A infância sitiada

Crianças vivem entre a projeção de um universo artificial e a superproteção

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Não é necessário ser um expert em literatura ou teatro infantis para se aperceber da vulnerabilidade não apenas artística, mas também ético-política daquilo que é oferecido às crianças, a título de produção cultural de ponta. Amiúde, o que ali se verifica é a retroalimentação contínua de uma noção de infância (aburguesada, auto-referente etc.) que já não há e que, queiramos ou não, não mais haverá. De mais a mais, por onde andaria a infância cantada em verso e prosa em tais produções, quando se trata de crianças encerradas em condomínios, favelas ou ONGs?

Ao simular um tipo de ambiência sociocultural tão idílico quanto desabitado, e distante sobremaneira dos modos de vida testemunhados no cotidiano, sitiamos as crianças num universo artificial, de faz-de-conta. Um universo desonesto e insidioso, porque pretensamente ileso dos conflitos e contradições típicos do mundo contemporâneo – este, objeto privilegiado da desconstrução artística.

É certo que a infância, não como etapa do desenvolvimento humano, mas como modus operandi de significação marcado pela imaginação criadora, estaria perdendo terreno a olhos vistos para o mimetismo de narrativas planificadas, anódinas, pasteurizadas – aquelas que teriam a TV e, mais recentemente, a internet como seus artífices principais. O apelo imagético-consumista seria uma espécie de prova não apenas da mercadização desse potente e numeroso segmento social, mas também de uma mutação antropológica sem precedentes, responsável pela gestação de sensibilidades bastante distintas daquelas que temos em mente quando pensamos nos futuros alunos, leitores ou espectadores.

Tanto pior é o modo como hoje nos endereçamos às crianças, tentando protegê-las a todo custo do "vasto mundo" e seus revezes, e tornando-as seres hiperprotegidos, hesitantes e malemolentes. Aqui, de modo antagônico à tese que prega o desaparecimento da infância, teríamos seu exato oposto: isoladas numa quarentena civil sem fim, as crianças urbanas estariam condenadas a uma infância continuamente tutelada pelas práticas ditas culturais/pedagógicas a elas dirigidas. Sem capacidade de reação, elas seriam vítimas de uma espécie de debilitação moral crônica, já que alijadas do enfrentamento precoce das interrogações cabais da vida – aquelas que a literatura e o teatro, por sua natureza inexoravelmente pública, teriam condição, dever e disposição de lhes ofertar.

Ora, mal nenhum há em levar a cabo junto às crianças, independentemente de sua capacidade de absorção, situações problemáticas em que uma escolha penosa, por vezes sacrificial, tenha de ser feita – tarefa quase sempre recusada pelos adultos contemporâneos, mormente os de classe abastada. Ora, por que pensar a infância como se sua matéria fosse apenas um cristal fino? E por que não tratar as crianças como um amon­toado de carne, ossos e alguma coragem – aquilo do que de fato somos feitos?



Julio Groppa Aquino – Professor da Faculdade de Educação da USP –



juliogroppa@editorasegmento.com.br

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