A matemática se transforma

Métodos para melhorar a disciplina

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Noêmia Lopes



De tal modo envolvidos em jogos com ábacos e sólidos geométricos, aqueles alunos de quinta série nem perceberam o sinal que anunciava a hora do intervalo. “Eles curtem muito. Não tenho alunos que rejeitam a matemática. Ela não é mais a grande vilã do ensino”. A declaração é da professora Neusa Bendoni Alves, do Colégio Santa Maria, em São Paulo (SP). Depois de alguma insistência, ela consegue mandar para o recreio os três últimos garotos entretidos com os materiais da aula, que terminara minutos antes. Despertar e estimular nos estudantes brasileiros o prazer de aprender matemática é um desafio possível e necessário. Ainda que, dentre as demais, essa disciplina desempenhe tradicionalmente o papel de “bicho-papão”. Na última prova do Pisa (Programa Internacional de Avaliação dos Alunos), o desempenho matemático do Brasil foi o pior entre 40 países. Os resultados obtidos pelos Provões e pelo Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica) também são desanimadores e mostram que a média do aproveitamento em matemática é a mais baixa.

O Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional também alerta: apenas 23% da população domina as habilidades matemáticas necessárias ao cumprimento das tarefas cotidianas. Ou seja, uma grande parcela da sociedade não compreende, por exemplo, a construção de gráficos para descrever a aplicação de taxas de juros.


Os problemas –

Os motivos geralmente citados para explicar a origem desse quadro são a precariedade das condições de ensino e os equívocos de determinadas orientações pedagógicas. “Na maioria das escolas, a matemática ainda é ensinada de forma desinteressante e pobre. Por isso, boa parte de nossos alunos não tem a menor noção de sua importância, nem de como ela pode ser fascinante e divertida. Qual deles sabe, por exemplo, que os efeitos especiais dos filmes dependem da matemática? Assim como os jogos eletrônicos e a gravação dos CDs que eles tanto gostam de ouvir?”, questiona a professora Suely Druck, presidente da Sociedade Brasileira de Matemática.

Entre as deficiências apontadas por Suely, estão as conhecidas deficiências na formação acadêmica dos docentes e as carências de estrutura – tais como a falta de laboratórios e de bibliotecas à disposição dos professores. Além, é claro, dos baixos salários. “Obviamente”, diz ela, “não foram os professores que optaram por essa situação. Falta um ambiente motivador ao ensino da matemática e das demais ciências exatas”.

Além desse ambiente motivador, num cenário ideal deveriam existir mecanismos de formação ininterrupta e promoção de contatos permanentes com as pesquisas nacionais e internacionais da área. “A atuação contínua e conjunta dos professores e alunos é indispensável para o bom andamento dos processos de avaliação e decisão necessários a um ensino de qualidade”, afirma Cristina Magalhães, responsável pela área de matemática na educação infantil e no ensino fundamental da Escola Vera Cruz, em São Paulo (SP).

“Se não há professores bem formados, recebendo formação continuada, o que esperar dos alunos?”, questiona Miguel Arruda, professor de Física do Colégio Santo Américo e coordenador pedagógico do Curso Gabarito, ambos em São Paulo (SP).

A urgência do esforço se justifica: muitos profissionais com boa formação matemática se afastaram das questões do ensino da disciplina diante do cenário desfavorável que se formou nas últimas décadas. Suely conta que “a definição de políticas sobre a matemática passou a acontecer com pouca ou nenhuma interferência dos pesquisadores. As diretrizes que têm orientado o ensino da disciplina vêm sendo formuladas sem o necessário suporte de conteúdo, o que apressa o processo de deterioração”. Ou seja, afastados da pesquisa, os professores limitam-se a transmitir mecanicamente um conhecimento já cristalizado e distante das demandas atuais da sociedade.

Do exterior, chegam exemplos de projetos que resultam de um contato direto com a academia. É o caso de Matemática em Ação, da Universidade de Moscou, que conta com a participação de Vladimir Arnold, um dos maiores matemáticos da atualidade. E também do francês Com a Mão na Massa, coordenador por Georges Charpak, prêmio Nobel em Física em 1992.

“A excelência em matemática pode ser útil para exibições em concursos ou estatísticas internacionais. Mas em nada contribui para o avanço real da ciência se não vier acompanhada de sólida formação ética, filosófica e metodológica, tal como se observa nas obras de homens como Giuseppe Peano e Julius Dedekind”, alerta o matemático Carlos César de Araújo, coordenador do site Matemática para Gregos e Troianos. Em outras palavras, o bom ensino da matemática também depende de sua articulação com as chamadas humanidades. “A exemplo do que já foi feito em outros países, todos os participantes do processo de ensino e aprendizagem da matemática seriam envolvidos e teriam responsabilidade na avaliação e na tomada de novas posições”, diz Cristina, do Vera Cruz.


Propostas de solução –

A comunidade matemática sabe o que está acontecendo, conhece os indicadores nacionais e internacionais e busca, não raras vezes, projetos que auxiliam o ensino da disciplina. Alguns projetos demandam estruturas mais elaboradas e investimentos maiores. Outros, nem tanto. Fundamentam-se em conceitos tão básicos e singelos quanto eficientes.

