A culpa é do capitalismo?

A situação do ensino no Brasil não está relacionada ao capitalismo

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Gustavo Ioschpe




Fiz há pouco uma palestra pra professores da Prefeitura de São Paulo sobre como os péssimos índices de qualidade da educação brasileira impedem o crescimento econômico e pioram nossa distribuição de renda. A primeira professora a erguer o braço, angustiada, disse que foi se sentindo mal ao ouvir os meus dados. Recorrendo ao escapismo que é marca tradicional de todo o discurso educacional brasileiro, ela me perguntou como ela poderia dar uma colaboração positiva em uma sociedade capitalista, que objetiva a desigualdade e a ignorância das massas. Achei que deveria transportar um pouco dessa conversa para essa página, pois vejo que essa percepção é generalizada.

Se o sistema capitalista fabrica ignorância, então quanto mais capitalista o país, mais ignorância ele deveria ter, certo? Se o sistema capitalista cria desigualdade, então os países mais capitalistas deveriam ser os mais desiguais, certo? Se as escolas são ruins porque é isso que o sistema capitalista deseja, então as piores escolas estarão nos países mais capitalistas, certo?

Errado, errado e errado. Que país é mais capitalista: Brasil e países africanos ou Estados Unidos, Europa e Japão? Os últimos, claro. E onde está a melhor educação? E o menor índice de ignorância (como quer que você a meça – resultado em testes internacionais, analfabetismos, escolaridade média da força de trabalho)? E os menores índices de desigualdade? Nos países mais capitalistas. Isso sugere que, pelo contrário, o capitalismo favorece o conhecimento, a melhor escolarização e a menor desigualdade. Ênfase no “sugere”! Longe de mim fazer essas análises de que “o capitalismo” causa
isso ou aquilo

.

Aí vem o pessoal do PSTU e diz: “Ah, mas esse só é o caso nos países desenvolvidos. Nos países pobres, por causa do(s)(as) ….. (preencha a lacuna com o “ismo” que quiser – patrimonialismo, cartorialismo, elites, herança escravocrata/portuguesa/ibérica/católica, exploração internacional), ocorre o inverso”. Sei. Falemos, pra ficar em apenas dois exemplos, de Coréia do Sul e Chile. Ambos países mais subdesenvolvidos que o Brasil na década de 60 e com educação pior. Hoje, são países mais ricos, mais desenvolvidos, com melhores sistemas educacionais – e mais capitalistas também. Na melhor das hipóteses, o capitalismo não tem nada a ver com a qualidade da educação. Na hipótese mais provável a educação e preparo da força de trabalho são ferramentas imprescindíveis para o sucesso (individual e nacional) num mundo capitalista.

Talvez o “sistema capitalista” não queira que todo mundo seja um PhD em Filosofia e compreenda as engrenagens do sistema, mas essa discussão é irrelevante pro Brasil atual. Nosso desafio é fazer com que crianças consigam ler e escrever na primeira série; coisas básicas do gênero, da pré-história educacional. Se chegarmos a um ponto em que todos os brasileiros têm diploma universitário e o país segue sendo pobre e desigual, a gente volta pra essa filosofagem. Até que isso aconteça, que tal arregaçar as manguinhas e ensinar ao seu aluno o que ele precisa aprender?



Gustavo Ioschpe é mestre em desenvolvimento econômico com especialização em economia da educação

E-mail:



desembucha@uol.com.br


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