A educação pela água

A falta d’água pode ser a gota d’água. A falta d’água é sempre falta de outras coisas

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Uma educação pela água é feita de lições. Uma lição primordial é a de que não basta pensar na própria sede ou no próprio banho. A água é bem comum, e pode se tornar mais rara do que a mais preciosa pedra. Quem não economiza a sua água está roubando a água de todos.

Uma segunda lição (reforçando a primeira) é a de que a água não é bem infinito. Rios e lagos podem secar. Os reservatórios e cisternas podem secar. A chuva pode fazer greve. Terras estão secando e gerando desertos. Mas o que secou primeiro foi a nossa sensibilidade para as águas.

Outra lição: é preciso fazer a leitura da água. A água pode ser carregada (lata d’água na cabeça!), mas também carrega significados. Temos de decifrar a água, descobrindo sua morfologia e sintaxe. A água apodrece quando temos ideias podres sobre a água. Temos de nos alfabetizar pela água.

Quarta lição: água não é apenas bem e dom natural, virou também produto, bem de consumo, obsessão do capital. Há quem venda água pelo preço que lhe dá na telha. A irmã água (como a chamava Francisco de Assis, mestre da simplicidade) foi escravizada e passou a jorrar lucro.

Na quinta lição, aprendemos que a água é questão política também. Há quem prometa água a quem não tem, há quem faça da água instrumento de controle e manipulação da língua alheia. Quanto cuspe já foi gasto em discursos nos quais o assunto da água não deu em nada!

Lição número 6: a água tem raí­zes na fé. Quem mergulha na água busca a purificação do tempo vivido. A água desmancha todas as mágoas e culpas. Com a água da lucidez lavamos o rosto e a alma. Toda água é benta se bem tratada.

Lição número 7: a água mata. Na enchente e no tsunami, no dilúvio e na piscina a água mostra suas garras. Temos de aprender a sobreviver na água. Conhecer as palavras de água, como conheceu João Cabral, em sua poesia, as palavras de pedra.

Lição número 8: a falta d’água pode ser a gota d’água. Não adianta culpar São Pedro (e o céu inteiro), que era pescador e entendia do ofício. Não sejamos ingênuos. A falta d’água é sempre falta de outras coisas. Falta de políticas públicas e lideranças confiá­veis, por exemplo.

Lição número 9: água é tema transversal. As águas atravessam as linhas do texto, as equações matemáticas, a tabela periódica, os mapas e desenhos, a física que educa as mentes e a educação física que educa os corpos. Água sempre cai bem.

Última lição: água não é mole. Será duro aprendizado (com pedra nos rins, por exemplo) se não soubermos, desde cedo, que nós somos feitos de água e é preciso repor toda essa água, diariamente.

Mais leituras da água
Centenas e centenas de livros trazem a água para seus relatos e argumentos. Muita água pode rolar em muitas leituras, transbordando sentido para interpretar a vida de cada um e o nosso esforço de educadores.

No romance Como água para chocolate, de Laura Esquivel (1989), a água para fazer chocolate (segundo recomendação culinária) precisa estar muito quente. A protagonista Tita ferve (de raiva, de dor, e de amor) como a água, indignada com o injusto destino. A água fervente nos ensina a não engolir com frieza o que é inaceitável.

Num dos romances escritos por José Lins do Rego, Água-mãe (1941), a narrativa se dá em constante referência à laguna Araruama, em Cabo Frio (Rio de Janeiro), da qual os pobres retiram o sustento e os ricos, horas de lazer. A água é generosa, mas também cega. Para o bem e para o mal, não observa diferenças.

E como não nos lembrarmos de Água viva (1973), de Clarice Lispector?

Sinto então que estou nas proximidades de fontes, lagoas e cachoeiras, todas de águas abundantes. E eu livre.

Intuitiva e insubornável, Clari­ce percebe na abundância das águas a imagem da liberdade que não se deixa amesquinhar. Não seria essa, afinal, a liberdade para a qual nascemos? E para a qual deveríamos educar e ser educados?

A água é sinalizadora de vida e prazer. Zelar por ela, lutar por ela, é lutar pela nossa própria vida. E pela possibilidade de sermos felizes.

No conto que intitula o livro Aquela água toda (2013), João Anzanello Carrascoza capta a alegria de um menino envolvido pelo amor do mar. Essa água toda é também, como se vê no final do conto, a água das lágrimas. Lágrimas de alegria, tão inexplicável quanto a de rever o velho amigo de todos nós:

Cortou ondas, e riu, e boiou, e submergiu. Era ele e o mar num reencontro que até doía pelo medo de acabar. Não se explicavam, um ao outro; apenas se davam a conhecer, o menino e o mar. E, naquela mesma tarde, misturaram-se outras vezes.

*Gabriel Perissé é professor e pesquisador da Pós-graduação em Educação da Universidade Católica de Santos –www.perisse.com.br

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