A cidade que nasceu de uma escola

Do Pátio do Colégio à extrema periferia, um passeio pela história do ensino em São Paulo, a maior metrópole do país

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Alceu Luís de Castilho, Cristina Charão e Lígia Ligabue*

A cidade que surgiu de um colégio tem sua história contada a partir da educação. Do cubículo de 10 por 14 passos erguido pelos jesuítas aos Centros Educacionais Unificados (CEUs), os escolões da prefeita Marta Suplicy, dezenas de milhões de paulistanos participaram ao longo de 450 anos de um processo – ainda inacabado – de lenta e progressiva inclusão no ensino. Enquanto seus filhos se formavam, São Paulo de Piratininga urbanizava-se. Colégios marcavam o desenho de bairros e a cidade ganhava na arquitetura de alguns prédios escolares os contornos de sua face.




“Em muitos casos, a escola é o único equipamento público instalado nos bairros mais pobres”, diz Marilia Sposito, da Faculdade de Educação da USP. Isso mostra que, se a economia não pode ser esquecida como motor da multiplicação dos bairros e das regiões da cidade, a educação funcionava e funciona como ponta de lança, pioneira – desde 1554.





O início de São Paulo poderia ter sido em um forte, como a maioria das metrópoles mundiais. Mas foi no Pátio do Colégio, região central da cidade onde os jesuítas fundaram a primeira escola paulistana. Suas dimensões, 90 m


2, eram menores que as de qualquer quadra de um CEU – o Centro Educacional Jambeiro, em Guaianases, zona leste de São Paulo, tem 42 mil m2


, 35 salas de aula, três piscinas e uma pista de skate. As paredes do primeiro colégio jesuíta eram feitas com uma armação de paus e cipós preenchidos com barro socado. Sua missão, salvar almas.





“[
O colégio

] respondia ao projeto colonial de ocupar e cristianizar”, afirma Maria Izilda Matos, da Faculdade de História da PUC-SP. A educação cristã pode ser observada hoje numa rápida passada de olhos pelos nomes de alguns dos mais tradicionais colégios e algumas faculdades da cidade: São Bento, São Luís, Sacré Coeur, Arquidiocesano, Rio Branco, entre outros.



Em 1640, o colégio de meninos Santo Inácio tinha cem alunos na classe elementar, onde se aprendia a ler, somar e fazer trabalhos artesanais. E mais 50 na turma de latim. Ele seria mais tarde atacado por colonos que queriam aprisionar os índios. Por isso, foi fechado e reaberto várias vezes – hoje, pais e professores seguem temendo a violência e o tráfico de drogas.



Naquela época, os jesuítas já se preocupavam em ensinar os filhos dos brancos – os índios, na adolescência, concluíam que era melhor fugir e voltar para as aldeias. Mas as aulas de teologia seriam banidas após a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, em 1759. “Era uma tentativa de modernizar a educação, passando para as mãos do Estado o que era domínio da igreja”, afirma a professora Maria Lúcia Spedo Hilsdorf, também da Faculdade de Educação da USP.



A cidade de São Paulo, porém, era pobre. Com impostos exíguos, havia poucas escolas e professores. As primeiras aulas do poder da província foram dadas no porão do antigo colégio dos jesuítas. “No Império, a escola não passava de uma mesa comprida, ao redor da qual sentavam-se crianças de todas as idades”, conta a arquiteta Silvia Wolff, especialista em arquitetura escolar. O dinheiro para a educação vinha de uma cota da verba enviada para Portugal. Com a chegada da família real, isso começaria a mudar.



Em 1827, com a Faculdade de Direito, a cidade cresce e, para preparar os meninos para o ingresso na academia, cria colégios secundários. Anos depois vem o
boom

econômico, com o café, e o Estado começa a se fazer mais presente, em movimento que persiste até hoje. “A necessidade sempre marcou a educação de São Paulo”, observa Maria Lúcia. “O que acontecia com a educação aqui tem a ver com o dinheiro, o café, com as indústrias. Precisa acelerar a produção, [
precisa

] de mais mão-de-obra? Investe na educação.”



Maria Izilda Matos, da PUC-SP, completa essa tese. Ela explica que, durante o
boom

do café, São Paulo “é uma cidade em obras”. “Daí a importância de um Liceu de Artes e Ofícios, que não formava mão-de-obra para a indústria nascente, mas marceneiros e carpinteiros para construir a cidade”, reforça. O Liceu foi criado em 1873 na região da Luz, como Sociedade Propagadora de Instrução Popular, e ganhou o atual nome em 1882, nove anos depois.



No início do século XIX, começam a surgir prédios, escolas e modelos educacionais bem mais nossos conhecidos. A primeira Escola Normal em São Paulo foi fundada em 1846. Estava espalhada por vários prédios públicos. Em 1894, ficaria famosa a escola que se tornou o Colégio Caetano de Campos, na Praça da República, região central de São Paulo. Vários prédios foram construídos pelo arquiteto Ramos de Azevedo, o mesmo do Teatro Municipal. “A escola tinha de ser visível e divulgar esse projeto republicano de educação”, diz Silvia Wolff.



Com a chegada dos imigrantes, a cidade começava a explodir: pulara de 20 mil habitantes no início do século XIX, chegara a 130 mil habitantes e cresceria ainda quase 20 vezes até hoje. “Com a República, o ensino público instala-se nas regiões operárias com o intuito de ensinar aquelas pessoas a operar uma função no mundo do trabalho”, afirma Maria Izilda Matos, da PUC-SP.



“Os primeiros grupos escolares a serem levantados foram nos bairros Luz e Brás, na zona central, os mais populosos na época. As escolas impulsionam o crescimento da cidade para um rumo já delineado. Não foi a abertura do Colégio Sion que transformou Higienópolis, na zona oeste, num bairro de elite, mas o fato de lá estarem as famílias que queriam as filhas educadas pelas religiosas francesas é que levou o colégio a se instalar na região”, analisa Silvia Wolff.



À medida que a periferia crescia, a procura pelos serviços públicos se multiplicava. Os pobres progressivamente vão tendo acesso aos equipamentos públicos e a falta de vagas passa não mais a ser encarada como algo normal. “Hoje, a universalização da educação responde à demanda das populações da periferia no sentido de estar presente, sim, em todas essas regiões, apesar de ser precária”, afirma Marilia Sposito.


Ao longo do século XX, a prefeitura e o governo estadual foram dividindo a responsabilidade pela expansão do ensino público. A ocupação das regiões de mananciais gerou problemas como as “escolas de


lata”, construídas provisoriamente pela ilegalidade da implantação de escolas de cimento, que acabaram virando símbolo de um suposto descaso do poder público em relação às crianças da periferia – na primeira semana de dezembro de 2003, a imprensa voltou a divulgar a existência de rodízio de alunos em uma dessas escolas.



No século XXI, com 10 milhões de habitantes, São Paulo traz hoje uma gigantesca complexidade educacional. Somente o número de vagas nos 21 escolões (ainda inconclusos) da prefeitura, por exemplo, será de 51 mil – equivalente à população da cidade em meados do século XIX. O orçamento da prefeitura para a área é de R$ 2,5 bilhões, sem falar na quantia similar que o governo estadual gasta com o município.



Nos escolões, nas escolas de lata ou nos colégios privados, a cidade tem hoje em suas salas de aula uma massa de mulheres, negros e de faixas econômicas antes totalmente excluídas. Com um detalhe: em bairros como Parelheiros, na zona sul, eles continuam lá – os índios. Serão eles todos os cidadãos do quinto centenário.






Outros




450


Imigração e




religião estão na origem


de colégios particulares de São Paulo



Eram padres que mostravam as primeiras letras aos filhos dos bandeirantes nas salas montadas nas casas paroquiais. No fim do século XIX, religiosos pioneiros fundavam os primeiros colégios e internatos de São Paulo. Durante mais de 300 anos, da fundação à República, a educação paulistana só existiu graças ao empenho de particulares – educação mais do que privada, praticamente familiar.



Quando, no início do século XX, a chegada dos imigrantes europeus e orientais tirou do português o posto de língua mais falada nas ruas da capital, foi a iniciativa privada que respondeu à nova demanda.