A professora Neusa, do Colégio Santa Maria, aplica um exercício simples e que engloba uma série de conceitos a serem trabalhados na 5ª série. Tudo começa com gravuras de objetos recortados pelos alunos em anúncios de jornais ou revistas. O produto escolhido pode ser, por exemplo, uma geladeira. Observando em quantas vezes ela pode ser adquirida no mercado e quais são as formas de pagamento, introduzem-se elementos de matemática financeira. Depois da explicação, os alunos montam uma feira e trocam as mercadorias. Vendedores e compradores anotam todos os valores em uma planilha, trabalhando assim a soma de números decimais. E preenchem cheques de mentira, treinando a escrita de números por extenso. “O que mais fazemos aqui é construir. Exponho uma situação-problema e os próprios alunos elaboram uma saída para ela, partindo do que eles já conhecem”, diz a professora. Ela conta também que, instigadas e curiosas, as crianças perguntam os porquês de todos os novos conceitos e querem saber em que situações podem aplicá-los.

A mesma produção do conhecimento é perseguida no Santo Américo, que oferece a matemática de maneira não-estratificada, apostando na capacidade dos alunos em todas as etapas da aprendizagem. “A matemática não pode ser algo estanque. Ensinamos geometria e leitura de tabelas desde a primeira série. Quando, lá na frente, o jovem se depara com estruturas moleculares e tabelas de indicadores sociais, já está preparado para entendê-las”, afirma o professor Antonio Luiz Laurindo, coordenador pedagógico do colégio.

O Santo Américo também oferece cursos de aprofundamento, como matemática fundamental e financeira. “Além de ajudar na aprovação em vestibulares, esse aprendizado é para a vida toda. O aluno certamente vai levar a habilidade de raciocinar para sua atuação profissional”, Diz Miguel Arruda.

Reunir professores e alunos em torno de uma reflexão sobre a pertinência, a coerência e as finalidades das atividades propostas é o que procura a coordenação pedagógica da Escola Vera Cruz. “Nosso objetivo é formar cidadãos capazes de perceber os processos de formação e de comunicação do conhecimento matemático, valorizando a produção coletiva. Esse modo de trabalhar interfere no processo de estudo da matemática, melhorando o interesse e os resultados alcançados”, diz Cristina Magalhães. Os estudantes são estimulados a comparar, rever e discutir o que produzem, ajudando uns aos outros e se responsabilizando pelo o que fazem e dizem em classe.

Essas técnicas dão à matemática um toque divertido, mas o objetivo desses procedimentos vai muito além da brincadeira. “O prazer do aprendizado é fundamental. Crianças e jovens gostam de ser desafiados, tanto que são capazes de pagar para jogar fliperama. Longe de assustar, os desafios ampliam o interesse”, afirma Luís Carlos de Menezes, coordenador dos cursos de pós-graduação em Ciências do Instituto de Física da Universidade de São Paulo. O problema está, segundo ele, em apresentar os desafios de uma maneira errada, que não façam sentido para os estudantes. Há desafios adequados para cada etapa do aprendizado em literalmente qualquer produto oferecido pelo mercado.

O material para apoiar o ensino da matemática encontra-se em toda a parte. Uma simples garrafa de água mineral pode servir de exemplo. As informações incluídas em qualquer rótulo estão em linguagem matemática e mostram a relação custo benefício existente entre o preço do produto e o conteúdo da garrafa. “As pessoas não fazem essa divisão porque não estão acostumadas a usar a matemática como linguagem. Com esse tipo de exercício, a criança pode até questionar o comportamento dos pais na hora de comprar um produto. E quando a criança se comporta como protagonista na vida econômica da família, desenvolve também o espírito crítico e a cidadania. A matemática torna-se ainda mais divertida ao valorizar a auto-estima. O problema, portanto, não está na matemática. Está na escola mal conduzida e no professor mal preparado”, conclui Luís Carlos.

“Existem excelente iniciativas, coordenadas por colegas muito competentes, a maioria ainda de pequeno alcance e que deveriam ser apoiadas para ter maior abrangência”, afirma Suely Druck. Ela exemplifica esse tipo de experiência com um programa coordenado pelo professor Valdenberg Araújo, no interior do Sergipe.

O trabalho consiste no treinamento matemático voluntário de crianças e jovens selecionados pelo professor e é dirigido a alunos de famílias de baixíssima renda. “Desses grupos”, diz Suely, “têm saído alunos brilhantes, que iniciam mestrado e doutorado em matemática ainda muito jovens. Alguns já freqüentam o mestrado na faixa dos 14 aos 16 anos. Outros se dirigem a outras profissões, como é o caso de dois estudantes que este ano obtiveram o primeiro lugar no vestibular da Universidade Federal de Sergipe, um em física e outro em engenharia elétrica”. O treinamento não está relacionado à grade curricular, mas trata de tópicos que usualmente não são ensinados nas escolas, como Teoria dos Números.

Mas para resolver a situação nas escolas públicas, onde estuda a maioria dos brasileiros, seria preciso uma ação mais ampla. “Resgatar a qualidade do ensino no país só será possível com a implantação de um projeto nacional e o engajamento dos profissionais da área, que detêm o conhecimento a ser repassado a professores e estudantes”, diz Suely.

Em parceria com o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), a Sociedade Brasileira de Matemática criou a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), projeto aprovado pelo governo federal, a ser implantado em todo o país em 2005. Um piloto parece comprovar a eficiência dos desafios, acima mencionada pelo professor Luís Carlos de Menezes: mostrou crianças e jovens da rede pública exibindo grande disposição e prazer de passar horas a fio mergulhados em problemas de matemática.


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