A função cultural das privadas II

Como instituir uma biblioteca dentro do banheiro

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Há muitos anos, vi nos Estados Unidos uma coisa insólita, que jamais passaria pela minha cabeça: um papel higiênico que tinha, em cada folha, um aforismo, máxima ou conselho.  O usuário não resistia à tentação e, antes de fazer o uso normal do papel, lia o que estava escrito. Tal ato contribuía decisivamente para a sua formação intelectual e espiritual.  Imaginei uma melhoria nessa ideia: livros inteiros impressos no papel higiênico. Assim, aos poucos, assentada na privada, a pessoa leria as grandes obras da literatura mundial.  Vai aqui uma sugestão para as fábricas de papel higiênico. Um bom moto de propaganda seria: “Use o papel higiênico ‘Inteligente’,  que dá cultura antes de limpar”…

Mas, deixando de lado essas digressões, passo ao que me interessa: estou sugerindo aos pais e  mães, preocupados com a educação dos filhos e com sua própria educação, que transformem as privadas em bibliotecas. Uma minibiblioteca, é claro. Mas essa minibiblioteca seria  suficiente para operar grandes transformações nos que leem enquanto assentados no trono. A vantagem de tal providência seria uma transformação na língua, pois que as privadas, em vez de serem chamadas eufemisticamente de “banheiro”, seriam orgulhosamente chamadas de “bibliotecas privadas”. Imaginem a seguinte cena:

– Por gentileza, a senhora poderia me dizer onde fica a biblioteca  privada? Estou sentindo uma premente necessidade de cultura.

A anfitriã responderia orgulhosamente:  

– No fim do corredor. Lá o senhor encontrará livros fascinantes.

Vou dizer os livros que, na minha opinião, devem estar na “biblioteca privada”:

Um livro com as tirinhas do Calvin. O Calvin é sempre uma pitada de sabedoria infantil no mundo louco dos adultos. Alguns números de “Asterix”.  Quem não conhece o Asterix está perdendo uma das grandes alegrias da vida. São estórias de um pequeno heroi gaulês e do seu amigo gordão, de força imbatível, Obelix. Aconselho, especialmente, os números
Asterix Legionário

e
Obelix & Cia

. Quem lê
Obelix & Cia

fica sabendo tudo o que é preciso saber sobre o capitalismo, rindo e sem precisar aprender “economês”.

De Herman Hesse, 
Para ler e pensar

, uma coletânea de pensamentos curtos sobre os mais variados tópicos, amor, morte, política, educação, arte. Fica mais sábio quem lê.  

Não pode faltar poesia. Para os iniciantes, aconselho a leitura de Mário Quintana. E o Manoel de Barros:
Livro sobre nada

. Devo mencionar os livros de arte – a coleção “Taschen”, encontrada em qualquer livraria, é maravilhosa. Baratos. Você pode escolher: Picasso, Monet, Dali, Miguel Ângelo, Rafael,  Klimt, Klee,  Botticelli, e muitos outros. As crianças e os adultos aprenderão a ver. Gostaria que alguns livros meus também fizessem parte desse “biblioteca privada”. E um livro de peso que quando lido fica leve:
Confesso que vivi

, de Neruda. Você vai notar uma coisa curiosa: as visitas à “biblioteca privada” vão ficar mais frequentes e mais demoradas. Recordo o que disse no início: as privadas podem ter uma função cultural.


Rubem Alves


Educador e escritor



rubem_alves@uol.com.br

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