A construção do império

O verdadeiro legado que Roberto Marinho deixou para o jornalismo brasileiro e para a Rede Globo

Compartilhe
, / 914 0




Laurindo Lalo Leal Filho*


A televisão brasileira faz 53 anos este mês. É o primeiro aniversário comemorado sem a presença dos seus dois principais mentores: Assis Chateaubriand (1892-1968) e Roberto Marinho, seu sucessor no poder nacional, nascido em 1902 e falecido mês passado. O primeiro foi retratado com perfeição pelo jornalista Fernando Morais no livro
Chatô

, o
Rei do Brasil

(Cia. das Letras, 736 págs., R$ 52). Lá está a primeira fase da história da televisão brasileira, de 1950 até a derrocada do império dos Diários Associados, que abriu espaço para o surgimento de um novo reinado.



Roberto Marinho não perdeu a oportunidade e tomou para si a coroa. Aproveitou-se da fragilidade da legislação brasileira no controle da concentração dos meios de comunicação, montando um conglomerado ainda mais poderoso do que o de seu antecessor. E impôs a ele uma racionalidade capitalista desconhecida pelo dono dos Associados. Disso se apercebeu também o grupo norte-americano TimeLife ao escolher a Globo para realizar um milionário investimento, considerado inconstitucional por uma CPI do Congresso. O resultado foi o surgimento de uma rede de TV de qualidade técnica, mas sofrível cultural e politicamente.



Se Roberto Marinho não repetiu os erros administrativos de Chateaubriand, foi um bom aluno nas relações com o poder. Interlocutor privilegiado de todos os governos, soube deles tirar amplo proveito. Uma relação que em quase toda a história da Rede Globo obscureceu o seu jornalismo.



É sempre bom lembrar alguns dos momentos paradigmáticos da Globo: a tentativa de evitar a vitória de Leonel Brizola nas eleições para o governo do Rio de Janeiro, em 1982; a intenção de esconder do noticiário a campanha das “Diretas Já”; a edição distorcida do debate Lula-Collor, no final da campanha presidencial de 1989; entre outros casos.

N

a teledramaturgia, de tão alardeada competência, o saldo da Globo é composto de momentos brilhantes cercados por um cotidiano de produções rasas e repetitivas. Não que faltem talentos às emissoras da família Marinho – o que falta é liberdade para criar sem maiores sujeições ao mercado.



A integração cultural do país, atribuída ao falecido dono da Globo, se fez graças a uma rede física de telecomunicações montada pela ditadura militar e usada pelas emissoras globais para unificar o mercado de consumo nacional de bens materiais e simbólicos. Com a Globo, o Brasil passou a se pautar pelo jeito ipanemense de se viver, ainda que ele seja inacessível à maioria da população. O legado de Roberto Marinho à nação é pobre, desproporcional ao poder e à riqueza que enfeixou em suas mãos ao longo de tanto tempo.




*Sociólogo, jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP





laloleal@uol.com.br



Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN