A grande esquecida

Em meio às turbulências econômicas globais, a educação ocupou lugar secundário na eleição americana; no entanto, é possível detectar no discurso do presidente eleito as linhas mestras de sua proposta

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"It’s the economy, stupid!"

("É a economia, idiota!"). O bordão que marcou a campanha de Bill Clinton, em 1992, quando concorreu e ganhou a disputa presidencial de George Bush pai, voltou a ter pertinência – provavelmente maior do que antes. A campanha presidencial americana que desaguou na eleição de Barack Obama deixou pouco lugar às questões educacionais. Os Estados Unidos, à beira da recessão, foram sacudidos por uma crise financeira com aspectos de ciclone tropical, e não seria de esperar outra coisa nesse momento que não fosse o foco na economia.

Enquanto isso, um assunto considerado
kitchen table issue

, ou conversa de cozinha, a educação, pertence aos estados federados, e não ao governo central. Dos U$ 3 trilhões do orçamento federal, apenas 2%, ou US$ 60 bilhões, são destinados à educação. Esse montante representa menos de 10% do total das verbas educacionais americanas, sendo o restante garantido por governos estaduais e municipais. Aliás, o Ministério da Educação só foi criado em 1980.

O governo federal não hesita, no entanto, em deixar o assunto a cargo dos estados, especialmente em situações críticas. Quando, em 1957, a então poderosa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) lançou no espaço o Sputnik, primeiro satélite construído pelo homem, os EUA tomaram consciência de seu atraso em matéria científica. Uma das medidas adotadas por Washington, lembra Hélène Harter, diretora adjunta do Centro de História norte-americana de Paris I, foi fazer votar em 1958 a lei nacional Defense Education, cujo objetivo era melhorar o ensino científico.


"Resta muito a fazer"

Em 1983, um relatório público (
A Nation at Risk

) pinta o quadro alarmante de um sistema educacional cuja efetividade se estava refreando. O debate apaixonado que se seguiu sobre a mediocridade do nível escolar dos jovens americanos, marcada pelas desigualdades raciais e confirmada pelas avaliações internacionais, é uma das raízes do voto bipartidário, em 2001, da grande lei escolar de George Bush filho,
No Child Left Behind

(NCLB, ou Nenhuma Criança Deixada para Trás). Sete anos depois da adoção dessa lei, pedra angular de sua política, a recondução do NCLB foi suspensa na eleição presidencial. Ainda que pouco eloqüentes sobre a educação, os candidatos Barack Obama e John McCain tinham algumas idéias sobre a sorte que convém reservar ao
No Child Left Behind

.

Hoje, o que se constata? Em termos de NCLB, todos os estados devem melhorar significativamente o nível dos alunos até 2013-14, elaborando padrões e avaliando os progressos das crianças. O governo federal faz pressão: toda escola que falhar será sancionada, podendo até mesmo ser desmembrada.

Apesar das tensões muito vivas entre os estados federados, ciumentos de suas prerrogativas constitucionais, e o governo federal, o programa "funciona", segundo a avaliação de uma Washington ainda sob Bush. Segundo os dados oficiais, "os alunos de 9 anos fizeram mais progressos em leitura em cinco anos (1999-2004) do que durante os últimos 28 anos", "as médias em matemática dos alunos de 9 a 13 anos atingiram níveis jamais vistos" e "a defasagem em leitura e em matemática entre, de um lado, os afroamericanos e os hispânicos de 9 anos e, de outro, seus pares brancos, nunca foi tão pequena".

"O
No Child Left Behind

permitiu fazer o inventário da educação, mas também alocar uma soma de fundos federais suplementares às escolas com maiores dificuldades para melhorar sua situação. Globalmente, o nível dos alunos melhorou. Mas não é tão espetacular quanto se poderia imaginar, e resta muito a fazer", observa Hélène Harter. De fato, o país não parece ter resolvido seu atraso.

Barack Obama faz um balanço severo do programa, mesmo sem contestar-lhe o princípio. Ele denuncia o subfinanciamento da reforma pelo governo, que contesta a assertiva dizendo que as verbas federais "aumentaram 34% entre 2001 e 2006". O democrata deplora também a falta de apoio aos professores e a padronização dos testes. "Não nos digam que a única maneira de ensinar o essencial a uma criança é passar o ano inteiro preparando-a para fazer X pontos nos testes", dizia ele quando de um discurso pronunciado em Ohio, retomando assim um receio de Hillary Clinton: "Enquanto os alunos se aperfeiçoam nos testes, o que aprendem?", preocupava-se a candidata.


Nada de reforma sem financiamento


Barack Obama enfatiza que "seis milhões de alunos estão muito abaixo do nível que deveriam ter em leitura". Ele propõe reformar o NCLB, com novos patamares de financiamento. Suas propostas de reforma afetam também a avaliação dos alunos. Graças a instrumentos mais qualitativos do que quantitativos. Ele deseja responsabilizar os estabelecimentos, mudando a lógica de sua atuação para que ajudem aqueles que têm problemas, em vez de puni-los, como prevê o atual dispositivo.

O desafio, aos olhos do presidente eleito, é "permitir aos EUA que estejam entre os líderes da globalização econômica no século 21, como estiveram no século 20", declarava ele em setembro. Nesse mundo em que as competências científicas e tecnológicas são onipresentes, "o que conta não é o que você faz ou o lugar onde vive, mas o que você sabe". E, prosseguia ele, "John MacCain não entende que nosso sucesso como nação depende de nosso sucesso em educação. Eu sim".

Obama propõe retomar as promessas quebradas do NCLB. Sua nova visão para uma educação do século 21 pressupõe o incentivo à inovação, a imposição de reformar "um sistema em que os pais assumem a responsabilidade do sucesso dos filhos", "em que as escolas e os governos são computados nos resultados", e "em que um exército de novos professores seja recrutado, e incentivado e recompensado a permanecer em seus postos".

Enquanto o republicano John McCain prometia "excelência, escolha e competição na educação americana", Barack Obama reagiu como Eisenhower (1953-1961) que, mordido pelas reformas especiais dos soviéticos, dobrou o investimento federal na educação. Obama declarou: "Não quero que digam que a China está reformando seu sistema educacional e os EUA não. Ou que digam que a Índia mostra o caminho em matéria de inovação, e não os EUA".


(Tradução: Mônica Cristina Corrêa)

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