A libélula e a tartaruga

Se você é um “adulto maduro”, livre-se de tudo que lhe dá peso, conte estórias e se aproxime das crianças

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Dizem que são estórias para crianças. De fato, elas gostam. Mas os adultos, se souberem ler nas entrelinhas… Ah! É nelas que estão escritas as coisas que só a alma pode entender. Veja esses versos em que Fernando Pessoa está se dirigindo a um poeta, quem sabe a ele mesmo: "Cessa o teu canto. Cessa, que, enquanto o ouvi, ouvia uma outra voz como que vindo nos interstícios do brando encanto com que o teu canto vinha até nós". Sim, muito bonitos os teus versos. Mas me comove mais o que vem nos silêncios do que dizes.

Escrevi uma estória para crianças com o título "A libélula e a tartaruga". Mas o que está nas entrelinhas se dirige aos adultos. A libélula é fragilidade, leveza, capacidade de pairar no ar, de fazer vôos rápidos e inesperados. Libélulas são crianças. Já a tartaruga, pesada, vagarosa, cartesiana, sem dúvidas, confiável – é símbolo do adulto maduro.
Mas, o que é um adulto maduro? "A maturidade é um estado da mente que se acomodou, que está em paz com as coisas do jeito como elas são, que abandonou os sonhos mais loucos de aventura e realização. Não é difícil perceber que essa noção de maturidade é funcional na medida em que ela dá ao indivíduo uma racionalização por ter encolhido os seus horizontes." (Peter Berger)

Os sólidos-maduros, por lhe faltar leveza, podem ter um fim trágico. Aconteceu com os dinossauros. Por isso, gostaria de seduzir vocês, diretores, a brincar de libélula, ainda que seja só por um mês, para ver o que acontece.

Comece por se livrar de tudo que lhe dá peso. Troque as fotografias de secretários, governadores e presidentes da sua sala por imagens de crianças, bichos e flores. Fique menos em sua sala. Proíba que os alunos sejam enviados à diretoria por indisciplina. Eles acabarão por identificar a sua sala com um pelourinho.

Recuse a função de guardador do patrimônio público. Fique mais com as crianças. Você ficará mais jovem e as crianças a amarão. Mande fazer balanços para adultos no pátio da sua escola. Inaugure o balanço. Não dê muita bola para os relatórios. Eles não serão lidos e, se o forem, não farão a menor diferença.

Conte estórias. Para isso você deverá se preparar como uma artista: passe a gastar parte do seu tempo doméstico numa coisa deliciosa, lendo estórias infantis. Olhe para os professores com um olhar manso. Não os tenha por subordinados. Tenha-os por amigos. Afinal de contas, você não é diretor, você está diretor, provisoriamente. Tenha tempo para conversar com eles fora de reuniões burocráticas. Fale pouco. Ouça muito. Não se esforce por ter razão. O desejo de ter razão é prova de mediocridade. Jamais destrua uma opinião, por mais tola que lhe pareça. A pessoa que a emitiu não a considera tola. E bem pode ser que a idéia tola seja a sua.

Seja um pouco como Sócrates. Aprenda a fazer perguntas e deixe que as pessoas concluam por elas mesmas. Cuidado com os fuxicos. Eles nascem sempre da inveja. Leia a estória da coleção "Asterix: A Cizânia", cujo personagem central é o fuxiqueiro Túlius Detritus. Cada professor, cada aluno, tem um coração, que vale mais do que um programa. Cuide deles.

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