A escola que aprende

Escolas públicas se inspiram em projeto democráticos

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Estabelecimentos públicos de ensino inspiram-se em projetos pedagógicos bem-sucedidos para promover mudanças rumo à democracia





Dinah Feldman





“Eu imagino que, ao lado da entrada maciça da televisão, a degradação do ensino público tenha sido a maior transformação cultural que se deu no Brasil.” Essa afirmação é do professor, músico e ensaísta José Miguel Wisnik, que estudou na rede pública na década de 60 e completa “31 anos dedicados ao ensino público e gratuito”.

As palavras de Wisnik são quase um consenso quando se fala em educação, e as críticas podem tomar proporções mais severas, como atesta a afirmação do professor Julio Groppa Aquino, docente da Faculdade de Educação da USP. “A gente não tem mais escola. A escola privada é um campo de concentração, e a pública é o pasto do lado. Eu não sei o que aconteceu com a educação, é uma tristeza.”


Com índices altíssimos de analfabetismo funcional, indisciplina, desmotivação e falta de professores, o ensino público perdeu a qualidade de outrora. Segundo Wisnik, a escola de hoje se fecha num processo “degradante”, as coisas são feitas por “obrigação”. “Você tem que fingir que cumpre o programa, os alunos têm que fingir que estudam e têm que fingir que existe escola, isso é uma tragédia nacional”, lamenta ele.


Em vez de retomar um modelo perdido no tempo, algumas escolas estão apostando em novos caminhos para reverter esse quadro. A Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Rural Sebastião Félix da Silva, no bairro dos Mellos, em Campos do Jordão (SP) e a Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima, no Butantã, zona oeste da cidade de São Paulo (SP), são duas delas.

Ambas elegeram o ano de 2004 para iniciar experiências que modificaram suas práticas pedagógicas. Apesar de distantes física e conceitualmente, buscaram repensar suas metodologias de formas distintas, a fim de tentar construir uma escola verdadeiramente democrática e sanar problemas como baixa qualidade, indisciplina e falta de professores.


 



A história dos Mellos –

A Fundação Semco, mantenedora do Instituto e da escola Lumiar (SP), tem uma propriedade no Bairro dos Mellos, em Campos do Jordão, há quase 20 anos e faz um trabalho de desenvolvimento comunitário na região. Entre os projetos educacionais, o instituto e a prefeitura da cidade assinaram um convênio para a gestão pedagógica da escola local, em dezembro de 2003.



A educadora Maíra Lopes foi deslocada da Lumiar para trabalhar em período integral na estruturação do novo projeto da escola, junto a uma equipe do instituto e da fundação. A educadora ficou encarregada da formação das professoras, da composição do banco de mestres, do diálogo com a secretaria municipal de educação e da organização de reuniões com a comunidade escolar.



“Criamos um conselho escolar que começou a discutir as questões pedagógicas, formado por pais, crianças, membros da secretaria de educação e da Fundação Semco, além de professores e funcionários; e formamos uma proposta pedagógica”, lembra Maíra, salientando que a idéia era usar o conhecimento desenvolvido na Lumiar, em SP, como ponto de partida para a construção de uma proposta local.



No primeiro semestre, a proposta da Lumiar funcionou no período alternado à escola. Os mestres locais propunham atividades e cada criança podia decidir se queria participar ou não. Maíra conta que a escola implantou também uma assembléia. No segundo semestre, as propostas se fundiram em uma escola única.


 



Uma escola sem paredes –

A inspiração na Escola da Ponte, de Portugal, veio dar forma a um movimento que ocorria há oito anos na escola municipal Amorim Lima. Desde que assumiu a direção da escola, a pedagoga Ana Elisa Siqueira promove ações para tentar solucionar os problemas da organização escolar e conta com o suporte de um conselho de escola bastante participativo, composto por pais, alunos, professores e funcionários.



Assim, as grades da escola foram retiradas, as paredes ganharam novas cores, o prédio ganhou horta, jardim, mosaicos e azulejos coloridos feitos pelos alunos. Além dessas ações, a escola usava verba repassada pelo Ministério da Educação para a formação de professores. Foi nessa época que Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, começou a participar das reflexões sobre a prática pedagógica da entidade.



O conselho de escola fez um levantamento dos principais problemas locais e concluiu que a falta de professores era prioridade. “Em quatro meses de pesquisa, obtivemos dados absurdos, como uma turma que não teve 80% das aulas de português no período”, aponta Fátima D’Auria, mãe de dois alunos e membro do conselho.



“O conselho do Amorim pediu uma reunião e me apresentou várias questões, como ‘alunos-problema’, faltas de professores, alunos que ficam atrasados e passam de série sem aprender”, lembra Rosely. A psicóloga tinha acabado de voltar de uma visita à Escola da Ponte e relatou o que observou em Portugal: “Eles ficaram maravilhados e perguntaram se eu não queria fazer um projeto para o Amorim.”



Aproveitando a estrutura existente na escola, com apoio da Secretaria da Educação de São Paulo e assessoria de Rosely Sayão, formou-se uma equipe para a construção do projeto. José Pacheco, professor e diretor aposentado da Escola da Ponte, aprova a reflexão, mas ressalta que a experiência da Ponte não pode ser replicada. “Felizmente, ainda não é possível fazer clonagem de projetos”, brinca. “O que sei é que, cada qual a seu modo, todas as escolas podem – e devem – repensar suas práticas. Todos os professores devem refletir criticamente sobre o ato pedagógico. E devem abstrair-se de que existem ministério e diretrizes.” Rosely concorda com Pacheco: “Não é uma cópia, é outra escola, são outras pessoas; a Ponte é uma inspiração de possibilidade”, frisa.




O corpo de volta à escola –
Um traço comum aos dois projetos é a inclusão de atividades culturais e dinâmicas corporais ao currículo. “A educação infantil trabalha o corpo, aí quando a criança chega no ensino fundamental não tem mais corpo, só tem cabeça”, salienta Ana Elisa Siqueira.




“Buscamos que o aluno conheça a identidade brasileira”, defende Rosely. A escola Amorim Lima tem aulas de capoeira, circo e teatro “a serviço de dois eixos, a arte e a cultura brasileira”.


Mesmo com iniciativas semelhantes, a proposta das duas escolas se diferenciam em muitos aspectos, como na idéia de autonomia. Julio Groppa Aquino pondera as duas experiências. “Na proposta da Lumiar, a autonomia não se constrói, uma vez que ela já é dada de largada – o aluno toma decisões sem estar ainda preparado. A criança é vista como um pequeno cidadão e ela ainda é pré-cidadão”, adverte. “Já na proposta do Amorim, o lugar do aluno é equalizado com o dos outros e a proposta é de construção da autonomia.”



Apesar de se colocar como entusiasta do projeto do Amorim e de não compartilhar do ideário da Lumiar, o professor afirma que qualquer experiência pedagógica é bem-vinda e necessária “se quisermos continuar a ter escola”. No entanto, a escola não tem que ser pragmática, pois escola é sempre do ontem, nunca do hoje. Ela deve se ancorar no passado, para viver no presente e vislumbrar o futuro”, conclui.


 



Outros caminhos –

As duas experiências contabilizam um ano letivo, o que é muito pouco para uma profunda avaliação dos resultados. Mesmo assim, a necessidade latente de mudança do sistema de ensino público permite que os primeiros passos dessas duas escolas sirvam de exemplo e, talvez, de inspiração para outras instituições.



“Cada caso é um caso. A gente nunca vai poder criar um modelo e generalizar. Mas eu espero que as pessoas descubram que existem outras formas de educação e, se tiverem interesse, venham, perguntem e a gente vai dar o apoio necessário”, afirma Maíra. Além do trabalho em Campos dos Jordão, o Instituto Lumiar vai oferecer, a pedido da prefeitura, um curso opcional de formação de educadores para a rede pública.