O Colégio Visconde de Porto Seguro, por exemplo, nome atual da Deutsche Schule São Paulo, cita entre as preocupações dos primeiros imigrantes alemães a chegarem a São Paulo, em 1827, exatamente a educação. “Gibt es auch Schulen?”, perguntavam. “Haverá escolas para nossos filhos?” Somente 51 anos depois a Comunidade Evangélica Alemã fundava a Sociedade para Manutenção de uma Escola Alemã.



No Brás, os italianos que trabalhavam nas indústrias aprendiam noções de português nas primeiras escolas públicas de São Paulo. Em 1911, fundaram o Instituto Medio Italo Brasiliano Dante Alighieri. “Já estamos na quarta geração de descendentes de imigrantes”, conta Lauro Spaggiari, diretor-geral pedagógico do Dante.





Com a consolidação do modelo laico na educação pública, o ensino particular tornou-se um espaço para a afirmação étnica e religiosa – escolas judaicas, protestantes, católicas, colégios espanhóis, norte-americanos, franceses e até mesmo orientais, na volta ao mundo da educação em São Paulo. É o caso do Colégio Pioneiro, que nasceu do curso da professora Michie Akama, na intenção de impedir que filhas de imigrantes não perdessem os hábitos milenares de sua cultura. Hoje, a escola é aberta a meninos e meninas de todas as origens.
(ALC, CC e LL*)









De




Anchieta a




Paulo Freire





A cidade onde professores viraram presidentes da República teve o


maior pedagogo do Brasil


como secretário da Educação



Laboratório gigante de experiências educacionais, a cidade de São Paulo importou e exportou modelos pedagógicos e administrativos, mas também educadores e estudantes. Da rigidez do ensino comandado pelo padre José de Anchieta à “educação libertadora” de Paulo Freire, houve várias tendências que surgiram na cidade ou tiveram nela sua visibilidade ampliada. Além disso, a ilustração em São Paulo sempre foi passaporte para outros vôos.



Das aulas de português do tradicional Dante Alighieri sairia um prefeito, governador e presidente da República, Jânio Quadros; das salas da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, um professor orientado por Florestan Fernandes entraria na política e se tornaria o primeiro presidente reeleito do Brasil, Fernando Henrique Cardoso; do movimento estudantil universitário surgiria para o país um líder que esteve exilado, fundou um partido e hoje é o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.



“Dos arcos de São Francisco saiu o maior número de lideranças políticas do Império e da República”, conta a historiadora Maria Izilda Matos, da PUC-SP. Na Faculdade de Direito instalavam-se jovens da elite do Brasil inteiro. “Eles tornam-se personagens da política nacional, a maioria envolvida na luta abolicionista.” Um deles foi o poeta Castro Alves.



José de Anchieta chegou ao Brasil em 1553 – um ano antes da fundação. Um ano depois, escreveu
A Arte da Gramática da Língua mais Falada na Costa do Brasil

. Logo que chegou, aprendeu tupi, língua dominante por dois séculos em Piratininga (o bandeirante Raposo Tavares só falava tupi quando se deslocou ao Nordeste para combater o Quilombo dos Palmares). Ensinava gramática aos padres e aos filhos de portugueses. Ficou três meses como refém dos índios tamoio.



Em 1892, uma grande reforma no ensino público da cidade espalhou-se pelo Brasil. Suas idéias centrais eram a modernização e a função social da educação. O movimento era liderado por Bernardino de Campos, Caetano de Campos (que deu nome à mais importante escola pública do século XX), Cesário Motta, Horácio Lane e Miss Márcia Browne. A norte-americana Miss Browne dirigiu a primeira escola-modelo, na Praça da República – o epicentro da cidade se mudava do centro velho, onde ficavam o Pátio do Colégio e a Faculdade de Direito, para o chamado centro novo.



O educador Fernando de Azevedo, nome fundamental no ensino do século XX, foi um dos autores do manifesto dos pioneiros da Escola Nova (
A Reconstrução Educacional do Brasil

), assinado, entre outros, pelo jornalista Júlio de Mesquita Filho e pela poeta Cecília Meirelles. Eles defendiam a melhor formação do professor por meio de faculdades de filosofia, ciências e letras. Era 1932, em pleno ano da Revolução Constitucionalista e às vésperas de outra revolução: a Universidade de São Paulo.





