A educadora que se tornou gestora

Atualmente professora do Instituto Federal do Pará, Sandra Helena Ataíde foi durante oito anos secretária de educação de Moju, um município paraense de grande extensão rural e diversidade populacional

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A educadora paraense Sandra Helena Ataíde, professora do Instituto Federal do Pará, foi gestora de educação de Moju, município ribeirinho do nordeste do estado, entre 2005 e 2012. Nesse período, também participou da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), coordenando por quatro anos a seccional Pará e por dois anos a região Norte. Ao encerrar sua gestão, voltou à atividade acadêmica. Embora nascida em Moju, Sandra deixou a cidade ainda menina, aos 8 anos, com os pais e os irmãos. Nessa idade, já estava alfabetizada; porém, naquela época, não havia possibilidade de continuar os estudos no município. Por isso, terminou o ensino médio na vizinha Abaetetuba, cursou a universidade na capital Belém, trabalhou no Amapá, e só retornou à cidade de origem como secretária municipal.

Moju conta cerca de 74 mil habitantes, considerando também os indígenas da tribo Anambé, quilombolas de várias comunidades diferentes e campesinos em geral. Boa parte da população vive na zona rural e o deslocamento não é fácil; há escolas locais que distam 400 quilômetros da sede, para se ter uma ideia. “Na região Norte, estão os municípios com maior área territorial do país e grande extensão rural”, conta ela. “O acesso, em geral, é por barco – e as embarcações precisam ter vários tamanhos e formas. Costumamos dizer que somos ligados por ‘estradas líquidas’.”

“Enfrentei sérios desafios em minha gestão”, afirma Sandra. Quando assumiu o cargo, sua filha estava no ensino médio e o filho terminava o fundamental. Pensava em matriculá-los em Moju. “Mas, chegando lá, me dei conta de que a situação educacional estava muito aquém do que eu poderia imaginar.” Logo no início de seu trabalho, recebeu a informação de que não havia no município escola credenciada ou autorizada que pudesse dar certificado de conclusão de curso dos alunos do ensino fundamental. Por isso, os jovens mojuenses não tinham como comprovar a conclusão da etapa quando queriam se matricular em escolas técnicas ou universidades. “Isso me chocou profundamente. Me senti impotente como secretária, como educadora e como mãe”, lembra. “Matriculei, então, meus filhos em escolas de Abaetetuba. Foi muito penoso não ter meus filhos estudando na rede da qual eu seria gestora.”

Parcerias efetivas
No início de 2005, quando Sandra assumiu a Secretaria de Educação, havia 188 escolas no total, sendo 13 na área urbana e o restante na zona rural, todas muito precárias. Segundo a educadora, durante os anos de gestão, as escolas do campo receberam especial atenção. Ela conta que a unidade da aldeia indígena só tinha as séries iniciais e o contato com a administração municipal era inexistente. Ergueram um novo prédio e ali implantaram ensino fundamental completo e a Educação de Jovens e Adultos. “Da mesma forma, atuamos nas áreas quilombolas com experiências muito boas, em parceria com a comunidade e com empresas. Montamos escolas com a pedagogia da alternância, todos os professores com especialização em educação do campo. Conseguimos que o Estado oferecesse o ensino médio, com profissionalização”, afirma. Nas áreas campesinas, também houve ampliação da oferta do ensino fundamental completo.

À frente da coordenação da Undime regional, Sandra Helena constatou que a realidade de Moju não diferia muito dos demais municípios do interior da Amazônia. “A dificuldade de acesso, por conta dos nossos rios, é um grande desafio. Muitas vezes, por conta disso, quando o gestor não tem empenho, acaba não atendendo o munícipe”, afirma. São inúmeros os casos de alunos que passam mais tempo no transporte escolar do que dentro da própria escola.

“As classes multisseriadas acabam imperando em nossa região porque a população está espalhada no campo, tornando difícil a constituição de turmas e não há, financeiramente, como manter um professor para cada série tendo poucos alunos. A academia tampouco tem uma proposta para formar o futuro docente para que ele possa trabalhar com essas classes multisseriadas. Não há uma metodologia no Brasil que oriente o professor”, opina a educadora. Outra situação bastante presente na Amazônia é o número grande de adolescentes de defasagem de ensino, com uma distorção muito grande entre idade e série.

Ao deixar a gestão, depois de oito anos, Sandra Helena reconhece que não foi possível realizar 100% das melhorias planejadas no município, por conta da falta de “fôlego financeiro”, mas que o quadro educacional de Moju avançou muito. “Quando as pessoas me perguntavam como estávamos conseguindo implantar os avanços, eu sempre respondia com duas palavras: responsabilidade e probidade”, afirma. “Moju vive basicamente do extrativismo, então a arrecadação era pequena. Dependíamos do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), do MEC, por isso tínhamos que administrar a verba com responsabilidade e probidade.” E a educadora arremata: “Mas sempre digo: é possível, sim, empreender melhorias na educação.”

Raio-X de Moju (PA)

População estimada (2013): 74.768 habitantes
Área da unidade territorial: 9.094.135 quilômetros quadrados
Densidade demográfica: 7,70 hab/km²
(Fonte: IBGE)

Situação atual no campo (Censo Escolar 2013/Inep):

Matrículas em creche municipal: 5

Matrículas em pré-escola municipal: 1.856
(Urbana + rural): 2.928

Matrículas no ensino fundamental: 11.565
(Urbana + rural): 17.135

Matrículas no ensino médio: 11
(Urbana + rural): 3.414

Matrículas no EJA: 3.398 (municipal + estadual)
(Urbana + rural): 4.144

 

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