Densidade do contraponto na educação é explorada em livro

Colunista de Educação reúne textos que constituem importante reflexão sobre a experiência da vida escolar

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Em tempos de subversão de muitos valores e regras, a constituição de um discurso sobre educação não é mais exclusividade daqueles que se formaram para atuar nesse campo específico, como de resto também acontece em muitas outras áreas. Em princípio, trata-se de fenômeno benéfico, pois a educação é um bem público e seu domínio político não deve circunscrever-se a feudos.

No entanto, se essa abertura pode propiciar certo arejamento, traz também a atuação de muita gente malformada e que desconhece particularidades acerca do universo sobre o qual passa a opinar e a agir.

Talvez num primeiro momento, um desconforto similar tenha acometido José Sérgio Carvalho, professor livre-docente de Filosofia da Educação na Faculdade de Educação da USP, quando começou a colaborar como colunista da revista Educação. Afinal, a escrita sintética, direta, às vezes pouco propensa ao rigor conceitual, não constava de suas experiências anteriores.

Porém, tomando a nova situação como desafio, Carvalho saiu-se bem ao unir uma escrita mais fluida, muitas vezes memorialística, a reflexões mais sintéticas sobre aspectos do universo educacional, sem abrir mão do rigor. Aliou uma prosa agradável à manutenção do aspecto principal de sua atuação como professor: a acuidade crítica embasada por conhecimento sólido nas áreas de história e filosofia da educação.

Esses elementos estão materializados em Por uma pedagogia da dignidade – Memórias e reflexões sobre a experiência escolar (Summus Editorial), livro que tem como ponto de partida os textos escritos para a coluna Contraponto, desta publicação, a partir de 2008, depois retrabalhados para sua reunião em novo formato.

A escolha do nome da coluna já indica os caminhos do autor: apesar de sempre se valer de suas memórias – como aluno, como professor, como pai – Carvalho move o ponto de vista sobre questões cotidianas da educação. Com isso, foge aos conceitos de senso comum e ao enfoque limitado sobre os fenômenos educacionais e sobre a própria natureza da educação que têm circulado com força na sociedade.

Alguns exemplos disso estão bem materializados no livro. Ao escrever sobre o conceito de formação (pág. 100), faz um paralelo entre formação e aprendizagem, mostrando que a segunda está embutida na primeira, mas pode ocorrer dissociada dela, sem significado formativo, que advém daquilo que nos modifica enquanto sujeitos. E relata seu caráter de experiência única, não passível de reprodução:

“Trata-se, pois de um encontro entre um evento, um objeto da cultura e um sujeito que, ao se aproximar de algo que lhe era exterior, caminha em direção à constituição de sua própria vida interior”.

Da mesma forma, desfaz equívocos sobre a importância da memorização, o caráter coletivo da escola e o valor da arte narrativa, entre tantos temas caros ao universo da educação.

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