A capacidade de se reinventar

Em dois momentos distintos, viagem de gestores ao Reino Unido e Irlanda mostra como a inovação, o empreendedorismo e a colaboração entre os pares podem transformar a gestão

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Em dois momentos distintos, viagem de gestores ao Reino Unido e Irlanda mostra como a inovação, o empreendedorismo e a colaboração entre os pares podem transformar a gestão institucional e acadêmica

Por Melissa Becker, de Coventry (Inglaterra) e Dublin (Irlanda)

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Liderança, gestão, inovação e empreendedorismo fazem parte da pauta da administração de instituições de ensino superior. Para serem postos em prática, esses conceitos requerem planejamento, foco e até mesmo uma certa audácia para sair da zona de conforto e levar novidades que funcionem ao ambiente acadêmico. Para promover a excelência na prática administrativa do ensino superior brasileiro, a 6ª Missão Técnica do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp) reuniu cerca de 40 gestores brasileiros para uma imersão em instituições da Inglaterra e Irlanda.

Entre os dias 9 e 21 de maio, a comitiva participou de dois cursos: Governança e Gestão para Líderes Educacionais, na Universidade de Warwick, na cidade inglesa de Coventry, e o Programa Sprint da Innovation Academy do Trinity College, Dublin, capital irlandesa. As duas instituições de renome internacional são reconhecidas por suas práticas de vanguarda. “As escolas estão ávidas em buscar modelos inovadores, porque está cada vez mais difícil seguir com o modelo tradicional e conseguir engajar os alunos. É um momento de repensar toda a academia, e experiências como essas são importantes para pensarmos em outras possibilidades”, avalia Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp.

Planejamento e participação
Liderança e gestão foram os temas centrais dos quatro dias de curso na Universidade de Warwick, na região central da Inglaterra. Para Abhinay Muthoo, diretor do Departamento de Economia da universidade, administradores precisam pensar em como formular a estratégia acadêmica e saber quem vai liderar o quê.

Na Warwick, o planejamento está implementado de forma profunda. Sua formulação começa de baixo para cima: os gestores de cada departamento colocam no papel uma proposta para os próximos cinco anos, incluindo questões como qual caminho a faculdade quer tomar, se o objetivo é ter mais alunos de graduação ou de pós, incrementar pesquisas, o aumento de receita previsto etc. Nas fases seguintes, os planos são reunidos, analisados e lapidados, de acordo com a estratégia geral da universidade.

Levantamentos de dados são fundamentais para a formulação e execução do plano estratégico. A implementação exige capacidade e estrutura de administração, com a assistência de objetivos mensuráveis bem definidos, de estabelecimentos de metas e de análises. A cada ano, o plano da Warwick passa por revisões.

“Os superiores tomam a decisão de como será o planejamento, mas ele é feito de forma colaborativa. Dessa forma, a chance de fazer um plano mais aderente à realidade em termos de recursos e de perfis dos docentes e da comunidade onde a instituição está inserida é maior”, observa Capelato.

Cultura de empreendedorismo
Desde os últimos anos, as instituições inglesas têm enfrentado cortes de repasses do governo, que diminuiu o subsídio dado aos alunos domésticos. De acordo com o Conselho de Financiamento do Ensino Superior da Inglaterra (Hefce, na sigla em inglês), isso causou a primeira queda de receita total do setor desde meados da década de 1990. A diversificação de fontes de recursos passou a ganhar maior atenção neste contexto.

Para Muthoo, o diferencial da Warwick está em seu perfil. “Ser empreendedor está nos nossos genes. Nossa estratégia acadêmica, além do básico, como em outras universidades, tem um forte elemento de empreendedorismo, em termos de como os departamentos vão para a frente. Se você é empreendedor, você é inovador”, diz o diretor.

Um exemplo disso é o Warwick Manufacturing Group, um departamento acadêmico da instituição criado para revigorar a indústria britânica na década de 1980 e que virou modelo de como universidades e empresas podem trabalhar juntas com sucesso, com atuação em áreas como engenharia, sistemas de automação e energia.

A capacidade de diversificar receita da Warwick serve como exemplo para as universidades privadas brasileiras. Além de verbas do governo britânico e de mensalidades, fontes de recursos como a realização de pesquisas, start-ups, parcerias com empresas, uso de espaço para conferências e serviços de hospitalidade, entre outros, são alternativas de atividades que podem gerar uma fonte de receita adicional para a instituição.

“No Brasil, 90% da renda das instituições privadas vem de mensalidades. Ter uma cultura empreendedora permite que oportunidades floresçam dentro das instituições e que se descubram novos caminhos que irão gerar receita para a universidade”, analisa Capelato.

O ensino permanece como atividade essencial, contribuindo com a busca da excelência acadêmica. Mas isso não impede a reflexão sobre outras atividades, mesmo de uma forma pequena.

“O desenvolvimento de negócio é a cereja do bolo – uma boa cereja, mas só a cereja. Deve-se pensar no ensino, em como ser feito, com ênfase em recursos e em inovação dessa área, com novos cursos. Isso também leva a pensar em mais cursos interdisciplinares”, sugere Muthoo.

O diretor do departamento de economia da universidade insiste em sempre se perguntar: “Qual será a próxima grande novidade ao se dobrar a esquina?”. Para introduzir essa cultura, os administradores precisam explicar para a comunidade por que inovações e mudanças são necessárias. Trazer todos a bordo é essencial para liderar o caminho ao próximo grande negócio, já que isso não pode ser alcançado sozinho.

Muthoo, que morou no Brasil durante sua adolescência, acredita que a Warwick ofereceu uma perspectiva diferente para os líderes educacionais que participaram da missão e que suas ideias podem ser adaptadas ao contexto brasileiro.

Pequeno país, grandes ideias
Com quase cinco milhões de habitantes, a Irlanda foi um dos países que sofreram maior impacto da crise financeira que afeta a Europa desde 2008. O governo buscou amenizar os danos por meio de uma economia inteligente, e as maiores instituições de ensino superior do país passaram a pensar como poderiam combinar as necessidades do Estado e trazer isso para educação e pesquisa nas universidades.

A proposta resultou em um programa de treinamento para uma “nova raça de estudantes de doutorado”, nas palavras de Barry McMahon, diretor da Innovation Academy, criada há quatro anos pelo Trinity College Dublin. Foi ao conhecer a instituição, fundada em 1592 e que hoje figura no topo do ranking das universidades irlandesas, que os líderes educacionais puderam aprender mais sobre esse ensino de vanguarda.

A Innovation Academy prepara estudantes de doutorado, especialistas em suas disciplinas, para a contextualização e aplicabilidade de suas pesquisas à realidade, ensinando-os desde cedo a focar atençãono mercado. Os diretores irlandeses apostam que a inovação é capaz de converter conhecimento em produtos, serviços e políticas, com benefícios econômicos, sociais e culturais.

Para estimular essa mentalidade, os módulos do programa procuram reconectar os alunos com sua autoconfiança criativa (superando o medo de ser julgado e de dar o primeiro passo), torná-los bons comunicadores de suas ideias para um público além de seu campo de pesquisa e ensiná-los a planejar, financiar e liderar seu novo empreendimento.

“Mesclamos todos os campos. Essa mistura, que leva os alunos a colaborarem e virem com uma ideia, é o que achamos que é chave”, ressalta McMahon. Nesse contexto, os professores são chamados de facilitadores e falhas em projetos são encaradas com naturalidade, pois fazem parte do processo.

Localizada a poucos metros do campus, a academia faz parte do Trinity College Dublin, mas é independente de qualquer departamento da universidade. Além disso, o programa é compartilhado com a University College Dublin e a Queen’s University, de Belfast, na Irlanda do Norte, formando também doutorandos dessas instituições.

Programa especial
O programa Sprint da Innovation Academy – que contou com a presença do embaixador brasileiro na Irlanda, Afonso José Sena Cardoso, em sua abertura – foi preparado especialmente para a missão técnica do Semesp. Inicialmente criado para doutorandos, o programa passa por adaptações para responder às demandas de diferentes públicos. Os conceitos básicos não são diferentes, e flexibilidade é inata à academia, afirma Ruth Kearney, gerente de desenvolvimento de negócios da Innovation Academy.

Atividades em grupo, propostas pelos instrutores irlandeses, permitiram a troca de ideias entre os gestores brasileiros. Uma das dinâmicas propiciou o exercício do quadro de modelo de negócios (conhecido como lean canvas), uma ferramenta simples e efetiva que pode ser usada antes do desenvolvimento do plano para um empreendimento.

Mas implantar inovação para uma organização rígida como a universidade pode ser desafiador. Ruth aponta que, frequentemente, as universidades não veem a si próprias como um local para capacitação, mas apenas como entidades educadoras. Mesmo assim os organizadores do programa acreditam que a iniciativa pode ser transferida, com as devidas adaptações, inclusive para a realidade brasileira. “Há pontos importantes a serem considerados, como a facilitação, o tamanho da classe e a estrutura”, observa.

 

Inspiração e prática
O empolgante relato de participantes da 6ª Missão Técnica do Semesp permite dimensionar a importância de conhecer outros processos acadêmicos e de gestão implantados com sucesso em instituições de ponta mundo afora. A missão dos gestores agora é refletir sobre a experiência de forma a contribuir para a melhoria da administração do ensino superior no Brasil. Confira alguns depoimentos:
“Na Warwick, percebe-se como eles fazem a integração de mudanças permanentes em uma grande organização e seu alinhamento com o setor produtivo. Isso é um diferencial grande. No Brasil, não temos uma cultura tão forte da pesquisa, mas, mesmo assim, há uma tendência natural das nossas instituições de fazer um alinhamento com o mercado de trabalho.”
Alexandre Nunes Theodoro, superintendente institucional das Faculdades Integradas Espírito-santenses (Faesa)“Conhecer Warwick permitiu que enxergássemos a gestão da instituição de ensino como um todo, não só focados nas questões acadêmicas. Foi um exemplo de como não depender só de mensalidades escolares, e ter outros negócios dentro da universidade pode facilitar, na teoria, a gestão da instituição. Por ter experiência em outras missões, essa superou as expectativas já na primeira etapa.”
Arapuan Motta Netto, reitor do Centro Universitário Augusto Motta (Unisuam)“Tanto em Warwick, que nos apresentou questões de excelência na administração, quanto em Dublin, onde o foco é a inserção do empreendedorismo nos programas, foram tratados assuntos de importância fundamental para gestão do ensino. Volto para casa com muitas ideias, graças aos programas e ao relacionamento com os colegas.”
Alexandre Gracioso, vice-presidente acadêmico da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM)“Na Innovation Academy, me impactou a estrutura e a forma com a qual a universidade canaliza recursos e prioridades para o programa. Em relação ao método, a capacidade de multidisciplinaridade chamou a atenção, tendo alunos de diferentes cursos e formações participando dos mesmos projetos, além da integração com a indústria e o aparato em volta disso. Foi fantástico ouvir o depoimento dos estudantes sobre o que isso modificou na vida deles. O que foi apresentado é perfeitamente aplicável à realidade brasileira.”
Jeferson Vinhas Ferreira, superintendente executivo do Grupo Educacional Unis“No Trinity College, vimos que o ensino está ligado a um projeto de reposicionamento do país. Quando falam que a academia busca projetos inovadores, em parceria com a sociedade, governo, empresários e agências de fomento, fica claro que há espaço para fazermos algo semelhante no Brasil. Para mim, o mais inovador foi a identificação de uma falha no nosso processo de formação, seja na graduação ou na pós, e fazer com que o aluno, ao final de seus estudos, possa ter uma produção científica mais atrelada ao que o mercado precisa.”
Francisco Carlos Tadeu Starke Rodrigues, pró-reitor administrativo do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo

 

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