A dor da lucidez

Quem, de frente com as novas gerações, ainda se devota a duvidar das coisas do mundo?

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O velho professor de literatura ordena que seus alunos, futuros professores, guardem suas anotações. Pede então um cigarro e o acende. Senta-se sobre uma das carteiras, quer se fazer ouvir pela última vez:
Se algum de vocês acredita em verdades reveladas, em dogmas religiosos ou em doutrinas políticas, seria indicado dedicar-se a pregar num templo ou numa tribuna. Se, por desgraça, seguirem a profissão, tratem de deixar as superstições no corredor antes de entrar em aula. Não obriguem seus alunos a estudar de memória. Isso não serve. O que se impõe pela força é recusado e em pouco tempo se esquece. Coloquem-se como meta ensiná-los a pensar, que duvidem, que se façam perguntas.


Assim o protagonista de
Lugares Comuns

, filme argentino-espanhol de 2002, oferta sua derradeira lição. Obrigado a se aposentar, dá uma longa tragada no cigarro e encerra seu percurso profissional com um apelo: Há uma missão, ou um mandato, que quero que cumpram. Uma missão que ninguém lhes encomendou, mas que espero que vocês, como professores, se imponham a si próprios. Despertem em seus alunos a dor da lucidez. Sem limites. Sem piedade.








 Cárcamo



O ultimato do velho professor é um soco no estômago até dos professores que se crêem suando a camisa pela educação brasileira. Quem, em sala de aula, ainda ousa despertar a “dor da lucidez” de pensar? Quem, frente a frente com as novas gerações, ainda se devota a duvidar das coisas do mundo? Raros e – pior ainda – em extinção. Os poucos professores que ainda restam vêem-se cada vez mais acuados contra a parede. A parede de concreto do “afeto pedagógico”.

Para conservar seus postos de trabalho, têm de sobreviver a um sem-número de slogans fraudulentos que grassam no cotidiano escolar. Slogans que pregam como devemos tratar as novas gerações ao pão-de-ló da proximidade, do carinho, da amizade. Slogans de mau-gosto, acéfalos, perniciosos. Contra o cínico “afeto pedagógico”, proponho uma antítese cabal: a solidariedade intelectual.

Trata-se da atitude daqueles que não desejam nem fomentam nenhuma admiração pessoal, nenhum compartilhamento de intimidades, nenhuma sedução para agradar a freguesia. Por isso, jamais serão patronos ou patronesses nas formaturas. São rigorosos, mal-humorados até, exatamente porque não negociam com seu posto profissional. Pagam um alto preço por suas escolhas. Apenas alguns alunos, talvez, os compreenderão mais tarde, quando já não estiverem mais por perto.

Com eles aprendemos que só pode haver educação onde houver gerações em confronto. De um lado, o mais velho lutando para impor um olhar voltado ao passado, um olhar vagaroso e atento aos detalhes do mundo. De outro, o mais novo lutando com todas as forças para não deixar macular seu olhar inaugural sobre a vida, um olhar quase sempre plasmado no presente e suas urgências.

Dessa mútua incompreensão nasce lentamente o germe da solidariedade intelectual: uma atitude que em nada se assemelha ao comungar, respeitar ou dialogar, mas antes ao constranger, rivalizar, guerrear – sempre em nome de determinadas idéias que merecem durar no mundo quando dele já tivermos desertado.

Uma atitude de interpelação constante, sem limites, sem piedade. A atitude de um professor. E ponto final.



Julio Groppa Aquino é professor da Faculdade de Educação da USP.

E-mail:



julio.groppa@editorasegmento.com.br


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