A encruzilhada

Evolução efetiva da situação docente depende, ainda, de carreira mais atrativa

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Mais do que o mercado propriamente dito, o novo formato da graduação em pedagogia, estabelecido pelas Diretrizes Curriculares de 2006, pode acarretar a abertura de novos campos profissionais no médio e longo prazos. Isto porque, explica a diretora da Faculdade de Educação da PUC-SP, Neide Noffs, o novo formato do curso implica uma profunda revisão da formação nessa área.

Segundo ela, no passado o curso de pedagogia formava os técnicos das escolas – diretores, administradores, orientadores, supervisores. Com o novo formato, o enfoque passou a ser a formação dos profissionais que atuam na educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental, dando um caráter mais generalista à formação.

Desse modo, a tendência é que a formação para as funções tradicionalmente contempladas no curso de pedagogia passe a se dar na pós-graduação, em cursos de especialização. “A formação mais generalista amplia as possibilidades para o pedagogo atuar dentro e fora da escola, diversificando seu campo de trabalho”, analisa Neide.

A vice-presidente da Associação Universitária de Pedagogia do Brasil, Wania Madeira, concorda com essa tese, mas defende, tendo em vista a ampliação do campo de trabalho do pedagogo, a inclusão de disciplinas voltadas para as áreas de gestão e de marketing, além de propor que o curso seja de tempo integral.

Outro aspecto importante para valorizar e consolidar os espaços profissionais do pedagogo é a regulamentação da profissão. Segundo dados da Associação, existem cerca de 5 mil pedagogos à procura de emprego em São Paulo. “Muitos perdem oportunidades de trabalho em empresas e outros nichos por falta de registro profissional”, avalia Wania.

Identidade profissional
As novas Diretrizes também acarretam mudanças nas licenciaturas, explica Neide. Agora, para se licenciar como professor de uma disciplina é preciso fazer um curso de formação específico; não basta fazer as disciplinas pedagógicas no final do bacharelado, como ocorreu durante muito tempo no chamado modelo 3+1. Com as novas regras, são necessárias 2,8 mil horas de licenciatura, e não apenas uma complementação do bacharelado.

“Para ser fiel à nova legislação, as instituições de ensino superior têm de montar duas grades curriculares, uma para o bacharelado e outra para a licenciatura”, diz a diretora. Para se adequar à norma, a PUC-SP, por exemplo, montou um Programa Interdisciplinar de Formação de Professores, que reúne todas as licenciaturas oferecidas pela instituição, com o objetivo de fortalecer a formação do futuro professor – embora, diga Neide, muitas ainda não estejam seguindo as novas orientações, e estão fazendo adaptações que nem sempre condizem com as disposições da lei.

Na expectativa da educadora, esse novo formato da licenciatura deverá ter impacto positivo na carreira de professor, que passará a ter uma formação mais sólida e voltada para o exercício do magistério. “A melhoria da qualidade da formação fortalece a identidade, o que vai trazer reconhecimento profissional”, diz Neide.

A educadora acredita numa “mudança radical” com relação às expectativas de trabalho para os profissionais de educação nos próximos anos. “O momento atual é de transição, os efeitos dessas medidas ainda não são perceptíveis, mas as perspectivas de trabalho tendem a melhorar”, prevê, desde que os novos parâmetros estabelecidos pelas diretrizes se consolidem de fato.

Outro aspecto positivo e que deve fortalecer o magistério são os programas de estímulo à docência implementados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para alunos de graduação. O Programa de Estímulo à Docência (Pibid) consiste na distribuição de bolsas de estudo no valor de R$ 400 ao mês para estudantes que atuarem em projetos desenvolvidos por instituições de ensino superior destinados a melhorar a qualidade do ensino público.

Para Neide, o envolvimento com um projeto e a bolsa de estudos evita que o estudante – que tem vontade de se dedicar ao magistério – tome outro rumo profissional por se sentir sem perspectivas na área que escolheu, num contexto em que prevalece a falta de interesse pela profissão.

Magistério em baixa
Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), divulgados em 2009, indicam que os jovens procuram cada vez menos o magistério. De acordo com o Inep, as licenciaturas de letras, química, física e filosofia são as que mais tiveram queda do número de formandos: foram 70 mil formandos em licenciatura no ano de 2007 ante 83 mil novos advogados.  No mesmo ano, graduaram-se apenas 1,2 mil professores de filosofia, uma das novas disciplinas no currículo e cuja demanda de docentes deve aumentar nos próximos anos.

Um estudo do Ministério da Educação (MEC) de 2008 indicava que seria necessário aumentar 15 vezes o número de professores de filosofia e 40 vezes o de sociologia para suprir a demanda gerada pelas leis que tornaram as disciplinas obrigatórias. Na época, havia cerca de 20 mil professores de sociologia, dos quais 12% eram licenciados. Em filosofia, havia 31,1 mil, dos quais 23% com licenciatura.

Na área do ensino de espanhol, a situação não é muito diferente. O baixo interesse pela docência é o que explica, na opinião de Fernanda Castelano, professora de espanhol da Universidade Federal de São Carlos, o fechamento de cursos de letras.

“É contraditório porque justamente no momento em que o mercado para o ensino de espanhol tende a se abrir, muitas instituições estão fechando seus cursos por falta de alunos”, afirma. Em estados como Piauí e Paraíba, diz Fernanda, simplesmente não há docentes para ministrar espanhol nas escolas.

A licenciatura em música também enfrenta dificuldades para se consolidar. A Universidade Anhembi Morumbi abriu o curso de Música Brasileira (bacharelado e licenciatura) em 2008, mas devido ao baixo interesse interrompeu a oferta, segundo a coordenadora do curso, Marli Batista Ávila. Novamente, é a baixa atratividade da carreira docente que justifica a falta de interesse, na opinião de Marli. “Tanto que o curso de produção musical, também coordenado por mim, é bastante concorrido e procurado pelos jovens”, diz Marli.

Outro aspecto que pode ter desestimulado os potenciais interessados é o fato de que a lei que instituiu a disciplina estabelece que música é conteúdo obrigatório, mas não é o único a ser ofertado. Ou seja, as escolas podem incluir as demais áreas artísticas no programa da disciplina. “Por isso, ela não será necessariamente ministrada por um músico”,  explica Marli.

Para Geovana Lunardi, da Universidade do Estado de Santa Catarina, a reversão da falta de interesse pelo magistério e a melhoria da qualificação do egresso dos cursos de formação de professores perpassa o aumento da carga prática durante a formação.

Ela cita como exemplo a Suécia. Nesse país, as instituições de formação de professores contam com laboratórios de docência onde os alunos podem exercitar o ofício, além de fomentar as atividades em grupo. “Talvez tenhamos de perceber que essas mudanças são de fato muito necessárias e urgentes”, diz.

Condições de trabalho
O salário é outro fator que justifica a baixa atratividade do magistério. A lei que estabelece um piso salarial para o magistério está em vigor desde 2008, mas ainda não foi implantada em todas as unidades da federação. Além disso, são grandes as diferenças salariais de uma rede de ensino para outra, sem contar as discrepâncias entre a rede pública e a privada.

Estudo realizado pela professora Aparecida Neri de Souza, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), demonstra que o salário médio do professor está acima  da média dos trabalhadores brasileiros: em 2004, a remuneração do docente girava em torno de R$ 900,00 ante R$ 400 das demais categorias profissionais. Contudo, o setor privado paga melhor do que o público (R$ 1.000 ante R$ 890).

A precarização do trabalho docente é outra constatação do estudo de Aparecida Neri: há uma estabilização do número de contratos formais  no magistério em torno de 83% dos profissionais entre 2002 e 2004. No início da década de 1990, 87% dos professores tinham um contrato formal de trabalho. A maior queda, aponta o estudo, se deu na rede pública, passando de 91% para 82% no setor, entre 1991 e 2002.

É em virtude desse contexto, nem sempre animador, que a professora Neide Noffs enfatiza que, apesar do cenário favorável preconizado pelas Diretrizes para o curso de pedagogia, a mudança também depende de políticas de valorização profissional, melhoria das condições de trabalho e de salário dos professores. 


+ Leia mais:


– Como as demandas sociais estão mudando as especialidades do professor brasileiro


– Pedagogos são requisitados também em instituições e espaços não escolares

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