A especificidade da experiência escola

Para além de uma função social ou econômica, a escola tem um sentido existencial

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A imagem da escola sofreu uma radical transformação nas últimas décadas. Se até meados dos anos 1960 ela era concebida como um potencial elemento de emancipação política, ascensão social e desenvolvimento pessoal, desde o final da década de 1970 a escola tem se tornado objeto de críticas, suspeitas e denúncias cada vez mais contundentes. Ora sua imagem é associada a uma padronização das condutas infantis (como no filme The Wall), ora a ela se atribui o papel de um dispositivo legitimador de desigualdades sociais e econômicas. Ora se aponta a suposta obsolescência de suas práticas, ora se afirma a irrelevância dos saberes e conhecimentos que lhe são característicos.

Essa transformação na imagem da escola tem gerado efeitos que ultrapassam largamente o ambiente acadêmico no qual as críticas foram originalmente tecidas, de sorte que a descrença na escola tem se espraiado de forma notável entre professores e demais profissionais da educação.

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É evidente que parte dessas críticas – notadamente as análises sociológicas e históricas que denunciam sua tendência a normalizar condutas e reproduzir desigualdades – merece atenção. Mas há um aspecto crucial que costuma escapar à maior parte desses discursos críticos cujo ponto de vista é sempre funcional e sistêmico: o fato de que a escola é um lugar de experiências. Nela adentramos cada vez mais cedo e permanecemos cada vez mais tempo. Nela encontramos mestres e charlatões; fazemos amigos e inimigos; descobrimos objetos belos que nos comovem e travamos contato com aspectos trágicos de nossa condição e existência. Além de um aparato estatal e burocrático – cujas “funções” sociais e econômicas podem ser objeto de investigação, estudo e crítica – a escola é também é um local de encontro entre gerações e de diálogo com a cultura.

E, seja qual for a visão que dela venhamos a ter como sistema, dispositivo social ou instituição estatal e burocrática, o fato é que por ela passamos e com ela nos relacionamos na qualidade de pai, aluno, professor ou cidadão. É a singularidade dessa dimensão que nos escapa quando a pensamos exclusivamente a partir de suas supostas “funções”, quando a descrevemos como um mecanismo da engrenagem social ou quando a concebemos como mero reflexo de uma ordem econômica e produtiva. Enquanto insistirmos em ignorar esse fato – o de que passamos pela escola e as relações que nela estabelecemos deixam marcas na forma pela qual concebemos o humano e o mundo em que vivemos – corremos o risco de criar descrições e concepções de escola que ignoram as vicissitudes e peculiaridades dos encontros e desencontros que nela necessariamente ocorrem.

A experiência escolar só será captada e compreendida quando formos capazes de prestar atenção e narrar esses pequenos episódios que guardamos de nossas vivências em uma escola concreta: a emoção de um professor ao ler um poema, a dor de uma reprovação, a alegria de um jogo no campeonato, as amizades e os amores que lá se forjaram. Isso pode nos ajudar a perceber que, para além de uma função social ou econômica, a escola tem um sentido existencial para aqueles que a frequentam.

*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII jsfc@editorasegmento.com.br

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