A batalha dos didáticos

Conteúdo de livro reaviva diferenças entre China e Japão

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 Bertrand




O mundo assistiu com perplexidade, em abril, a uma queda de braço entre dois dos principais países asiáticos – o Japão, segunda maior economia mundial, e a China, a nação mais populosa e atual locomotiva econômica do mundo. O que desencadeou a questão foi… um livro didático! Por causa dele, a China foi sacudida por grandes manifestações de protesto, estabelecimentos comerciais, representações diplomáticas e cidadãos japoneses foram atacados, os dois governos bateram boca. Afastada dos holofotes, a Coréia do Sul endossou os protestos de Pequim.

Quem não conhece a história do século XX pode achar que os chineses enlouqueceram ao fazer tal rebuliço por conta de um simples livro. É evidente que, por trás do motivo que desencadeou a tensão, se escondem questões políticas e econômicas. Mas o fato é que China e Japão têm historicamente uma relação de amor e ódio, que no passado já descambou para muita violência. Desta vez, quem bateu foram os chineses. No passado, no entanto, os japoneses foram, digamos, imbatíveis. E é essa a origem da briga.


Expansionismo militar –

Isolado por muitos séculos, o Japão foi obrigado pelas potências ocidentais a se abrir para o mundo na segunda metade do século XIX. Em poucas décadas, o país – muito militarizado – iniciou um período de expansionismo. Conquistou territórios à Rússia, tomou a península da Coréia, herdou da Alemanha, derrotada na 1ª. Guerra Mundial, suas colônias no Pacífico, ocupou a Manchúria (norte da China), onde criou um Estado-fantoche.

Em 1937, aproveitando-se da guerra civil entre nacionalistas e comunistas, invadiu a China. Quando a 2ª. Guerra Mundial eclodiu, o Japão apossou-se de todo o Sudeste Asiático. A brutalidade dos ocupantes foi tal que o ressentimento dos povos ocupados – em especial chineses e coreanos – perdura. O Japão perdeu a guerra, sofreu a ocupação dos Estados Unidos – uma vergonha para muitos japoneses – e sucessivos governos se desculparam formalmente pela selvageria nada menos que 17 vezes desde 1945. Mas, como o recente episódio revelou, não bastou.


A verdade nos livros didáticos –

“Livros didáticos são amplamente usados nas escolas japonesas”, escreveu a especialista americana Kathleen Masalski, ao analisar o porquê da revolta dos chineses no episódio. “Portanto, seu conteúdo tem grande importância no ensino e no aprendizado da história.” O historiador Richard Minear, especialista em Japão, também americano, reforça: “Nossos alunos acreditam sem pestanejar em tudo o que lêem nos livros didáticos.”

Como no Brasil, qualquer um pode escrever livros didáticos no Japão (na China e na Coréia do Sul, o governo controla estritamente seu conteúdo. Ponto para o Japão). A cada quatro anos, o Ministério da Educação faz uma análise de novas publicações e recomenda sete ou oito títulos para cada disciplina. Cabe aos distritos escolares selecionar quais serão utilizados nos estabelecimentos de sua jurisdição.

O livro que incendiou as relações sino-japonesas já fora analisado em 2001. Ciente da susceptibilidade dos vizinhos, na ocasião o ministério pediu que fossem feitas no texto 124 alterações. Agora, em 2005, o livro foi aprovado. (Detalhe 1: foi adotado por apenas dez das 10 mil escolas de ensino médio do país. Detalhe 2: vendeu 750 mil exemplares.) Mas as alterações não foram suficientes para torná-lo aceitável para os chineses.

O professor Zhao Jieqi, do Instituto de Estudos Japoneses da China, acusa-o de descrever a ocupação japonesa de seu país e da Coréia – que, segundo ele, foi amenizada no texto e se tornou “avanço sobre” e “saída da” – como uma “guerra de libertação da Ásia” contra o imperialismo ocidental. “Os tremendo crimes de guerra cometidos pelo Japão não são mencionados uma única vez”, escreveu. Para ele, “grandes mudanças” foram feitas na descrição de atrocidades tais como as terríveis pesquisas científicas levadas a cabo com prisioneiros na Unidade 731 e a prática de seqüestrar chinesas e coreanas e forçá-las a servir sexualmente as tropas japonesas. A carnificina conhecida como o Massacre de Nanquim, em que centenas de milhares de chineses foram trucidados, segundo o professor chinês, é citado como mero “incidente”.


