A luta por um lugar ao sol

O relato de um brasileiro que, durante um ano, ministrou aulas de português para estudantes universitários chineses

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Alunos do Ensino Médio deslocam-se para a atividade externa na cidade de Xi’na



Apesar da crise financeira que assola o mundo, a China, país que só pode ser descrito com superlativos, continua a crescer num ritmo assombroso e a reconfigurar a geopolítica mundial. Uma das causas desse crescimento foi a grande reforma na educação levada a cabo pelo governo chinês nos últimos 20 anos. Com ela, o ensino fundamental tornou-se obrigatório e gratuito em todo o país, diminuindo as taxas de analfabetismo e evasão escolar para perto de zero em todo o território.

Há cerca de dois anos, fui convidado a ensinar português como língua estrangeira em uma universidade chinesa e ali observei de perto o funcionamento das instituições de ensino. O ensino superior, todo ele público, vive grandes desafios após registrar significativo crescimento na oferta de vagas, seguindo as diretrizes de progresso do governo. Um deles é a insuficiência de professores capacitados para suprir essa demanda, um entrave na manutenção da qualidade. Outro problema causado por esse salto na quantidade de estudantes nas universidades é a falta de vagas no mercado de trabalho para absorvê-los. Estima-se que apenas 70% dos graduados nessas instituições encontram emprego correspondente à sua formação. Como o país carece de mão de obra menos qualificada, o Ministério da Educação está preocupado também em incentivar a formação não acadêmica, oferecida por colégios técnicos e profissionalizantes.

A escolha da carreira dos estudantes chineses começa a se delinear cedo: com cerca de 15 anos, quando estão terminando o ensino considerado fundamental no país, composto pelos anos da escola primária e secundária de primeiro ciclo, totalizando, como no Brasil, nove anos de estudos obrigatórios. Dos 15 aos 18, existe um "segundo tempo" do ensino secundário, não compulsório nem gratuito, quando os jovens escolhem entre estudar em uma escola normal, de currículo semelhante ao do ensino médio brasileiro, ou ingressar em uma escola profissionalizante. Nos dois casos, há exames para quem quiser matricular-se e as notas  mais altas garantem as vagas nas instituições mais caras.

Nesse momento, as economias da família passam a fazer diferença no futuro do estudante. Aqueles que cursam a escola normal geralmente tentarão ingressar em uma universidade. Para que isso ocorra, terão de passar por um exame nacional, que testará seus conhecimentos de chinês, inglês, matemática e de uma matéria específica de área relacionada ao curso de sua escolha. Aqueles que obtiverem maior pontuação nos testes terão a chance de entrar em uma instituição de melhor qualidade. Há cotas para alunos de zonas rurais e de províncias mais pobres, resultantes da tentativa de diminuir o enorme desequilíbrio existente entre as diferentes partes do país.

Para que cidadãos chineses tornem-se globalmente competitivos, o Partido Comunista chinês está investindo muito para que as dez melhores universidades do país, entre elas a de Pequim e a de Tsinghua, alcancem o patamar dos grandes centros de ensino superior do mundo. Ao mesmo tempo, outras universidades carecem de professores devidamente habilitados e recursos didáticos e tecnológicos. Os alunos mais abastados e que tiveram acesso a melhores escolas conseguem vagas nas universidades de ponta, enquanto aqueles que não tiveram a oportunidade de preparar-se bem acabam em instituições menos reconhecidas, num processo de seleção naturalizado pelo sistema. Às vezes, os alunos de menor poder aquisitivo têm de cursar faculdades alternativas, pois as vagas de sua primeira escolha foram ocupadas por alunos com notas mais altas.

Como o ensino fundamental na China é quase todo público, com a elaboração de seu conteúdo bastante centralizada, existe uma coesão entre o que é ministrado pelas escolas e o que é exigido pelas faculdades. Dessa forma, qualquer que seja o nível da universidade em que o aluno tenha entrado, ele estará apto a acompanhar as aulas que serão ministradas.

Uma exceção talvez se dê quando os chineses têm aulas com professores de outras nacionalidades, como foi o caso dos meus alunos. Na universidade de estudos estrangeiros em que trabalhei, haviam me informado que eu poderia falar com os alunos chineses em inglês. Descobri, porém, que o inglês exigido nesses casos é apenas o básico e se restringe ao escrito. Assim, a maioria não conseguia comunicar-se oralmente comigo, o que tornava a situação desafiadora para as duas partes. Por outro lado, uma qualidade que temos de levar em conta no ensino superior chinês é o fato de todos terem uma ideia clara do que significa o mercado globalizado para o país.

 Meus alunos eram provenientes de muitas áreas diferentes e eu percebia a dificuldade daqueles provenientes de províncias mais distantes e pobres, e mais ainda daqueles de zonas rurais. Quanto mais afastados dos grandes centros urbanos, mais os estudantes tinham uma formação que se assemelhava às antigas tradições chinesas de estudos através da memorização, em detrimento de um ensino mais questionador. Essa tradição vem da época imperial, em que funcionários públicos eram escolhidos por meio de dificílimos exames baseados em livros confucianos cujos preceitos, não passíveis de reinterpretações, deviam ser decorados à exaustão. Os alunos de áreas mais afastadas também tinham o desafio de se adaptar à cidade e, assim como a maioria dos outros, à vida longe da família: os universitários dormem e comem nos campi durante os cursos.

Outro fator a se considerar na formação de um jovem chinês é a pressão feita pelos pais para que se saia bem em toda sua vida estudantil, principalmente na universidade. Apesar de existir um subsídio governamental para os universitários, eles e suas famílias têm de pagar um valor que gira em torno de US$ 800 dólares anuais, o que não é pouco se levarmos em conta que a renda média familiar na China gira em torno de US$ 2,5 mil anuais. Se pensarmos na política chinesa, que proíbe os casais de terem mais de um filho, teremos ideia da responsabilidade que os estudantes carregam. Devem fazer valer a poupança de vários anos de seus familiares, que, justamente por estarem tão preocupados com seu futuro, acabam por escolher até o curso em nome do estudante.


Diego Lajst


é membro do Coletivo Galeria Experiência (



www.galeriaexperiencia.com.br



)

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