A conclusão de sempre

É preciso melhorar o ensino ofertado, dizem pesquisadores. O consenso sobre como fazê-lo é mais difícil

Compartilhe
, / 1052 0

Apenas destinar mais dinheiro à educação não resolve. É essencial, mas não resolve como uma medida direta de causa e efeito. Nesse ponto, ao menos, os especialistas concordam. O cerne da questão passa pela qualidade. E ênfase na qualidade está diretamente relacionada à mão de obra e à infraestrutura. "O crescimento populacional e a ampliação do acesso não foram acompanhados pelas mudanças estruturais necessárias", diz a professora Núria Hanglei Cacete, do Departamento de Metodologia do Ensino de Geografia da Faculdade de Educação da USP.

Núria sugere que a formação do professor precisa ser repensada, assim como a escola enquanto espaço em que se dá a prática do ensino. Isso porque a escola ainda está organizada do mesmo modo que no século passado, mas os alunos têm um perfil bastante diferente. Outro entrave apontado é a baixa quantidade de professores formados que lecionam nas próprias áreas. Destaca, ainda, a diversidade de um país como o Brasil. "Os docentes, no geral, não são capazes de lidar de maneira responsável com as diferenças regionais. Isso provoca um aumento da evasão", afirma.

A formação do professor, assim, é estratégica e condiciona o desenvolvimento socioeconômico de um país. "Hoje 95% dos docentes são formados por instituições privadas, muitas das quais de perfis duvidosos", diz. Do seu ponto de vista, a União deveria se responsabilizar integralmente pelo processo. Na verdade, as instituições privadas são responsáveis pela formação de 75% dos docentes. E entre os cursos de pedagogia que receberam notas baixas no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), apesar de minoria, havia também os de universidades federais.

É preciso, segundo Núria, revisar o papel das escolas e trazer novos atores para essa transição demográfica, pois o envolvimento da comunidade no processo de mudança é primordial. "Podemos viver um período malthusiano ao ampliar de forma desordenada o acesso", acredita.

A professora Sônia Castellar, colega de Núria no Departamento de Metodologia do Ensino de Geografia da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que uma coisa é o acesso à escola e outra o acesso ao conhecimento. "Creio que esse último item não tem acompanhado o desenvolvimento do país", avalia.

Ambas são favoráveis à jornada integral dos professores, nos moldes do que ocorre nas universidades. A dedicação exclusiva com os devidos estímulos à capacitação poderia amenizar os problemas decorrentes da mão de obra, de acordo com a professora. "O que se faz é jogar tudo num saco só. Temos de levar em conta a heterogeneidade em todos os seus aspectos. Até mesmo na capital paulista é preciso adotar políticas diferenciais para a zona sul e a zona leste", diz.

Para Sônia, a educação precisa ser pensada como parte integrante da política econômica. "A melhora dos indicadores de avaliação é ridícula e não trouxe nenhum impacto de fato. Temos aí duas ou três gerações perdidas que saíram da escola semianalfabetas e futuramente são elas que vão atender à demanda da indústria", explica.

Diz ainda que a educação para pobres é tratada como lixo, pois se subentende que não precisam saber muito. A classe média se vira na rede privada, que também já enfrenta mazelas e tem se canibalizado por conta de uma oferta maior do que a procura. E as universidades, ressalta, são um mundo paralelo, distante da realidade da maioria da população.

O pesquisador Naércio Aquino de Menezes Filho, doutor em Economia pela Universidade de Londres, acredita que só há uma saída para melhorar o acesso à universidade. "É preciso priorizar a base", diz em entrevista ao site do Projeto Educar para Crescer. Como um problema acarreta o outro, é preciso aumentar o número de vagas em creches e pré-escolas, estender a carga horária no ensino infantil e no ensino fundamental, além de dar mais atenção à formação do professor e melhorar a gestão escolar.

Compartilham da opinião de Menezes Filho os economistas Marcelo Neri e Samuel Pessoa, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas. "Aumentar o financiamento é importante, mas não me parece o maior desafio", diz Pessoa. Um maior investimento não é sinônimo de melhora na qualidade, caso outras medidas não sejam tomadas, como o "desengessamento" dos gestores. "Eles precisam de autonomia nas escolas para distinguir os bons dos maus profissionais", sugere. "A forma de administração da carreira do professor está completamente equivocada", diz.

Pessoa compara a gestão escolar à de uma empresa em que o diretor não pode demitir os funcionários que contrata mesmo que estes sejam incapazes ou faltem constantemente ao trabalho. "A caixa preta da gestão escolar requer novas políticas", diz.

Sua visão está longe de ser consensual. É preciso lembrar também que boa parte dos recursos se perde na burocracia do atual sistema. "Sempre faltou esforço dos governos para reverter essa situação", pontua o professor Juca Gil, especialista em financiamento da educação. Aumentar os gastos na área, conforme previsto pelo próprio Plano Nacional de Educação (PNE), é questão eminentemente política. "E a prioridade sempre foi gerar caixa para o superávit primário", diz Gil.

Ele observa que a média anual investida pelo Brasil por aluno na rede pública é equivalente a uma mensalidade das melhores escolas privadas. "E os pais podem abater os gastos no Imposto de Renda, ou seja, o governo ainda fomenta os colégios particulares", diz. Uma situação que, segundo Gil, só deve mudar quando a classe dominante voltar para a rede pública. (RC)


Ilustração: Alex Silva

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN