A Leônia brasileira

Grande parte das ações pedagógicas está fadada a uma vida efêmera e ao empobrecimento intelectual

Compartilhe
, / 1089 0



Em
As Cidades Invisíveis

(Companhia das Letras, 152 págs., R$ 29), de Italo Calvino, Marco Polo descreve imaginariamente ao imperador Kublai Khan a geografia e o dia-a-dia das cidades sob seu domínio. Uma delas é Leônia – analogia espetacular das escolas brasileiras contemporâneas. Lá, a cada manhã, seus habitantes jogam fora tudo que lhes serviu no dia anterior: tubos de pasta de dente, lâmpadas, aparelhos de porcelana, pianos, enciclopédias. E a vida recomeça do zero, indefinidamente, sempre a reboque do prazer pelas coisas renovadas e diferentes.

Em Leônia, os lixeiros são alvos de admiração, já que, sem eles, a cidade não suportaria sua realidade de opulência e esquecimento – as duas propriedades conexas definidoras do estilo de vida ali reinante. Tudo seria perfeito para seus habitantes, caso não houvesse a ameaça do lixo acumulado, essa materialidade incômoda daquilo que não serve mais, ecos do passado suprimido.

Em nosso caso, é impressionante a volatilidade dos fazeres escolares cotidianos, a despeito da rotinização e morosidade a eles inerentes. Raros são os profissionais que se recordam dos resultados das “mostras”, “feiras” e “exposições” passadas. Mais raros ainda são os alunos que têm uma vaga lembrança do tema aglutinador dos “projetos interdisciplinares” do ano anterior. Em favor do que despendemos tanta energia em empreendimentos ainda em construção, mas já em ruína?

Da opulência de projetos episódicos e sucessivos para seu esquecimento quase imediato, vamos caminhando ao léu, tornando o cotidiano escolar uma espécie de inferno particular para cada qual: os profissionais sonhando com a aposentadoria; os alunos, com a formatura; ambos, com dias menos massacrantes.

Em consonância ao espírito tarefeiro da época, grande parte das ações pedagógicas está fadada a uma vida curtíssima e, conseqüentemente, a um empobrecimento intelectual sem precedentes. Isso porque carecemos de tempo para a lenta decantação de algumas poucas idéias, idéias potentes e sóbrias – potentes porque sóbrias, sóbrias porque poucas.

Recordemos as montanhas e montanhas de “produções pedagógicas” pontuais e sem propósito que têm os cestos de lixo como destino único. E assim, os lixeiros/profissionais da Leônia escolar brasileira vão garantindo seu futuro duvidoso.

Marco Pólo conta que os detritos de Leônia invadiriam o mundo, caso não fossem comprimidos pelos das cidades vizinhas, ambos escorando-se reciprocamente, misturados em elevações de cume inalcançável e sempre a ponto de desmoronar.


“Basta que um vasilhame, um pneu velho, um garrafão de vinho se precipitem do lado de Leônia e uma avalanche de sapatos desemparelhados, calendários de anos decorridos e flores secas afunda a cidade (…) – um cataclismo irá aplainar a sórdida cadeia montanhosa, cancelar qualquer vestígio da metrópole sempre vestida de novo.”

É preciso dizer mais?



Julio Groppa Aquino é professor da Faculdade de Educação da USP

e-mail:



julio.groppa@editorasegmento.com.br



Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN