A época dos extremos

Adolescência combina “o máximo da liberdade com o mínimo de responsabilidade”

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A adolescência começa quando uma pessoa se dá conta da existência do seu próprio mundo subjetivo, e termina quando ela, afinal, resolve tomar conta dele. A definição sintética é de Miguel Perosa. Paulista de Urupês, ele vive em São Paulo, onde há quase três décadas ensina (é professor de psicologia da Pontifícia Universidade Católica) e clinica. Atende sobretudo jovens e adolescentes em seu consultório silencioso e ensolarado no bairro do Sumaré.

Autor de
Descobrindo a Si Mesmo – A Passagem para a Adolescência

(Moderna, 136 págs., esgotado), Perosa adota um conceito de adolescência bem mais elástico do que o pertencente ao senso comum — ou que ainda hoje é usado pelos médicos, focados mais na parte física do que na psicológica.

Para ele, o adolescente está na faixa que vai dos 13 até os 27 ou 28 anos. Não engloba apenas a puberdade, mas a fase da vida que genericamente chamaríamos de primeira juventude. Nem sempre é fácil lidar com eles, mas também não é nenhum bicho-de-sete-cabeças, como sugere Perosa nesta entrevista a
Renato Modernell

.




O psicólogo americano Carl Rogers (1902-1987) disse que ninguém ensina nada a ninguém. Isso é real ou força de expressão?

É real. Aquela idéia antiga dos vasos comunicantes, através dos quais o professor transferiria seus conhecimentos aos alunos, é uma forma autoritária de pensamento. O aluno chega com sua própria maneira de sentir e pensar. Traz um conhecimento da vida. O que o professor faz é mediar o contato dele com outras partes do mundo, de maneira que ele possa acomodar as novas realidades ao seu modo de pensar. Portanto, o professor é um mediador. Não é que ele vá incutir no aluno o conhecimento. O jovem “aprende” no seu tempo próprio, que pode ser bem depois do contato que teve com o professor. Às vezes encontro ex-alunos de anos atrás que me dizem: “Só agora entendo o que você disse naquela aula”. A ficha está lá e, a certa altura, cai. Mas por quê? O tempo da queda da ficha é um tempo absoluto, é quase uma ausência de tempo. É o instante imediato em que há um
insight

, uma conexão entre aquilo que você está vendo no seu trabalho e aquele conhecimento que, de alguma maneira, ficou. Embora significativo, ele parecia sem qualquer aplicação prática. A ficha pode cair desse modo, de repente, ou então numa seqüência de experiências que foram maturando em torno daquelas palavras.




As imagens podem propiciar aos jovens uma base cultural equivalente à das palavras?


Não. Agora todo mundo usa o
data show

. Quer dizer, a aula tem de ser um show. Porém o instrumento não deve substituir ou intermediar a relação entre professor e aluno, nem fazer com que os recursos pedagógicos se adaptem a uma realidade imagética, que é mais pobre do que aquela da palavra. Ela não é internalizada, não promove a imaginação nem a consciência. Provoca sensação, emoção, sentimento, mas não pensamento e reflexão.




Se a imagem matar a palavra, o que acontecerá?

Em vez de pessoas capazes de reflexão crítica, teremos uma geração obediente, que só sabe ler manuais de instruções. É o que vai acontecer. E aqueles que fazem parte dessa minoria mais preparada, que vai além do manual de instruções, serão os dirigentes. Mesmo na faculdade, eles já são reconhecidos e admirados pelos demais, embora não raro também invejados e até boicotados.




Alunos com sentido especulativo provavelmente sempre foram minoria em todas as épocas.

Sim, esses sempre estarão na faixa dos 10%. Mas não me refiro aos especulativos, e sim àqueles capazes de adquirir palavras para representar a si mesmo e ao mundo. No fim das contas, é para isso que a gente vai para uma faculdade. Claro que há também um aspecto técnico, lá você aprende os macetes. Mas, como professor de psicologia, minha função é ajudar os alunos a conquistar as palavras que possam dar conta do significado da sua existência. Assim eles poderão se encarregar de fazer suas escolhas na vida. Se o jovem é capaz de representar a si no mundo, é também capaz de fazer escolhas.




O que deve ser levado em conta pelo adulto que lida diretamente com o mundo do adolescente?

O adolescente inaugura o passado — seu primeiro passado, vamos dizer assim. Ora, se o presente do adolescente já tem um passado, então seu passado tem um futuro, que é justamente o presente que está sendo vivido. Então ele inaugura também a noção de futuro. E aí o adolescente começa se perguntar o que ele quer ser. A vida estudantil é um laboratório entre a casa e a cidade, entre a significação familiar e a significação do mundo do trabalho. O estudante está com um pé em cada lado. Ele não tem ainda um cartão de visitas. Não chega a ter um lugar determinado no mundo do trabalho e das relações sociais, embora já tenha saído de casa. Porém o dia da definição está cada vez mais longe. Sabemos que hoje já não basta ter graduação.




Por que é tão complicado para o adulto lidar com o adolescente?

Eu gosto da adolescência. Digo que ela é o máximo da liberdade com o mínimo de responsabilidade. Isso não se repetirá nunca mais. E é uma delícia. Acho que o adulto tem inveja disso. Mas, além disso, tem dificuldade em lidar com os adolescentes por não entender o processo pelo qual eles estão passando. Na verdade, trata-se de um fenômeno cultural recente, que resulta das relações de trabalho. Adolescência é uma palavra de origem inglesa que surgiu na Revolução Industrial. Deriva da expressão do less, fazer menos. Referia-se aos jovens que eram solicitados a trabalhar nas indústrias têxteis mas, por serem agitados, não se adaptavam àquela atividade. Então foram mandados embora das fábricas e suas mães, chamadas para trabalhar. Aqueles jovens ficaram nas ruas, formaram as gangues. A primeira noção de adolescência estava ligada à delinqüência juvenil.




Existiria um projeto de mundo na cabeça dos jovens brasileiros dos nossos dias?

Não, isso acabou. Foi coisa da nossa geração. Queríamos mudar o mundo. Eles não querem. Creio que meus filhos [
três, na faixa dos 20 e poucos anos

] terão uma preocupação com o mundo diferente daquela dos meus netos. Isso porque nasceram no bojo do estabelecimento do neoliberalismo e da globalização, a partir do começo da década de 80. Esse fenômeno só agora está dando os primeiros sinais de esgotamento. Acho que os filhos dos jovens de hoje vão pensar diferente. Mas não por oposição ao que existe. Não é que adolescente tenha necessidade de se opor. Não é isso. Ele tem a necessidade, isto sim, de afirmar a sua individualidade.




Mas o jovem não se afirma justamente ao testar o limite: até onde ele pode correr com o carro, chegar tarde em casa, beber ou drogar-se?

Sim, é isso o que acontece. Mas não para desafiar a autoridade, e sim para testar um limite pessoal. É a autoridade que entende tal comportamento como falta de respeito. O jovem não está desrespeitando. Ele só quer ser ele mesmo. Vai ao limite para saber de si. O adolescente se dá conta de uma realidade interna que é imensa e desconhecida. Então ele vai se testar. Nesse embate com os limites, às vezes ocorrem coisas de que os pais nem ficam sabendo. O quanto o filho bebeu, o quanto usou drogas, o quanto correu com o carro, o quando o usou sem permissão. Mas esse teste aos seus limites não é necessariamente do ponto de vista físico. Pode ser do ponto de vista mental. É o caso daquele jovem que procura desafiar os limites do conhecimento ou contestar as verdades estabelecidas.




Uma geração compreende a outra?

A gente é “umbiguista”, ou seja, olha o mundo com os olhos do nosso próprio umbigo. Por conta disso, muitas vezes a gente fala do quanto o jovem não é, não faz, não quer, não quer ser… Quando falo muito
não

, eu me pergunto qual é o
sim

. E de fato eu acho que a gente tem muita dificuldade em descobrir. Temos de olhar para isso sem o ranço do nosso próprio olhar. Se eu olho uma presença e digo “ela não é”, estou errado. Se eu olho para um jovem e digo: ele não, em vez de sim, o erro é meu.




A facilidade e a abundância da informação, no mundo de hoje, nos trazem uma nova forma de ingenuidade?

Trazem-nos uma ingenuidade e um olhar acrítico. Se a televisão é a fonte da verdade e da realidade, a verdade e a realidade são uma imagem. E aqui cabe lembrar que a televisão é um meio de comunicação público e anônimo. Para que uma coisa seja real, hoje, é preciso que ela seja repartida anonimamente, sem fonte, sem pessoalidade. A televisão nos apresenta a realidade nua, crua e objetiva, como se fosse possível. O jovem aprende que para ele próprio ser verdadeiro, real, tem de ser ao mesmo tempo público e anônimo. Público, no sentido de que precisa cuidar e expor sua própria imagem, ter visibilidade. Anônimo, no sentido de que o olhar do outro só lhe interessa até certo ponto. O que importa é o olhar, não o outro. O objetivo é ser visto pelo maior número possível de pessoas. Só assim uma pessoa se torna “real”. Isto explica por que vivemos numa cultura do corpo. Para o jovem, ele representa a sua visibilidade. Não o pensamento, nem a palavra.




Sua considerações levam a crer que vivemos hoje num mundo inteiramente virtual, mesmo quando estamos com a televisão e o computador desligados, pois continuamos plugados no olhar alheio.

Se a realidade daquilo que sou é uma coisa imagética, eu tenho uma dependência do olhar do outro. Portanto, a identidade do jovem hoje é dependente do olhar do outro. Ele está sempre preocupado com a maneira pela qual é visto, com o que é dito sobre ele. Isso não é novo, claro, mas intensificou-se. Hoje há uma espécie de fragilidade nas pessoas, uma dificuldade na formação de uma imagem própria. O jovem, sendo mais dependente do olhar público, precisa se colocar de acordo com as expectativas que ele acha que o mundo tem sobre ele. Sabe que a imagem que projeta é muito importante para sua carreira profissional. Ele tem de fazer bonito. E para isso é preciso seguir o manual direitinho.




Num plano mais profundo, o que resulta de tudo isso para o jovem?

Um enorme vazio. Porém hoje há muitas formas de esquecer esse vazio. Desde as drogas de vários tipos até as
raves

, que são lugares de esquecimento. Já o mercado de trabalho é o lugar da afirmação. Ele individualiza a pessoa. É você quem está arriscando. É você quem está se responsabilizando por aquilo que faz. Claro que, quando você se submete às leis do mercado, ou às normas de uma empresa, há um esquecimento, mas também há uma individualização. Você poderia até dizer que o mercado é um lugar de construção de cordeiros. De qualquer modo, porém, é uma construção.




Então é preferível que haja cordeiros do que não haja nada?

Para que haja cordeiros, é preciso que haja o esquecimento. As coisas estão conectadas. Hoje vivemos imersos em uma cultura do esquecimento. A objetividade com que se tenta tratar as questões mentais, por exemplo, faz parte desse esquecimento. A maneira nua e crua da televisão também dá margem a isso. Estamos sendo preparados para nos esquecermos da nossa individualidade. Eu acho que os jovens não percebem o esquecimento como coisa ruim. Ao contrário, é uma coisa desejável, embora os relatos que eu tenho de gente baladeira é de que há um esgotamento. Ninguém agüenta ir a festas toda noite, por muito tempo, senão o vazio aumenta muito. Esse vazio deve ser controlado. O jovem descobre isso pelo sofrimento. Não ser dá uma insegurança muito grande.  Você fica muito vulnerável. A síndrome do pânico, doença da moda, é uma expressão radical dessa vulnerabilidade.




Esse quadro de despreparo geral dos estudantes tem se alterado muito em suas quase três décadas como professor universitário?

No ano retrasado, ao avaliar nosso melhor professor, uma aluna disse o seguinte: “A aula dele é muito cansativa. Tenho de ficar prestando atenção na palavra dele o tempo inteiro. Se desviar a atenção um minuto, eu perco o fio da meada”. É difícil prestar atenção à palavra. Estimula muita coisa: memória, imaginação, necessidade de harmonia interna… Além disso, ela precisa bater com as convicções da gente, e com ela mesma, dentro do próprio discurso. Ou seja, precisa ser coerente. O que a palavra suscita é algo muito forte. Uma imagem não exige tal integração de fatores. Ela vem de fora. Quando a televisão mostra um cenário destruído pelo terrorismo, a significação vem junto. A imagem não requer de você uma reflexão. A gente nem percebe que a cena é editada, ou seja, a informação contida nela tem corte ideológico.




Como seu método de dar aulas se ajusta às características dos jovens atuais?

Sempre tive o cuidado de eliciar a vivência do tema da aula, antes de começar a reflexão. É um procedimento meu. Não leio muita pedagogia. Por exemplo, posso propor ao aluno escrever uma carta ou recordar alguma coisa acontecida perto dos seus 15 anos de idade, para depois começar a falar sobre isso. Sempre parto de uma experiência pessoal dele. Quero ajudá-lo a dar significado a essa experiência, a transcender a individualidade do fato e descobrir que há algo em comum com os outros. Desse modo ele encontra as palavras para se referir àquilo que ele mesmo viveu.




Não é inquietante saber que procedimentos assim só funcionam com uma pequena parte dos alunos?

