A geração do Lauro

Antes, havia ousadia. Hoje, parece haver conservadorismo pedagógico

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Essa velha é uma chata! – Com a sentença sussurrada para o colega do lado, o professor se retirou do auditório. Mas já há muito tempo se manifestava incomodado. A professora considerada “chata” perguntava aos jovens professores: Por que razão continuais dando aula, em escolas com turma e classes?


Significativa parte da nova geração parece ser pedagogicamente mais conservadora do que os professores da geração do Lauro de Oliveira Lima, que, na década de 1960, afirmava: Não se compreende mais escola como local onde são dadas aulas. O programa não é um rol de assuntos que devem ser expostos a uma classe. Não tem sentido a divisão do tempo escolar em horas, aulas e lições com tempo rígido e uniforme.


Acredito que as novas gerações deveriam revisitar o Lauro. Nos seus mais de 90 anos de idade, parece bem mais jovem do que muitos docentes que encontro por aí, quando escreve: A divisão da escolaridade em anos letivos, semestres é mera tradição sem base científica (…) Na aula, faça perguntas, perguntas! Mesmo que o professor não goste e os colegas reajam. Só um professor completamente inepto ditará aulas. 


Quero crer que, nas faculdades onde se proc  essa a formação de professores, pouco, ou nada se fundamente, nem se evoque os pedagogos de um passado recente, porque me apercebo da total ignorância dos jovens professores, relativamente à obra do Lauro e de outros ilustres educadores. A quem foi dado conhecimento, por exemplo, da obra que a Escola Vocacional desenvolveu em meados do século 20? Nela, partia-se do fazer para o pensar e do pensar para o fazer, fomentava-se a criatividade, a reelaboração cultural, a liberdade, a transformação social.


Maria Nilde, a idealizadora, alimentava a esperança de que, um dia, os responsáveis pela educação brasileira eliminariam o precipício que separa o mundo das intenções educacionais e a realidade do que ocorre no ensino público. E sublinhava o objetivo da sua escola: levar o jovem à descoberta da sua personalidade. A ditadura não perdoou a “ousadia”. Nilde acabou nas mãos do DOPS. A ditadura acabou com a Escola Vocacional.


Hoje, nem é necessário ditadura. A burocracia alimenta uma conspiração de silêncio, que impede os jovens professores de acederem a um valioso espólio pedagógico. De pouco valeu ao Brasil que Freire tentasse mudar a educação de São Paulo, ou que Arroyo o mesmo tentasse em Belo Horizonte. A obra destes educadores foi mal interpretada e caluniada. As “vocacionais” foram apagadas da memória e os novos professores são formatados em modas pedagógicas de duvidosa valia.


Regresso aos escritos do Lauro: A escola, como se apresenta atualmente, é uma antítese da vida. Deve ser repensada, abdicando do seu papel predominantemente informativo (…) Enquanto fala o professor, não está havendo aprendizagem, mas mera informação. A falta de oportunidade de intercâmbio leva à subordinação emocional e intelectual, preparando o indivíduo, no plano político, para a ditadura e, no plano intelectual, para o argumento da autoridade. Sociologicamente, leva a comunidade ao imobilismo, por falta de oportunidade de criação e reestruturação de fatos. Proféticas palavras, há 50 anos escritas.


*José Pacheco
Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)
josepacheco@editorasegmento.com.br

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