A imagem revelada

Após 20 anos de trabalho em indústrias, engenheira usa fotografias para ensinar química a alunos da rede estadual

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Rodrigo Zavala

Todos os dias, ela acordava com a mesma sensação de cansaço. Há 20 anos trabalhando em indústrias químicas, Márcia Denise Lopes começava a perceber que deveria mudar o rumo de sua vida. Passar os dias encerrada em um laboratório, definitivamente não era sua ambição profissional. Apoiada pela empresa em que trabalhava, Márcia começou a planejar cursos para os demais funcionários sobre a implantação de padrões de qualidade e custo-benefício.



A mudança de cargo deu um novo fôlego para Márcia. Logo nos primeiros encontros, ela percebeu que sua formação em engenharia química não era suficiente para seu novo cargo. Assim, para atender à demanda de ensino, como curso de extensão, fez licenciatura. Márcia estava, sem saber, no caminho para a sala de aula.




Nenhum problema acompanhou Márcia durante os dois anos de treinamento, até a indústria onde trabalhava transferir-se para uma cidade vizinha a São Paulo. A engenheira teve então de escolher: ou investia em sua vida profissional ou acompanhava o desenvolvimento de seu filho e cuidava da família. Há quatro anos, optou pela família e pela realização de um antigo sonho, despertado ao dar aulas para os funcionários: ser educadora. Com seu currículo, não foi difícil conseguir uma vaga de professora efetiva na rede pública de ensino. Hoje, Márcia dá aulas de química na Escola Estadual Alves Cruz, em São Paulo (SP).




Quando lembra de seu primeiro dia de aula, não hesita em dizer: “Minhas pernas tremiam e eu não encarava ninguém.” Com a vivência em sala de aula, Márcia optou por realizar um “contrato de respeito com os alunos”. “A partir do momento que você tem uma relação de respeito, o aluno percebe a dedicação do professor e, mesmo os mais problemáticos, vão participar”, defende.




Essa marca de usar a bagagem profissional em sala de aula é o diferencial de Márcia. “Para que sobrevivamos, devemos prestar um serviço diferenciado”, acredita. Segundo ela, hoje o professor não informa nada em primeira mão. Por isso, o ideal é que o estudante seja protagonista da aula.




Um dos ganchos para estabelecer uma aula diferenciada foi a confecção de sabonetes. No ano passado, durante a semana cultural do Alves Cruz, a professora criou uma oficina de sabão para ilustrar as reações químicas. “A idéia era que os alunos fizessem a ponte entre a fabricação e o que eles estão aprendendo e dessem mais valor para a aula.” Os alunos do ensino médio da escola assistiram à transformação de produtos em sabão líquido.




Mas a receita não deu apenas certo no laboratório. Atiçou a curiosidade de dezenas de alunos e da própria comunidade. Como não poderia ser diferente, Márcia foi procurada para dar mais detalhes. Sua idéia, enfim, tinha dado certo: os estudantes aprendem química de forma prazerosa, fazem a manutenção do laboratório e, ainda, produzem o sabonete que será consumido na escola.




Outro projeto da professora foi a incorporação da fotografia na sala de aula. Os alunos montaram câmeras artesanais com latas para aprender física, tiraram fotos da escola trabalhando conceitos de química e lidaram com a própria sensibilidade. “Eu procuro sempre que eles apurem o olhar de algo bem particular. Afinal, eles montam o aparato, revelam o filme e vêem o resultado. O professor apenas orienta como isso pode ser aproveitado para não fugir do conteúdo.”




Ao que parece, a escolha pela vida de educadora foi importante para a professora. Segundo Márcia, o trabalho com os alunos facilitou até mesmo o diálogo com seu próprio filho, hoje com 13 anos. “Quando estou fazendo alguma atividade na escola, o chamo para participar”, completa.



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