Olhe, sou um professor, e todo o professor é um idealista. Ele imagina que tem alguma coisa para despertar no aluno. Acho que se pode fisgar o jovem na sua própria experiência pessoal, e tematizá-la. Não para expor ao grupo, mas para permitir que ele possa entrar em contato com essa vivência. Assim, eu tenho a impressão de que posso atingir mais do que essa faixa de 10% ou 20% dos meus alunos.




Essa geração com a qual convive hoje na faculdade o torna mais otimista ou pessimista em relação ao futuro?

 

Eu acho que a minha concepção da educação – como a aquisição de palavras capazes de dar conta da significação de si mesmo, do mundo e das relações — vai contra a corrente do que se espera hoje. Então, nesse sentido, sou meio pessimista. Mas, pelo fato de ver que ela é factível, sou otimista. Quando um aluno percebe que o professor está comprometido com aquele determinado conteúdo, e não está simplesmente papagaiando o conhecimento dos outros, aí funciona. Não vou ensinar o que não aprendi. Isso faz parte das minhas convicções.




O que chamamos de capacitação do professor é algo que efetivamente funciona?

Vou falar de minha experiência pessoal. Fui capacitado em uma aventura pedagógica maravilhosa na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Chamava-se ciclo básico e tinha cinco disciplinas comuns a todos os alunos de determinada área. No caso da área de humanas, eram Metodologia Científica; Psicologia Geral; Antropologia e Realidade Brasileira; Comunicação e Expressão Verbal; Problemas Filosóficos e Teológicos do Mundo Contemporâneo. Os professores se reuniam a cada semana para discutir pedagogicamente, aluno por aluno. Além disso, cada professor tinha reuniões sobre elaboração de currículo e metodologia de trabalho. Na Psicologia, o aluno podia se reunir com o coordenador do curso, na sala dos professores, para tratar de alguma disciplina em que tivesse dificuldade. Fui capacitado assim, durante uma década. Sei elaborar um programa de curso rapidamente, com objetivos gerais, objetivos parciais, com metodologia de cada aula e avaliação. Acho que sou um bom professor por conta dessa capacitação que recebi.




O terapeuta é contestado?

Ah, sim, o tempo inteiro. E o professor também, pois ele tem a regra. Não é que o jovem queira contestar a regra para afrontar a autoridade. É que, para ele, a regra vem de fora. E isso ocorre num momento em que precisa constituir internamente o seu sistema de valores, com base nos seus limites e nas suas possibilidades.




O jovem não deveria lidar melhor que os mais velhos com a insegurança que caracteriza o mundo de hoje?

A insegurança é ruim para qualquer um. O jovem sabe que é muito pequeno diante do mundo que o cerca. Há 30 ou 40 anos não se falava em mercado, hoje só se fala nisso. Não se falava de consumidor, mas de cidadão. Fomos transformados em consumidores ou usuários do serviço público. A palavra que representa a nossa relação com o serviço público é uma palavra mediada pelo dinheiro. Portanto, estamos imersos nesse mercado. E ele é dos patrões, dos donos das empresas, das grandes corporações. Nesse quadro, o jovem se sente muito vulnerável.




Como será este jovem de hoje quando já não for um jovem?

Creio que terá um filho incompreensível. Vai entrar em contato com alguém que não terá a gana que ele tem, hoje, de ser um sucesso. Um filho que estará muito mais preocupado com questões sociais, ambientais, com a transparência nas relações.




O conjunto de suas declarações, nesta entrevista, passa a idéia de que alguém que é um pessimista fora da sala de aula, mas um otimista dentro dela. É isso?

Sim, é isso. Acho que a educação, mais do que nunca, é necessária para a transformação da realidade. E será cada vez mais.




Alguns professores queixam-se de que apenas uns 10% ou, no máximo, 20% de seus alunos lêem livros e têm pensamento crítico. Pela sua experiência, isso é verdade?

Sim, é verdade. Mas deve-se levar em conta também que o mundo do jovem é muito diferente do nosso. O meu mundo de professor e de terapueta é o da palavra. É o mundo em que tentamos desesperadamente achar a palavra correta para descrever uma experiência ou uma situação. A minha juventude foi feita de palavras, a desses jovens é feita de imagens. É extremamente cansativo ter de ler a palavra e traduzir em imagem, mas essa é a maneira de eles entenderem.

Seria o caso de dizer que as crescentes especializações requeridas pelos empregadores, ao protelar o batismo de fogo do profissional, acabam por prolongar a adolescência?

Não a adolescência propriamente dita, mas a moratória para o mundo do trabalho. Refiro-me ao tempo do “ainda não”. Eu ainda não estou trabalhando, eu ainda não estou com uma atividade que vai me dar uma identidade social e profissional. A escola funciona como esse tempo do “ainda não”.



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