A geografia molda o ensino

Com muitas comunidades isoladas, o Estado do Acre busca soluções alternativas para garantir o acesso à educação

Compartilhe
, / 853 0

Na comunidade de Novo Porto, situada em meio à floresta no município de Jordão, no Vale do Juruá, Acre, vivem apenas 35 famílias. Para chegar à localidade, são necessários dois dias de caminhada a partir de Jordão, uma das cidades mais pobres do Brasil, onde vivem 6 mil pessoas. Da capital Rio Branco, são 700 quilômetros. Com tamanho isolamento, Novo Porto simboliza uma das realidades mais desafiadoras do país no que diz respeito à garantia do direito à educação.

No Acre, estado e municípios oferecem ensino fundamental modular e atendimento domiciliar na educação infantil na tentativa de garantir o acesso à educação a crianças e jovens em áreas rurais de difícil acesso, localizadas às margens de rios, reservas extrativistas, assentamentos e, como no caso de Novo Porto, na floresta. As secretarias estadual e municipais de educação vêm desenvolvendo ações específicas na tentativa de superar as dificuldades impostas pela baixa densidade populacional: 4,5 hab/km², número cinco vezes menor que a média nacional.

Para atacar o problema, o estado criou projetos específicos para cada etapa da Educação Básica. Em 2009, esses projetos foram incorporados ao programa de desenvolvimento sustentável Pró-Acre, que terá aporte de US$ 120 milhões do Banco Mundial e contrapartida de US$ 30 milhões do governo local. O programa, com tempo previsto de seis anos, possibilitou a realização do zoneamento ecológico econômico do estado e a classificação do território de acordo com o nível de ocupação, definindo as Zonas de Atendimento Prioritárias nas zonas urbana e rural. O resultado desse trabalho é utilizado pelas diversas secretarias para que as políticas públicas cheguem às populações dos rincões.

No caso da educação, nas regiões com até cinco famílias, classificadas como Comunidades de Atendimento Universal (CAU), são priorizados o atendimento à educação infantil domiciliar, com o Projeto Asas da Florestania Educação Infantil. As comunidades com até 30 famílias são classificadas como Comunidades de Atendimento Prioritário (CAP). No total, foram mapeadas 7.091 famílias distribuídas em 100 comunidades prioritárias, das quais 69 já participam do Pró-Acre. Nelas, há escolas do ensino fundamental 1, com turmas multisseriadas (1º ao 5º ano). Nessas regiões, o ensino das séries finais é realizado por intermédio do Projeto Asas da Florestania Ensino Fundamental, que oferece os conteúdos previstos para os quatro anos do fundamental 2 em três anos letivos.

Já as Comunidades Polos (COP) são aquelas com mais de 30 famílias e já possuem uma rede de ensino com classes divididas em séries e escolas com maior infraestrutura, que oferecem, inclusive, o ensino médio regular.

"A história de oferta de Educação Básica a essas populações é muito recente. Até pouco tempo atrás, chegávamos a comunidades distantes apenas com a oferta do 1º ao 5º ano do fundamental. A grande maioria dos alunos concluía as séries iniciais e, para não ficar sem estudar, repetia por dois, três ou mais anos a última série", comenta Francisca das Chagas, gerente de Ensino Rural da Secretaria de Educação do Acre.


Ensino fundamental modular e unidocente



Para resolver o problema do acesso às séries finais do fundamental nas localidades mais remotas, a secretaria estadual de Educação, em parceria com a Fundação Roberto Marinho, criou em 2005 o Projeto Asas da Florestania Ensino Fundamental. O projeto já atendeu mais de 5 mil alunos e foi implementado em 17 dos 22 municípios do estado. As séries são organizadas em módulos e as disciplinas oferecidas uma de cada vez. O professor recebe formações específicas – quatro ao longo de um ano – para ensinar as principais áreas do conhecimento: matemática, língua portuguesa, ciências da natureza e ciências humanas.

Para cumprir as exigências legais, o curso tem 3.680 horas. A carga horária semanal é de 24 horas, sendo 20 horas destinadas às disciplinas curriculares do ensino fundamental. Uma vez por semana, no contraturno, os professores trabalham o conteúdo complementar regionalizado, abordando temas que visem à qualidade de vida da comunidade local.
O programa passou pela aprovação do Conselho Estadual de Educação. "Garantimos todos os conteúdos previstos nas Diretrizes Nacionais e professores com nível superior, que estão em constante processo de formação", diz a secretária de Educação do Acre, Maria Corrêa.

Em relação à qualidade do ensino ofertado nessas regiões, Francisca acredita que, mesmo com todas as dificuldades encontradas, se comparado ao ensino da zona urbana ou de outras cidades menores, não se evidencia uma grande desigualdade. "Nossa afirmação se dá em razão de já termos realizado avaliação externa com esses alunos e os resultados não se diferenciaram daqueles apresentados pelas escolas urbanas. Ao contrário, tivemos escolas rurais cujo desempenho em língua portuguesa (dos alunos do Asas da Florestania de Ensino Fundamental) foi maior", defende a gerente de ensino rural.


Pré-escola domiciliar



Como atender as crianças pequenas de comunidades rurais isoladas, se geralmente a escola mais próxima está a pelo menos duas horas de viagem? Como transportá-las, se muitas vezes no percurso há a necessidade de travessia de riachos, igarapés, varadouros, com o risco de encontrar animais selvagens? Essas são algumas das questões colocadas paras os gestores responsáveis pelo atendimento à educação infantil no Acre.

De acordo com dados de 2009 do IBGE, a taxa de escolarização das crianças de 4 a 5 anos no Acre é de 51%. A segunda menor taxa de atendimento do país, à frente apenas do Rio Grande do Sul (50,1%). Mas, como as características geográficas dos dois estados são bem diversas, pode-se inferir que os motivos também são diferentes.

Para essa faixa etária, foi criado, em agosto de 2009, o Projeto Asas da Florestania Educação Infantil, ou Asinhas, como é mais conhecido. Nele, agentes educadores propõem atividades em quatro eixos: linguagem verbal, letramento e conhecimento de mundo; conhecimento de temas da natureza, da sociedade e de suas relações; conhecimento matemático; artes e cultura corporal. São dois encontros semanais com cada criança, com duração entre duas e quatro horas de acordo com o módulo. "É um projeto que respeita as diversidades e especificidades das comunidades rurais dispersas nas regiões de floresta do estado", diz Francisca.
(Elisângela Fernandes)

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN