A educação no centro

Coordenadora de tecnologia educacional da Bandtec, responsável pela primeira tradução brasileira do Horizon Report: edição K-12, acredita que o uso da tecnologia é um …

Compartilhe
, / 1030 0

Coordenadora de tecnologia educacional da Bandtec, responsável pela primeira tradução brasileira do Horizon Report: edição K-12, acredita que o uso da tecnologia é um caminho sem volta na educação, mas que ainda é preciso aprender a usá-la

por Antonio Carlos Santomauro

182_16

laborado pela comunidade internacional de especialistas em tecnologia educacional reunida no New Media Consortium (NMC), há onze anos o Horizon Project se dedica a mapear o cenário de tecnologias emergentes para o ensino, a aprendizagem e a investigação criativa na educação globalmente. A quinta edição do relatório NMC Horizon Report: Edição K-12, publicada no primeiro semestre de 2013, especifica seis tecnologias que devem se inserir – ou já se inserem –, no âmbito da educação, aponta seis tendências já manifestadas e seis desafios propostos ao ensino.

A edição do estudo ganhou, pela primeira vez, uma versão em português. A tradução foi uma iniciativa da Faculdade de Tecnologia Bandeirantes (Bandtec) e esteve sob a responsabilidade da coordenadora de Tecnologia Educacional da instituição, Cristiana Assumpção. Formada em ciências biológicas, Cristiana integra desde 2010 o conselho consultivo do NMC, e é também membro da Associação Brasileira de Ensino a Distância (Abed) e da American Educational Research Association (Aera), entre outras.

Na entrevista a seguir, em que analisa e comenta os resultados do estudo, Cristiana lembra que a tecnologia não é um fim, mas sim um meio capaz de contribuir muito com a educação – especialmente no Brasil, e em outros países em desenvolvimento. Cursos on-line, games e computação em tablets são algumas das tecnologias citadas no estudo, que entre as tendências hoje em desenvolvimento no ensino superior incluem os cursos abertos e gratuitos (os chamados Moocs) e o interesse por novas fontes de informação. No quesito desafios, o documento lista ainda itens como qualificação dos docentes e a demanda por educação personalizada. A versão em português do Horizon Report está disponível no endereço eletrônico http://www.nmc.org/pdf/2013-horizon-report-k12-PT.pdf.

Ensino Superior: Qual a importância do Horizon Report e seu impacto no Brasil?
Cristiana Assumpção: Esse estudo existe há onze anos, resulta de um diálogo entre especialistas do mundo inteiro que, via wiki [método colaborativo de estruturação de conteúdos] e por meio de um sistema de votação, elaboram o relatório. É um estudo muito direto, que fala de boas práticas, mostra exemplos. Não é uma bola de cristal, mas aponta caminhos. Pelo fato de contar com a colaboração de pessoas de todo o mundo, esse relatório mostra tendências generalizáveis globalmente, que podem trazer informações relevantes para o Brasil. Talvez sua aplicabilidade tenha horizontes um pouco diferentes entre países, e algo chegue mais ou menos rapidamente a um ou outro. Mas é um relatório bastante útil, até mesmo por ser produzido com agilidade.

E como ele pode ser aplicado por aqui?
Falamos das tecnologias móveis, computa­ção na nuvem etc. onde em comparação com a área de telefonia convencional o Brasil evoluiu muito rapidamente. Percebe-se que aqui – e nos países em desenvolvimento em geral – essas tecnologias constituem um caminho para a educação. Em algumas regiões de Angola, por exemplo, nem há escola, mas todo mundo tem celular e todo celular tem uma navegação básica. Nos países em desenvolvimento essa infraestrutura tecnológica está chegando até mais rapidamente que a eletricidade. Então, nesses países, elementos como a mobilidade, os cursos abertos e a computação na nuvem na educação podem ser até mais relevantes que nos países desenvolvidos.

Mas qual a importância dessa tecnologia para a educação?
Tecnologia é sempre um meio, nunca um fim. Para ela ser usada em todo o seu potencial, precisa haver uma proposta para a educação. Acontece com o uso da tecnologia na educação o mesmo que aconteceu quando surgiu a TV: no início, basicamente levava-se para a televisão o que se fazia no rádio. Hoje muita gente tenta transpor o ambiente presencial da educação para o ambiente da tecnologia. Esse não é o melhor uso. O pulo do gato será fazer um melhor uso dessa tecnologia, aproveitando as possibilidades da colaboração, a aprendizagem personalizada, os Moocs… Por aqui já temos uma estrutura estabelecida e o desafio é usá-la para transformar o que já fazemos.

No Brasil, onde ainda se discute a qualidade do ensino básico, faz sentido discutir a tecnologia de ponta na educação?
Temos de sempre ir para a frente. A tecnologia pode ser uma ferramenta para agregar qualidade ao ensino. Um exemplo disso ocorre quando se usa tecnologias como os LMS [Learning Management Systems, conhecidos no Brasil também como Ambientes Virtuais de Aprendizagem, ou AVAs], que permitem acompanhar o que todo grupo de alunos está fazendo e o que acontece com cada um. Com isso trabalha-se em cima de dados, e não com base em intuições sobre o desempenho da turma.

Haverá resistências à maior inserção da tecnologia no ensino?
Qualquer mudança traz resistências, sempre há o medo do risco quando se fala em uma mudança cultural. E estamos vivendo um momento de transição grande, falamos de um modelo de aprendizagem que nós próprios não vivenciamos, fomos alunos no modelo tradicional do ensino. Estatisticamente, apenas 5% das pessoas são os chamados early adopters, que adotam muito rapidamente as novas tecnologias, as demais precisam ser convencidas. Como convencê-las? Mostrando os resultados, os benefícios do uso das tecnologias. Para poder trabalhar com as tecnologias, a administração de uma instituição deve inicialmente trabalhar de maneira forte a visão de para onde quer ir, o que pretende transmitir. Depois, deve oferecer infraestrutura para os professores, e capacitá-los no uso da tecnologia.

No uso da tecnologia na educação, a realidade brasileira está muito distante daquela hoje existente em outros países?
Sinto que não. Está mais ou menos todo mundo no mesmo barco, pode haver algum centro de excelência em um ou outro local, mas em todos os países que conheci senti que os problemas eram mais ou menos os mesmos.

As instituições de ensino precisarão se aliar também a outros parceiros, como empresas de tecnologia?
O ideal é isso. Mais parceiros enriquecem o processo. Mas ainda há muita resistência a esse tipo de parceria, especialmente no ensino superior.

Quais as tendências desse caminho de uso da tecnologia na educação?
Cada vez mais trabalharemos conectados, com tecnologia móvel, com ferramentas de mídias sociais, com caminhos personalizados de aprendizagem, com ferramentas capazes de acompanhar o que os alunos estão fazendo, como Moodle e Blackboard.

Quais os principais obstáculos nesse processo de integração da tecnologia à educação?
Muitas coisas, começando com políticas públicas relacionadas a esse uso. Depois, cada instituição precisa ter consolidada a sua visão institucional. A grande maioria nem sabe o que quer, não adianta distribuir tablet para todo mundo. É preciso disponibilizar infraestrutura de tecnologia – como acesso Wi Fi, ferramentas de segurança –, e capacitar os professores. A parte tecnológica sempre é a mais fácil. A visão pedagógica, que traz a concepção do papel da educação, esse será nosso maior desafio.

O que as tecnologias citadas no Horizon Report podem agregar ao ensino aqui no país?
Todas as ferramentas citadas já são muito usadas no Brasil, como as plataformas de ensino a distância, que permitem a disponibilização de conteúdos e a organização de fóruns de discussão. Também se usa bastante o conceito de “nuvem”, não apenas na parte específica de TI, mas para, por exemplo, disponibilizar um podcast, ou colocar vídeo no YouTube. A mobilidade também é outro fator muito presente. Isso agrega muito à atividade didática.

Você poderia citar alguns usos para as tecnologias mencionadas no estudo?
Como a Bandtec é uma escola de tecnologia, tem certa obrigação de acompanhar os novos lançamentos. Nossos alunos precisam ser bons produtores, mas também nosso processo de ensino precisa ter tecnologia. Temos utilizado muito os Moocs, em que os professores buscam conteúdos da Universidade Stanford ou de Berkeley, por exemplo, para disponibilizá-los para os alunos e depois, na sala de aula, discutir o conteúdo. Mas o vídeo acaba sendo um componente pedagógico, não a ação completa. Também contratamos uma ferramenta de apoio ao ensino de inglês totalmente baseada em dispositivos móveis. Através dela disponibilizamos um vídeo que pode ser assistido, por exemplo, no ônibus, quando o aluno está indo para casa. Com isso, expandimos o horário de aula sem forçar o estudante a estar aqui. Além disso, temos utilizado muito a virtualização de servidores, pois um aluno de TI precisa disso e fica caro demandar um servidor para cada. Então, trabalhamos com a virtualização, e com isso o discente pode fazer os exercícios em casa, ou no trabalho, via tablet, por exemplo.

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN