A divisão das orações

“Atafulharam a nossa memória com inutilidades.” Leia aqui o sexto texto da série inédita e exclusiva de José Pacheco

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Confesso não ser um avô preocupado com os perigos que o Marcos defronta no seu deambular pelo chão do escritório, enquanto lhe conto histórias. São pontiagudas as esquinas das mesas, desafiadores os objectos cujos perigos o Marcos ignora, mas não interrompo a narrativa para lhe lançar avisos ou premonições –
Não mexas aí, que é perigoso! Ainda te vais aleijar!

– nem gasto o meu latim a explicar-lhe a arte de sobreviver à infância.

Bem pelo contrário!… Empenho-me, tanto quanto o Marcos mo consente, em lhe incutir o dom da errância. E há-de ser assim, enquanto a vida mo permitir. Por mais rudes que se apresentem as arestas da incompreensão, desafiarei o Marcos a percorrer caminhos por inventar. Por mais dolorosas que sinta as picadas dos cardos semeados nesses caminhos, sei que, perante deslumbramentos e perplexidades, o meu neto saberá elevar-se de um gatinhar exploratório da infância a verticais e infindas peregrinações.

Imagino perguntas que da sua natural curiosidade hão-de despontar:


Avô, é verdade que as árvores respiram pelas folhas?


É verdade

– dir-lhe-ei por resposta. Porém, como qualquer criança (só os adultos cedo deixam de fazer perguntas), o meu neto insistirá:


Avô, quando não têm folhas, por onde respiram as árvores?

E eu, sem saber que resposta dar, antevejo as aventuras das descobertas a dois a que o Marcos me há-de conduzir.

Só temo que o Marcos me faça perguntas que não têm resposta. Não porque me preocupe que me possa considerar um ignorante – até seria útil que ele se apercebesse de que os avós de hoje, contrariamente aos antigos, não são guardiães de todas as respostas – mas porque não poderei responder a perguntas que não têm resposta possível.

Se, por exemplo, o meu neto me perguntar por que é o céu de cor azul, eu não lhe darei a resposta, mas saberei indicar-lhe caminhos para que a encontre. Deambularemos pelos livros, pelos computadores, eu sei lá!… E não precisaremos de achar uma resposta de especialista, para que ele entenda. Só carecerá de ser uma explicação lógica. É exactamente por isso que temo que o meu neto me pergunte, por exemplo, porque é que a Escola é como é. Que lhe poderei dizer, senão confessar a minha ignorância? Não sei que resposta lhe dar. Aliás, ninguém sabe. Até hoje, toda a gente a quem fiz a mesma pergunta não soube que resposta me dar. O que pensará o meu neto de pessoas que não sabem explicar porque fazem o que fazem. E quando essas pessoas são professores, o que há-de pensar o meu neto?

Quando eu tinha ofício de aluno, se não entendia a razão de estudar determinado assunto ou de decorar uma qualquer matéria, o professor dizia-me que, um dia, eu viria a entender o motivo:


Aprende, que irás precisar, um dia.

E lá me via a enquistar os malditos problemas das torneiras que enchiam e esvaziavam tanques, a recitar de cor os afluentes do Rio Zambeze, a decorar o que se sabia ser seguro sair no exame. A decorar sem entender, porque é assim porque
é assim e porque irás perceber porquê, um dia…

Meio século decorrido, posso afirmar que o ter decorado o sistema galaico-duriense não fez de mim uma pessoa mais sábia. O ter decorado as preposições simples não fez de mim uma pessoa mais feliz. Amontoei muita tralha do espírito a que costumam chamar currículo. Impingiram-me um sem número de conjunções e mandaram-me dividir orações. Roleta russa, pois havia uma possibilidade em dez de acertar. Para compreender, foi preciso desaprender, esquecer as conjunções impingidas. Foi preciso redescobri-las, dar-lhes sentido, para que não confundisse um “que” relativo com um “que” integrante.

Atafulharam a nossa memória com inutilidades. E, porque o tempo de escola não dá para tudo, não ensinaram a minha geração a questionar. Só muito mais tarde, quando já havia abandonado a escola há tempo suficiente para poder apaixonar-me pela leitura, se me tornou fácil analisar orações. Sozinho, ou melhor, no diálogo com os autores que comecei a amar, captei o ritmo da frase, aprendi a localização da vírgula, o significado do ponto final… Excomungadas as certezas que me tolhiam, deixei de dividir orações – passei a partilhá-las – porque o que me atraía à leitura de um texto e me permitia a compreensão do conteúdo já não era uma certeza fundamentalista, mas uma interrogação criadora, já não era a dissecação da frase, mas a sua fruição.

Ludibriada a mnemónica que me fazia reproduzir o discurso da primeira comunhão, dei largas a deambulações que o meu neto há-de antecipar. Porque, apesar de reconhecer a importância da memória, reconheço que
os tempos são outros

e que não é verdade
que se sabia mais na quarta classe de antigamente do que se sabe hoje no fim do nono ano

.




Leia também os outros textos publicados na série inédita e exclusiva do educador português José Pacheco:





Bem pelo contrário!…




A caixinha dos segredos




O padre, o poeta e a professora de francês




Para os filhos dos filhos dos nossos filhos




Tempus fugit



 

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