A inveja…

Temos entre nós missionários incultos que se dedicam a vigiar o pensamento e o debate. Leia na coluna de José Sérgio Fonseca de Carvalho

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inveja

Crédito: Shutterstock

Doutor em linguística, Jean Claude Milner seria mais claramente definido como um intelectual público, cuja obra não se limita a investigar um campo específico de conhecimento, mas estende sua capacidade reflexiva aos mais diversos domínios da vida social. No final da década de oitenta, escreveu uma obra polêmica e corajosa, De l’école, na qual fazia críticas contundentes aos rumos que a escola francesa tomou e aos ataques de que tem sido alvo. Em um de seus mais instigantes capítulos, Milner volta sua crítica ácida para os ataques de uma imprensa missionária que, alegando ter como meta salvar a escola, não pretende mais do que produzir um discurso que a torna supérflua.

Ao lê-lo me recordei de nossos missionários, bem menos cultos do que os jornalistas do Le Monde, mas igualmente invejosos daquilo que creem que nós, professores, somos — e que eles, missionários, jamais o serão. Pensava, pois, na nossa versão tropical e, em geral, pouco escolarizada desses missionários. Pensem vocês, leitores, se o quadro por ele descrito não os lembra de insignificantes vereadores a visitar escolas (da qual, aliás, parecem ter tirado pouco proveito) para supostamente vigiar o pensamento e o discurso de professores; de bacharéis de direito cuja missão tem sido tentar criar formas de vigiar o pensamento e o debate para que eles se circunscrevam aos limites de sua moralidade tacanha e de sua visão política reacionária.

Tendo convencido a todos de seu poder extremo, é preciso que eles se convençam a si mesmos. O que eles constatam não os satisfaz: seu poder é grande, mas não está assegurado. Eles sonham com um poder que se exerça de pessoa a pessoa, do qual eles gostariam de provar a intensidade. O professor tal como imaginam não passa de um tirano das almas (pode ser verdade que os professores tenham meios de sê-lo, mas infinitamente poucos dentre eles o desejam e um número ainda infinitamente menor teria os meios de sê-lo).

Milner sabe que os professores falam em nome de um saber e legitimados por uma instituição. Mas o fazem como pessoas; como sujeitos que falam a sujeitos com os quais se relacionam direta e cotidianamente. Já os missionários da imprensa, das câmaras municipais e das ONGs têm de prestar contas a seus editores, anunciantes, financiadores de campanhas, pastores… E só ocasionalmente se dispõem a ouvir e a questionar os jovens a quem querem “salvar” de um suposto perigo.

Ao fim e ao cabo, eles, que são bem pagos; que aparecem em programas de televisão a falar de professores ocultos (encerrados em suas aulas e afazeres); que se tornaram celebridades; eles todos desejam uma coisa que não têm, nem jamais terão: um tipo de poder diferente do deles, que não se exerce por conta da fama nem do dinheiro. Uma espécie muito peculiar de poder não tirânico, que pode ser exercido nas salas de aula mais obscuras, sujas e mal cuidadas deste país. Um poder que um bom professor, mesmo mal pago e ignorado pelo poder público, exerce com plena legitimidade. O poder de ser um professor e, por vezes, mesmo um mestre. Eles têm é inveja desse poder em face do qual toda sua fama, seu dinheiro e mesmo sua posição são impotentes. E vocês sabem… a inveja… bem a inveja é…

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