A lei do desejo

Ainda considerada tabu em muitas escolas, a sexualidade de crianças e adolescentes exige esforços de educadores e pais para ser tratada de maneira natural e evitar traumas

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Começou feito brincadeira de criança. As duas eram amigas e estudavam na mesma sala. Resolveram, “como diversão”, que uma tiraria fotos da outra. Nua. Mais tarde, a dona da máquina passou alguns dos retratos para colegas da escola, via internet. Sem autorização da amiga e por motivo desconhecido. Alguns meninos imprimiram as fotos e as levaram para a escola. Fuzuê.

A direção fez o que pôde para frear a circulação do material, mas foi como pôr cadeado em porta arrombada. De tanta vergonha, a moça do corpo exposto saiu da escola. Depois da “grande euforia”, houve comoção. Os alunos ficaram introspectivos. Muitos consideraram que o episódio “não foi legal”. E os professores “refletiram sobre como faltam instrumental pedagógico e trabalho emocional para discutir sexualidade de forma natural e assertiva”.

A reconstituição acima, incluindo as frases entre aspas, é de um profissional ligado à escola, e que não quis se identificar. O colégio amadureceu com o incidente, acredita. Hoje, os professores “estão criando ações para estudar o tema”. A escola promoveu, recentemente, um encontro sobre sexualidade, com inscrições gratuitas e a participação de equipe multidisciplinar.

Jovens passam uma parte considerável de seu tempo na escola. Vivem ali muitas de suas primeiras experiências de sociabilização e dão os primeiros passos em direção à autonomia. Logo, o desafio de tratar da educação sexual se impõe a todas as escolas – sem falar que, desde 1997, os Parâmetros Curriculares Nacionais a instituem como tema transversal.

Deve ser trabalhada, portanto, em todas as disciplinas, de forma interligada, da 1ª à 8ª séries do ensino fundamental. Mas, na opinião da psicóloga Ana Cristina Canosa Gonçalves, coordenadora de educação sexual do Instituto Brasileiro Interdisciplinar de Sexologia e Medicina Psicossomática, a falta de formação é o grande problema enfrentado nas escolas, tanto públicas quanto privadas. “Sexualidade não é só genital”, explica.

O instituto é vinculado à Faculdade de Medicina ABC e oferece curso de pós-graduação
lato sensu

em educação sexual. A maioria dos que procuram aperfeiçoamento é composta por professores de biologia e ciências, os mais requisitados a falar sobre sexualidade. Ana acredita, no entanto, que todos os educadores deveriam investir nessa formação.

Especialistas são unânimes: não há regra quanto à idade ideal para se começar a trabalhar o tema sexualidade. Com dois ou três anos, a curiosidade já aparece e não se deve mentir para a criança. É preciso impor limites no sentido de socializá-la, mas fingir que não existe sexualidade na infância é omissão perigosa. Esclarecer a questão contribui, inclusive, para a prevenção ao abuso sexual. A criança precisa saber que pode se tocar, mas não em público, e que adultos não podem tocá-la de determinadas maneiras.

As escolas costumam iniciar esse trabalho, na melhor das hipóteses, na 5ª série. Motivadas por essa lacuna, Ana e Elsa da Silva Palhaes criaram a série
Crescendo na Sexualidade

– quatro manuais, um para cada série do primeiro ciclo do ensino fundamental. Após uma pesquisa de três anos, a obra foi premiada no Chile, durante o XII Classes (Congresso Latino Americano de Sexologia e Educação Sexual). Os livros trazem idéias de como incluir a orientação sexual, transversalmente, em todas as disciplinas. O lançamento está previsto para julho, pela Editora Sttimma.

Muitos pais e professores têm “chiliques” quando a sexualidade se manifesta, observa Ana. Assumem posturas “repressivas e histéricas”. Para ela, é preciso compreender que a sexualidade faz o caminho “sensação, emoção e cognição”. A psicóloga e psicopedagoga Ana Cássia Maturano também acredita que a individualidade prevalece quando se fala em faixa etária para começar a educação sexual. Ela argumenta que, segundo a psicanálise freudiana, o ser humano é essencialmente bissexual. O natural é uma escolha sexual espontânea e inconsciente.

Essa ambigüidade, vivida na infância, vem à tona mais uma vez na adolescência. A escola, acredita Ana Cássia, deveria abrir mais espaço para dúvidas. Na prática clínica, ela constatou que a homossexualidade pode ser fonte de muito sofrimento. Um dos motivos é a exclusão social. Maria Estela Zanini, coordenadora do Programa de Prevenção a Drogas e Orientação Sexual do Colégio Bandeirantes, de São Paulo (SP), ratifica essa visão. Ali, os alunos têm aulas sobre sexo e drogas uma vez por semana.

Maria Estela relata que uma adolescente pediu ajuda para contar à mãe que era homossexual — os educadores que dão essas aulas são escolhidos levando-se em consideração o vínculo com os alunos e passam por treinamento para tratar de forma multidisciplinar essas questões. O colégio indicou terapia para a garota – fundamental, segundo Maria Estela, para que ela elaborasse melhor sua orientação de desejo e lidasse com a família.

A abordagem da sexualidade predominante nas escolas cria demanda por palestras sobre prevenção de Aids, outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e gravidez. Na visão de Ana Cristina Canosa, trata-se de distorção. O sexo é associado com a morte, quando o mais saudável seria começar pelo prazer. Várias dificuldades sexuais podem ter origem na repressão, inclusive da escola. Ana Cássia Maturano considera que as escolas também deveriam dar mais atenção ao aspecto social da discussão. Gravidez precoce e HIV, segundo ela, são assuntos críticos.

Curiosidade, culpa, preocupação, prazer -tudo isso se mistura no universo sexual de jovens e adolescentes. Maria Estela conta que uma dúvida recorrente das meninas das 6ª e 7ª séries é sobre masturbação, principalmente a masculina. Elas têm dificuldades para entender o mecanismo psicológico dessa prática entre os rapazes — que, por outro lado, também demonstram muitas amarras relacionadas à formação.




Reportagem: Faoze Chibli



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