A chave da continuidade

Resolver a questão do baixo índice de alunos que se formam no ensino médio é questão essencial para melhorar a educação como um todo

Compartilhe
, / 947 0

A construção de um sistema público de educação que democratize de fato as oportunidades de inserção social vem se cruzando com um debate que só tende a esquentar: o que fazer com o ensino médio brasileiro? Há um claro desinteresse dos jovens pela conclusão da última etapa da Educação Básica – afastamento que ocorre menos em função da impossibilidade de estudar para aqueles que já trabalham do que pela desconexão existente entre o ensino médio e a vida real dos jovens, agora às portas da vida adulta.

O resultado da equação para os jovens que conseguiram passar por todas as barreiras da escola pública e chegaram a essa etapa da educação é pouco promissor. Um levantamento feito pelo pesquisador Simon Schwartzman intitulado Políticas educativas para os que ficaram para trás identificou quase 12 milhões de jovens com idade entre 15 a 24 anos que iniciaram mas não concluíram o ensino médio.

O problema é agravado pela elevada defasagem idade-série. Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad) 2007, cerca de 30% dos jovens de 16 ou 17 anos que deveria estar na etapa pré-universitária ainda cursava o ensino fundamental. Ao mesmo tempo, dos 3 milhões de pessoas com 18 e 19 anos que deveriam ter já concluído a Educação Básica, 58% ainda patinavam no ensino médio, fase que abrigava 30% dos adultos de 20 a 24 anos.

Assim, elevar a qualidade na educação não implica simplesmente azeitar essa máquina que funciona aos solavancos, mas oferecer alternativas reais de emprego e inclusão a um número enorme de jovens. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a média de desemprego para os jovens de 16 a 24 anos está em cerca de 35% no Brasil. Na Grande São Paulo são 800 mil jovens, cerca de 32,6%, enquanto no Nordeste o índice ultrapassa os 40%.

Os especialistas concordam que o ensino superior não pode ser a única alternativa para os jovens, principalmente porque uma grande parcela da população tem outras expectativas, como a rápida inserção no mundo do trabalho. Para Schwartzman, o ensino médio deveria oferecer mais caminhos para os jovens, como ocorre nos Estados Unidos e na França. "Não precisaria ficar a reboque do vestibular, como acontece na rede privada de ensino", defende. Por isso, um dos principais caminhos apontados é a expansão rápida da educação profissional de nível técnico.

Em 2008, a educação profissional foi a etapa do ensino que registrou o maior aumento no número de matrículas, expansão que chegou a quase 15%. Assim, passou de 693 mil para 795 mil matrículas, segundo o último Censo Escolar. Contudo, o percentual de alunos que têm acesso ao ensino profissionalizante ainda é considerado baixo. O Ministério da Educação pretende elevar a proporção das matrículas em relação ao total de inscritos no ensino médio de 10% para cerca de 30%, com uma política de integração dessa etapa com a educação profissional.


Modelo de eficiência


Chega a ser contraditório que, em silêncio, quase sempre longe de noticiário, o Brasil possui um modelo público de alta performance acadêmica no ensino médio. São as 185 escolas técnicas federais, às quais mais 100 se somarão em 2009, segundo o MEC. O custo estimado por aluno em uma escola técnica federal gira em torno de R$ 5 mil, quase cinco vezes mais do que a média gasta na rede pública.  Com professores bem formados e relativamente bem pagos, as mais altas médias nos exames oficiais que medem o desempenho dos alunos (maiores inclusive que da rede particular) e altos índices a empregabilidade dos egressos, essa modalidade de ensino profissional, contudo, reflete distorções semelhantes por não representar um modelo de acesso democrático.

Um jovem interessado em cursar uma escola técnica federal tem de passar por vestibulinhos com até 20 candidatos por vaga, processo que acaba aprovando justamente muitos alunos que vêm da rede particular. "Como são excelentes escolas de nível médio e são gratuitas, atraem alunos excepcionais", diz o economista Cláudio de Moura Castro. Além das federais, São Paulo conta com 72 mil alunos matriculados nas 157 escolas da Fundação Paula Souza, as chamadas Escolas Técnicas Estaduais, outro sistema considerado de boa qualidade, mas seletivo, e também as redes do chamado Sistema S – Senai e Sesi. No Enem de 2007, das 20 primeiras escolas públicas, 14 eram das redes de escolas técnicas.

Embora haja planos de ampliação, essas alternativas não impedem que haja uma grande demanda reprimida. Por isso, buscam-se novos modelos que permitam a ampliação dos cursos.

O Conselho Estadual de Educação de São Paulo (CEE-SP) acaba de preparar uma proposta de ampliação maciça da educação tecnológica, que aguarda aprovação do Executivo. Trata-se do Programa de Educação Profissional do Estado de São Paulo, que pode oferecer até 1,5 milhão de novas vagas, a partir de escolas privadas que seriam credenciadas, obedecendo a critérios de qualidade estabelecidos pelo poder público e oferecendo cursos no contraturno dos alunos do ensino médio.

"O jovem do ensino médio tem, sobretudo, muita urgência. A educação profissional aumenta a competitividade, combate o desemprego, a exclusão social e melhora a empregabilidade", diz um dos consultoresw da proposta, Fernando Leme do Prado, presidente da Associação Nacional da Educação Tecnológica e membro do CEE-SP. Para ele, uma educação profissional de qualidade, respaldada em Educação Básica de qualidade, constitui a chave do êxito de sociedades desenvolvidas e é uma das saídas obrigatórias para o ensino médio, como é também necessária uma revisão em suas características. Para ele, a velocidade das mudanças tecnológicas torna rapidamente obsoletos muitos dos cursos oferecidos nesse nível – como aconteceu com o curso de torneiro mecânico, por exemplo.


Nível educacional da população brasileira, por grupos de idade (PNAD 2007)

 


15 a 17 anos

18 a 24 anos

25 a 40 anos

Mais de 40 anos

Total
Sem instrução e menos de 1 ano 216,918 676,357 2,937,927 11,668,420 15,499,622
Primário incompleto
(1 a 3)
499,530 1,004,421 4,037,844 9,586,050 15,127,665
Básico incompleto
(4 a 7)
3,821,507 4,252,458 11,175,393 16,662,941 35,912,299
Médio incompleto
( 8 a 10)
5,411,932 6,314,676 7,958,521 6,733,748 26,418,877
Médio e superior incompleto
(11 a 14)
246,028 10,719,505 16,177,508 10,448,507 37,591,548
superior 10,262,468 23,845,483 47,119,601 60,284,949 141,512,501

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN