A Bíblia Profana

Mesmo não sendo sagrado, o “Livro” escrito para humanistas também exige fé dos seus leitores. Leia mais na coluna de Gabriel Perissé

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O professor Anthony Grayling publicou uma Bíblia ao contrário, uma Bíblia laica, profana. (Crédito: Shutterstock)

O maior de todos os long-sellers é uma antiga coletânea de livros, a Bíblia sagrada. Reúne relatos fantásticos, histórias de amor e ódio, orientação ética, indicações legislativas, poesia, palavras de prudência, cartas, profecias, narrativas de todo o gênero. São inúmeros autores em nome de Deus. Há heróis e santos, demônios e traidores, coadjuvantes aos milhões, efeitos especiais do outro mundo, intervenções angélicas e uma conclusão apocalíptica.

Dividida em duas partes (a primeira parte chama-se “antiga aliança” e a segunda, “nova aliança”), essa obra-prima não tem igual no universo — e, além de ter sido muitíssimo lida ao longo de séculos, recebeu e continua recebendo inúmeros estudos especializados, além de ter inspirado e continuar inspirando pintores, arquitetos, oradores, músicos, escritores, dramaturgos e cineastas.

Tão inspirada e inspiradora é, que em 2011 o filósofo e professor Anthony Grayling publicou uma Bíblia ao contrário, uma Bíblia laica, profana, que ele intitulou The Good Book. A Editora Objetiva lançou uma tradução em 2014. O bom livro começa com uma “epístola ao leitor” (nada mais apropriado) e tem os seguintes “livros”: Gênesis, Sabedoria, Parábolas, Concórdia, Lamentações, Consolações, Sábios, Cânticos, Histórias, Provérbios, O Legislador, Atos, Epístolas. Para concluir, uma seção sobre “O Bem”.

Obra humanista

A ideia do autor é quase divina: reunir palavras iluminadoras, afastar as trevas da ignorância, recuperar formas de abrir caminhos no mundo para que a humanidade encontre a felicidade terrena.

O autor atua como coletor de frases, ideias, aforismos e mensagens que se encontram espalhadas nas tradições humanas. Esse livro é uma boa antologia. Traz para um só lugar o pensamento e os desejos fortes de pensadores dispersos pelo mundo inteiro, e que viveram em diferentes momentos da história.

O bom livro tem outra coisa boa: utiliza capítulos e versículos, o que facilita a sua consulta. Por exemplo, no capítulo 7, versículos 2 a 5 de Lamentações, lemos estas palavras:

2. Não admitimos que ninguém se aproprie de nossos bens, corremos às leis e às armas se houver a mais leve divergência sobre os limites de nossa propriedade.

3. E, no entanto, permitimos que outros invadam nossa vida; de fato, nós mesmos damos entrada aos que acabarão por possuí-la.

4. Não se encontra ninguém disposto a distribuir seu dinheiro, e todavia a quantos cada um de nós distribui sua vida!

5. Ao guardar suas fortunas, os indivíduos geralmente são sovinas, e todavia, quando se trata de desperdiçar tempo, única coisa em que é certo ser avaro, mostram-se extremamente pródigos.

Uma bela argumentação sobre a arte de aproveitar o tempo.

Aprender a viver

No livro dos Provérbios, a Bíblia profana não faz promessas celestiais. Não espera da divindade o que nem a humanidade pode nos dar. É pragmático e duro com os leitores. Diz a eles, na cara, o que os antigos sempre disseram na cara de seus filhos e alunos. Alguns versículos do capítulo 38:

3. A criança mimada jamais amará a mãe.

6. De facas mantenham distância tolos e crianças.

9. Criança ouve muito e fala demais.

10. Criança repete tudo o que ouve.

12. Filho criado, trabalho dobrado.

14. Criança mimada, criança estragada.

23. Criança, se está quieta, é porque fez alguma.

30. Melhor conquistar a criança pelo respeito do que pelo medo.

No livro Atos, o propósito é mostrar que devemos conhecer a história humana, observar o que se fez no passado para aprender a viver no presente:

12. As virtudes dos grandes nos servem como espelho, onde podemos ver como ajustar e adornar nossas vidas,

13. E suas falhas e fraquezas igualmente ensinam pelo exemplo, e o conjunto de todas elas nos serve como um manual de humanidade.

Cartas aos mais jovens

O penúltimo livro, das Epístolas, é uma série de sensatos conselhos a um leitor mais jovem. Quem escreve está preocupado em educar. É uma mistura de pai e professor. A Epístola 21 já encontra alguém que vai ingressando na maturidade. E diz a ele o seguinte:

1. Meu caro filho, que período feliz de tua vida!

2. O prazer é, e deve ser, teu afazer agora que estás entre a escola e a vida.

3. Quando eras mais novo, o objeto de teus esforços eram áridas regras, fatos e exames.

7. O mundo agora é teu livro, um livro necessário que só pode ser lido em companhia, em locais públicos, em jantares, no teatro, em jogos.

23. Feliz aquele que, com alguns dotes e conhecimento, cedo se familiariza com o mundo, a tempo de tomá-lo como sua propriedade numa idade em que a maioria das pessoas é propriedade do mundo!

Embora seja profana, a Bíblia humanística também exige fé dos seus leitores. Não tem palavras sagradas, mas pode ensinar verdades necessárias, provenientes de vozes originais e de mentes proféticas como as de Sócrates, Sêneca, Confúcio, Cícero, Montaigne, Bacon.

Precisamos acreditar no bem. Acreditar que a leitura boa nos salva do fogo da tolice e nos conduz ao céu da sabedoria.

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