“A melhor idade”

A linguagem não pode ser ensinada como se todos fossem um só

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Pensei que estivessem usando a expressão para (cruelmente) designar aquilo que, até há bem pouco tempo, era a "terceira idade". Enganei-me. Em qualquer debate, a pergunta insistente passou a ser: "Qual a melhor idade para aprender a ler? Os seis, ou os sete anos?" Talvez ainda sejam organizados congressos para se encontrar resposta para uma pergunta que aporta um pressuposto – o de que todos deverão fazer o mesmo, aprender o mesmo, no mesmo momento: "Qual é a melhor idade para aprender a ler?"

Perguntas sem sentido, pois conheço crianças de quatro anos aptas para a alfabetização e jovens de dez anos sem condições para aprender a ler. Sempre as mesmas inúteis discussões. Sempre as mesmas abstrações. Quando se refere a palavra "aluno", de qual aluno (em concreto) estaremos a falar? Do João? Da Maria? De nenhum.A melhor idade é a idade de cada qual.

O processo de letramento é um processo de inclusão. Aprender a ler é desejo e esforço. A linguagem é produção social. E não pode ser ensinada como se todos fossem um só. A linguagem é aprendida socialmente, nas interações verbais, como nos avisam Bakhtin e Freire. Ao ensinar a ler como se todos fossem um só, a escola não promove o uso da leitura e da escrita como meio de comunicar e de assumir cidadania.

Quando uma professora quis ensinar a letra fê, recorreu a uma daquelas frases de antologia, que só traduzem desprezo pela inteligência e criatividade da infância. Leu para toda a turma, ao mesmo tempo, do mesmo modo: "A mãe afia a faca".

"A Fia sou eu! – exclamou uma aluna.
"Não é nada disso, Jéssica! Eu disse afia! Afia é como. amola. Percebeste?"
"A mola?" – perguntou a aluna, com cara de
nada entender.
"Sim. Amola! Já vi que compreendeste!" – concluiu a mestra.
Por este fonético equívoco e por outros é que alguém já disse que a linguagem é fonte de mal-entendidos. Quando visitava uma escola, perguntei a um pequenito: "Estás a ler essa revista?"
"Não. Eu estou só vendo e cortando. Não estou lendo!"
Sábio moço! Tinha consciência de que cortar de uma revista palavras "que tivessem o ca e o co", como mandara fazer a professora, não era o mesmo que ler. Nunca lera Boff, mas sabia que cada leitor e cada escritor é coautor, que cada leitor lê e relê com os olhos que tem, porque compreende e interpreta a partir do mundo que habita.
Aquilo que, desde 1998, consta dos PCN, não chegou às salas de aula. Uma pesquisa recente diz-nos que metade dos professores nem sequer leu o que lá está escrito. Talvez por isso se deixem influenciar por quem quer rever um documento que nunca passou à prática. Talvez por isso se deixem envolver em debates estéreis como os que visam definir "qual é a melhor idade para começar o fundamental". Talvez por isso a alfabetização de adultos cresça exponencialmente e o analfabetismo funcional prospere….

Já adultos, os alunos sabem por que querem aprender a ler: "Eu vim aprender a ler, para poder ler os bilhetes que estão nos bolsos do casaco do meu marido". Mas também os menores nos podem dar lições de pedagogia. Como a Luciana, da 8ª série: "Ler é saber em silêncio".

Apesar das evidências – que exponho e denuncio – sei que os professores não são desistentes: "Os nossos alunos, em sua grande maioria, repudiam a escola, querem fugir dela. Nossa escola sufoca, não desenvolve a cidadania, mas nós acreditamos numa outra escola, e vamos lutar para que ela exista".



José Pacheco


Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)


josepacheco@editorasegmento.com.br

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