipular os sentimentos do público – pecado mortal para muitos documentaristas. Padilha assumiu conscientemente os riscos e preferiu usar todos os recursos à disposição (incluindo ferramentas narrativas consagradas pela ficção, como a ótima trilha sonora, que sublinha os momentos mais dramáticos) para transmitir o seu recado.

Qual era? A convicção de que o Estado é responsável direto pela violência no Brasil, em virtude do tratamento que reserva a menores de rua, delinqüentes juvenis e pessoas de baixa renda. A defesa dessa tese não vem apenas da reconstituição do seqüestro, mas também da investigação sobre o desastrado seqüestrador, batizado pelos policiais, naquela tarde dos horrores, como “Sérgio”. Era Sandro do Nascimento, ex-menino de rua, sobrevivente do massacre da Candelária, em 23 de julho de 1993, a quem os colegas haviam apelidado “Sombra”.

Tratado pelo circo da mídia como um bandido sem rosto, Sandro readquire identidade no filme. Sua vida é reconstituída paralelamente à recriação do seqüestro, realçando a dramaticidade social do episódio. Imagens de arquivo, documentos e depoimentos fazem mapeamento detalhado de sua trajetória, semelhante à de inúmeros jovens brasileiros, vítimas da “desumanização institucional dos miseráveis urbanos”, segundo o cineasta. Sandro teve o infortúnio adicional de alcançar o palco principal da nossa sociedade televisiva. Ônibus 174 argumenta que os incidentes daquele Dia dos Namorados exemplificaram, na visão de Padilha, o “processo tipicamente brasileiro, capitaneado pelo Estado, que transforma miséria em violência”.




*jornalista e professor, crítico da Folha de S. Paulo. E-mail:




srizzojr@uol.com.br





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