A biblioteca pessoal

Os professores precisam de quem os ensine a ensinar: os livros

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A leitura variada e profunda é vital para a formação docente. A educação brasileira precisa de professores que sejam leitores constantes, com repertório amplo, com linguagem atraente/convincente, com visão de mundo fortalecida pela reflexão, com sensibilidade para não prender disciplina alguma em rotinas burocráticas, em fórmulas apáticas, em métodos repetitivos.

Que em cada escola, pública ou particular, houvesse uma excelente biblioteca destinada exclusivamente aos professores. Não só com os livros de pedagogia, essenciais, e os documentos oficiais, os referenciais, as diretrizes nacionais e internacionais, e a legislação, os parâmetros, os projetos, as estatísticas. Mas também com abarrotadas estantes de história, filosofia, antropologia, literatura, arte em geral, sociologia, ciência, tecnologia e outros tantos temas e “logias” necessários para a vida intelectual.


E que na sala dos professores tivéssemos a vontade natural de superarmos as questões epidérmicas e cosméticas. Que tivéssemos tempo e espaço, estímulo e ânimo para conversar sobre temas de fundo, não apenas os (interessantes, sem dúvida) assuntos propostos ou impostos pelas revistas semanais (algumas caras, outras baratas), pelos telejornais que nos globalizam, ou pelas urgentes pautas sindicais. Podemos sempre mais!


A biblioteca professoral
Além da biblioteca coletiva da escola (iniciativa que demonstraria os verdadeiros méritos de uma prefeitura, de uma secretaria de educação, de uma diretoria), é igualmente vital para os professores terem sua biblioteca particular, com seus clássicos pessoais, com seus livros de consulta, para estudo cotidiano e também para momentos de entretenimento cultural.


De novo, não seria biblioteca restrita aos temas, às abordagens, aos autores que todos conhecemos como importantes na formação docente. Que estejam presentes Paulo Freire e John Dewey, Freinet e Piaget, Claparède e Lourenço Filho, Wallon e Morin,  Anísio Teixeira e Montessori, Makarenko e Comênio, entre tantos outros. Mas que outros tantos autores, mesmo não rotulados de educadores, tenham o seu lugar assegurado na fila das nossas futuras leituras.


Autores brasileiros e estrangeiros, contemporâneos ou de muitos séculos atrás, mais racionais ou mais emocionais, materialistas ou espiritualistas, prolixos ou concisos, contundentes ou conciliadores… É praticamente infinito o espaço das escolhas. E é também o momento de saber se sabemos escolher. Montar uma biblioteca exige interesse, pesquisa, curiosidade. E a coragem de optar.


Os clássicos (claro!) são sempre referência incontestável. Devemos conhecer Dante, Homero, Balzac, Cervantes, Shakespeare, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, nem que seja para dizer que preferimos outros clássicos. Entra aqui a capacidade de escolher nossos clássicos pessoais, como dizia Italo Calvino. E esses clássicos podem ser nomes menos conhecidos, menos elogiados, desprezados, ou até mesmo odiados pela crítica dominante. Mas nada disso é importante. Os clássicos pessoais serão legitimados pela pessoa que os classifica como algo que valha a pena ler, reler e recomendar!


As consequências práticas e didáticas são óbvias. Um professor que tenha escolhido os seus clássicos pessoais, e que os frequente com interesse, torna-se, perante seus colegas e dirigentes, perante seus alunos, na classe, na hora da aula, um professor com personalidade intelectual, com perfil definido. Não é mero repetidor de conteúdos livrescos ou apostilescos, não é simples educador de giz e quadro-negro, de retroprojetor, flip chart, lousa eletrônica, power-point, laptop ou tablet.  Sua visão e sua voz estão fundamentadas numa tecnologia antiga e insuperável – na leitura livre. Livre das modas e muletas de todo gênero!


De livro em livro
Não se cria uma biblioteca em um dia, em um ano. Biblioteca é projeto para a vida inteira. E requer amor aos livros. É uma contradição ser professor de pouca leitura. Se uma casa sem livros é uma casa sem janelas (frase atribuída a vários pensadores), uma existência de professor sem leitura é vida fechada para o aprendizado.


A biblioteca pessoal é construída livro a livro, uma aquisição hoje, outra amanhã, é feita de visitas à livraria, ao sebo. Trata-se de investimento pessoal. Não é despesa, ainda que pese no bolso. Mais pesada, porém, é uma vida sem a leveza das ideias, sem a beleza das imagens, sem a força das metáforas e dos argumentos que um livro traz.


Não pode haver maior incoerência que um professor não ler ou, até, não gostar de ler. Mas também sabemos que essa incoerência se explica pelas limitações da profissão docente no Brasil. Quando reivindicamos melhores condições de trabalho, incluímos (imagino eu) possibilidade para comprar livros e tempo livre para ler.


A poeta Adélia Prado diz… “escrevo um livro para ver se me livro”. Podemos parafrasear: “eu compro um livro para ver se me livro”. Para ver se nos livramos da superficialidade, dos preconceitos, dos lugares-comuns, de tudo aquilo que não condiz com a arte de ensinar.


De livro em livro a biblioteca preenche a alma. Não se trata de estabelecer quantidades para o acervo, mas serve aqui de inspiração lembrar as metáforas usadas por leitores apaixonados. Os livros são chamados de amigos constantes, sábios conselheiros, de flores perfumadas, de remédios eficazes, de alimento saudável, de amantes, de orientadores, de asas, de navios e, de modo especial, são vistos como professores.


Nós, professores, precisamos de professores que nos ensinem a ensinar. Os livros têm essa capacidade. Um poema nos ensina a ver para além das coisas opacas. Um romance nos ensina a redimensionar os dramas pessoais. Um ensaio filosófico nos torna mais reflexivos, mais ponderados. Uma biografia nos leva a compreender o valor inestimável de uma única vida. Um livro de história nos dá acesso à memória humana. Enfim, não tem fim a capacidade de um livro nos ensinar.


De livro em livro, construímos uma biblioteca. Que reflete nossos gostos, preferências e, sobretudo, aponta para o nosso futuro. Na biblioteca pessoal de um professor, vemos o futuro desse profissional.


E o futuro da educação nacional.


*Gabriel Perissé (www.perisse.com.br) é doutor em Filosofia da Educação (USP), pesquisador do NPC – Núcleo Pensamento e Criatividade

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