Rosely Sayão lembra que José Pacheco acredita que a proposta da Escola da Ponte só funciona se aplicada em um público pequeno, cerca de 200 alunos. Ao ser informado de que a travessia para o Brasil seria para quase mil alunos, ele falou que o projeto não seria viável, conta Rosely. “E tem sido.

Mas o olhar do educador português está acostumado a olhar a escola do jeito que ela é lá, e é pequena mesmo. Não se compara o tamanho de Portugal e do Brasil. Nós temos que criar as possibilidades, então eu creio que esse projeto é viável para a educação em massa, não sei se como um sistema público, mas pelo menos para aquelas escolas que desejarem.” Os primeiros passos estão sendo dados. 



 


Duro começo




Dificuldades em vencer a resistência de pais e professores ou conseguir se auto-sustentar são alguns dos problemas enfrentados pelas escolas que modificaram seus projetos pedagógicos




 



· Risco




Mesmo


comprometidos com o projeto, a equipe da escola e os pais têm dificuldade de sair da zona de segurança e arriscar. A maior dificuldade é criar uma nova cultura e estabelecer uma relação de confiança. “Percebo com clareza que os professores, mesmo agindo de acordo com a nova proposta, ainda pensam da maneira tradicional”, aponta Rosely Sayão.



 

· Dificuldades operacionais


Na Sebastião Félix, uma troca de professoras no meio do processo de formação ocasionou algumas dificuldades. No Amorim Lima, um educador que fez parte do projeto pediu remoção e a falta de professores ainda é um problema. Segundo Rosely, mesmo quando falta algum professor, a escola encontra substituto e os alunos não ficam sem aula.


 

· Resistência


O desconhecimento da proposta a ser construída gera insegurança e algumas pessoas resistem por mais tempo que outras, o que torna o processo mais lento.


 

· Exposição


A mudança principal dos dois projetos ocorre na sala de aula. O professor que antes ficava sozinho na sala de aula, agora trabalha em equipe, do planejamento da aula até o contato com os alunos. Simone de Castro Paier, professora da primeira série do Amorim Lima acredita que a dificuldade surge quando críticas ou sugestões são levadas para o lado pessoal. “Havia professoras que se defendiam nas primeiras reuniões dizendo: ‘Mas eu faço isso há 20 anos’. Aprender a trabalhar em conjunto mexe com valores, crenças, atitudes”, afirma.


 

· Auto-sustentação


O trabalho dos mestres, em Campos do Jordão, e dos oficineiros, em São Paulo, é a base da mudança pedagógica pretendida. Entretanto, esses profissionais não são professores da rede, são contratados pelas escolas. A falta de verba das duas instituições é um fator de risco das iniciativas.




Escola da Ponte em xeque


A maioria dos alunos da Escola da Ponte, em Portugal, está no segundo ciclo do ensino básico e para que o projeto tenha continuidade, se faz necessário o alargamento da escola ao terceiro ciclo (equivalente ao ensino médio no Brasil).

Para avaliar o projeto
Fazer a Ponte

e a possível abertura do sétimo ano, o Ministério da Educação de Portugal criou, em 2003, uma Comissão de Avaliação Externa, composta por uma equipe de profissionais da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

Segundo José Pacheco, diretor aposentado da escola, o objetivo da comissão era provar que a Ponte tinha o que ele chama de resultados inferiores – “que nossos alunos aprendem cidadania, novas tecnologias, aprendem tanta coisa para além do currículo formal que certamente não havia tempo para ensinar matemática etc”.

Após três meses, a comissão concluiu que não há razões científicas ou pedagógicas que impeçam a continuidade do projeto
Fazer a Ponte

ou sua extensão ao terceiro ciclo de ensino básico. Mas arrematam: “Poderão existir, sim, razões logísticas e/ou de política educativa”. O relatório também compara o desempenho dos alunos com outras escolas do país. Os resultados obtidos nas provas de aferição, realizadas em 2000 e 2001, são superiores à média regional e nacional, em 9 dos 12 itens avaliados.



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