Finalmente, um pernambucano escolhido em 1989 pela prefeita Luiza Erundina para ser o secretário de Educação deixaria sua marca em São Paulo. “Do Brasil, só conheço Paulo Freire”, resume o mexicano Carlos Nuñez Hurtado, da Universidade de Guadalajara. Pedagogo brasileiro conhecido internacionalmente por obras como
A Pedagogia do Oprimido

e seu método de alfabetização de adultos, Freire criou o sistema de ciclos, visando diminuir a reprovação e a evasão.
(ALC, CC e LL*)









A




segunda




fundação








Faculdade de Direito fez da vila uma metrópole, que anos mais tarde criaria


a maior universidade do


país e assistiria ao
boom



do ensino superior privado





A passagem da São Paulo vila, quase rural e com pouca graça, para uma cidade com traços de metrópole se deu com a abertura da Faculdade de Direito no Largo São Francisco, em 1828. O fato é considerado por muitos historiadores como a segunda fundação da capital. “A faculdade mudou a fisionomia da cidade”, define a arquiteta Silvia Wolff. Os estudantes de todo o país que vieram para São Paulo demandavam serviços como restaurantes e pensões e criaram uma nova dinâmica, mais urbana, com seus hábitos boêmios e a agitação política.



Apesar da efervescência cultural e política das Arcadas, o desenvolvimento do ensino superior foi lento até o ciclo do café. Em 1893, por iniciativa do governo regional, cria-se a Escola Politécnica. O Solar do Marquês de Três Rios, na pujante região da Luz, passava a ser o endereço das principais personalidades ligadas à construção da metrópole, como Luiz de Anhaia Melo e Francisco de Paula Ramos de Azevedo. Quinze anos depois, os monges beneditinos instalados no Mosteiro de São Bento criaram a primeira Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras livre da América Latina.



As três instituições foram as sementes das duas primeiras universidades da capital. Da reunião das duas primeiras com a Faculdade de Medicina (1912), surgiu a Universidade de São Paulo (USP), em 1934. A criação da USP revolucionou o conceito de ensino superior no país. À nova Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras coube a missão de integrar o conhecimento literário, humanístico e científico da nova universidade.



Da Faculdade de São Bento surgiu a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 1946. Antes da PUC, o Instituto Presbiteriano Mackenzie foi a primeira instituição particular a criar cursos de nível superior. Em 1875, já formava professoras no seu curso normal e, em 1896, abriu o curso de engenharia.



Juntas, essas três instituições contam uma boa parte da história recente do país. Foi assim quando integrantes do Comando de Caça aos Comunistas invadiram a sede da Faculdade de Filosofia da USP. O combate da Maria Antônia, que incluiu ainda os alunos do Mackenzie, tornou-se um dos principais símbolos da resistência à ditadura. Um efeito colateral da disputa foi a migração da maioria das faculdades da USP para o então distante bairro Butantã, na zona oeste.



A PUC, por sua vez, foi palco, literalmente, das primeiras manifestações pela anistia. E, nas décadas de 80 e 90, a maior parte dos políticos e intelectuais que comandaram os primeiros anos da redemocratização do país vinha dos bancos da USP.



Nove anos antes da criação da USP e três anos depois da Semana de Arte Moderna, em 1925, uma outra instituição de ensino superior reunia os maiores artistas da cidade – entre eles Mário de Andrade, Benedito Calixto e Menotti del Picchia. Era a Academia de Belas Artes (depois Escola, hoje Faculdade), no centro, que depois mudaria duas vezes de endereço, passando pela Luz e chegando à Vila Mariana. São Paulo se iluminava e buscava seu tom cosmopolita.



Enquanto o poder político das universidades paulistanas crescia no país, aumentava na cidade o número de instituições particulares de ensino superior. O
boom

da educação particular na década de 90 se fez sentir mais fortemente em São Paulo do que em qualquer outro lugar do país. Hoje, são quase 150 as instituições de ensino superior, das quais apenas cinco são públicas.





A transformação de São Paulo em uma gigantesca cidade universitária fez surgir alguns fenômenos próprios, como o movimento dos sem-universidade e os cursinhos pré-vestibulares voltados às populações carentes. Agora, o desafio da cidade que se refundou com a criação de uma faculdade é abrir as portas do ensino superior aos milhões de jovens excluídos.
(ALC, CC e LL*)






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