A caixinha dos segredos

“São as pessoas que fazem as instituições e que as… desfazem”. Leia aqui o quarto texto da série inédita de José Pacheco

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A lucidez dos reparos do Marcos ensina-me a traduzir o mundo em metáforas. É-me impossível dizer tudo o que nele julgo ler, mas busco a imperfeita transposição. E nada melhor que um neto, para aumentar os meus desconhecimentos e desteorizar a vida. Caio, porém, em pecadilhos, que o leitor atento já se apercebeu do estilo maniqueísta destes textos. Há sempre uma moral implícita e uma escola “ideal” e “alternativa” às escolas que ainda (infelizmente) vamos tendo, o que me obriga a fazer uma confissão: não se pense que a escola “ideal” que tenho em mente se comporta sempre como escola “ideal”. São as pessoas que fazem as instituições e que as. desfazem. As escolas são habitadas por pessoas. Quem nos dera que, em certos dias, o não fossem!

Como dizia, tempos atrás, há dias em que o lado lunar produz tal impacto numa escola, que melhor fora que o dia nem tivesse começado. Há professores que ligam os seus “complicadores”, e os jogos de poder, que considerávamos erradicados, emergem violentos. O negrume de sentimentos negativos invade os corpos e as almas, ensombra as horas, faz desejar ir embora dali. Mas, talvez porque os professores tenham um projecto (ou o que quiserem chamar ao que põe cimento nas causa comuns), logo surgem prenúncios da bonança que suaviza iras e amacia conflitos.

Se entendemos essa gramática nos adultos, houve um tempo em que os professores a apreenderam nas crianças. Há quase trinta anos, um episódio trágico deu que pensar aos professores dessa escola “ideal”. Um aluno de uma escola próxima cometeu suicídio – eu sei que custa aceitar a ideia do suicídio na infância, mas a criança em causa, ao que pude apurar, há muito evidenciava comportamentos que poderiam ter sido sinais de alarme – e, reflexão após reflexão, chegou-se à conclusão de que todas as escolas devem estar atentas a pormenores. Era a Inês, que ficava fixava os olhos num ponto qualquer e se ausentava. Era o Júlio, que infligia a si próprio sofrimento, com qualquer objecto cortante que estivesse à mão. Era ainda o Vasco, que alternava súbitos gritos com longos períodos de prostração.

Nos encontros de fim de tarde, falou-se de desencontros, de falta de comunicação, de sofrimento e infelicidade infantil. O que, até então, poderia ser considerado tabu, passou a ser encarado como deficit de atenção. Não que aqueles professores andassem distraídos, mas que não se perderia nada em atentar em insignificantes significâncias.

Não tardou que a redobrada atenção desse frutos. A caixinha dos segredos (assim foi baptizada pelos alunos) passou a encher-se de mensagens de seres sedentos de diálogo.

Havia os que colocavam na caixinha papéis dobrados e bem colados, e escreviam por fora: “É para a professora F.” A professora lia: “Professora, a minha irmã mais velha tem um curso, mas não arranja emprego. Ao jantar, há sempre discussão. O meu pai diz que ela é uma preguiçosa e que na idade dela ele já trabalhava. Ontem, à noite, o meu pai levantou-se da mesa e atirou com o telefone à cabeça da minha irmã. Eu fugi para o meu quarto. Nem jantei. Não sei o que fazer. A professora pode ajudar-me?”. As professoras ajudavam, discretamente, sem saber que começavam a esboçar o perfil de um professor-tutor. Havia as cartas de amor decoradas com corações e setas, umas mais longas, outras telegráficas: “Se gostas de mim, põe uma cruzinha à frente do “eu gosto de ti”. Depois volta a pôr na caixinha dos segredos”.

Feita a entrega das primeiras aos respectivos destinatários, os professores percorriam as salas, fazendo a entrega do correio sentimental. Mas não se pense que a redobrada atenção se resumia à actividade epistolar e aos encontros que dela decorriam. Nem um professor-tutor tem por vocação ser mero confidente ou médico de almas. Os papéis de um professor-tutor vão mais além, ou nem sequer a sua missão passa por aí, porque, felizmente, a maioria das crianças são filhos felizes de famílias felizes. Por ora, direi que, um pouco mais atentos, os professores acharam dramas e medos até então ocultos. No afago sereno das palavras, devolveram aos pequenos seres a confiança perdida. E, quando pensavam estar a monda do sofrimento acabada, surgia novo motivo de preocupação.

O professor viu duas meninas, uma de cabeça pousada no ombro da outra, a outra passando a sua mão no rosto da companheira. Viu lágrimas no rosto desta. Aproximou-se. Seria, certamente, mais um arrufo de namoradinho, ou zanga de amigas.

– “Então, o que se passa?”

– “Ó professor, ela disse-me que, ontem, o pai dela se zangou com a mãe, e que dormiu no sofá da sala. Está muito triste e diz que não quer voltar para casa”.

– “Deixa lá, pequena!” – disse o professor, para aligeirar, ao aperceber-se de que a aluna já tinha interiorizado um sentimento de culpa – “Quando chegares a casa, vais ver que os teus pais já estão de bem um com o outro! Os adultos são assim, miúda! Não te preocupes! Não fiques triste!

Esperava resposta da chorosa, mas quem lhe respondeu foi a que não chorava:

– “É, professor, eu também já lhe tinha dito que não vale a pena chorar. Os meus pais já não se falam, nem dormem juntos há dois anos, mas que eu já não me importo com isso. Quero lá saber!”

O professor ficou em confusão, sem saber se deveria condoer-se da menina chorosa, ou abraçar a que lhe respondera. Saiu dali, lesto, porque há ocasiões em que até um homem chora.




Leia também os outros textos publicados na série inédita e exclusiva do educador português José Pacheco:





O padre, o poeta e a professora de francês




Para os filhos dos filhos dos nossos filhos




Tempus fugit



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