Duas visões –

O livro que causou a confusão é de uma editora ligada a uma organização de direita denominada Sociedade para a Reforma dos Livros Didáticos. Fazem parte dessa entidade um grupo de acadêmicos da exclusiva Universidade de Tóquio, liderados pelo professor de pedagogia Nobukatsu Fujioka, e algumas centenas de simpatizantes, talvez um pouco mais. Para eles, o Japão tem uma atitude “masoquista” em relação ao seu passado militar, e os crimes atribuídos ao país não passam de “excessos normais” de qualquer exército de ocupação. “Por que estamos ensinando nossas crianças a odiar o Japão?”, pergunta um integrante da organização. “Se não tivéssemos colonizado a Coréia, os EUA ou a Europa o teriam feito. Não temos nada de que nos envergonhar”, afirma outro.

Há mais uma vertente no Japão, personificada pelo historiador Saburo Ienaga. Em 1965, ele entrou na Justiça depois de ter um livro didático de sua autoria rejeitado porque, segundo o parecer do Ministério da Educação, continha “excesso de ilustrações do ‘lado negro’ da guerra, tais como um ataque aéreo, uma cidade em ruínas depois da explosão da bomba atômica e veteranos de guerra mutilados”.

Ienaga questionava a constitucionalidade e a legalidade do processo de seleção dos livros. Perdeu. Voltou a entrar na Justiça em 1967 e 1986, pelas mesmas razões. Em 1982, conseguiu uma vitória parcial: por sua causa – e por pressão da China e da Coréia – adotou-se oficialmente no país, como critério para a seleção de livros didáticos, ter em conta a harmonia internacional ao tratar de eventos históricos que envolvam nações vizinhas. A briga terminou definitivamente em 1997, quando a Corte Suprema decidiu pelo direito do Ministério da Educação de continuar a prática.

Como se vê, portanto, não é somente com os vizinhos que o Japão precisa fazer um acerto com seu passado: no interior de sua própria sociedade, criou-se uma relação ambígua com ele – e com sua herança de violência e de vergonha.




O passado que ainda dói




Os chineses se queixam de que o livro da Editora Fushosha distorce ou omite pelo menos três fatos particularmente tenebrosos ocorridos durante a ocupação japonesa de seu país:

O Massacre de Nanquim (verão de 1937-1938) – Em 1937, a China estava em guerra civil, que opunha nacionalistas, chefiados por Chiang Kai-shek, e comunistas, liderados por Mao Tsé-tung. Aproveitando-se do conflito interno, o Japão tomou Xangai em novembro e suas tropas marcharam sobre Nanquim, a capital do governo nacionalista. Inferiorizados em armamentos, mal comandados e com o moral baixo, os cerca de 300 mil soldados que defendiam a cidade capitularam em 13 de dezembro. O comando de ocupação ordenou que fossem fuzilados.

Quando a ordem passou a ser executada, os militares chineses se misturaram à população. Os japoneses começaram então a matar indiscriminadamente grupos de civis. Paralelamente, ocorriam pilhagens e estupros. Em pânico, milhares de pessoas morreram afogadas ao tentar atravessar o Rio Yangtzé. Ninguém sabe quantos morreram na matança, que terminou em fevereiro de 1938. Os chineses dizem que foram 300 mil. As cifras mais conservadoras – de fontes japonesas – estimam o número de mortos em “apenas” 38 mil. Não se pode dizer que se tratou de um “incidente”.

As escravas sexuais – Entre 80 mil e 200 mil jovens – a maioria coreanas – foram arrancadas de seus lares e obrigadas a servir sexualmente os soldados japoneses. Eram forçadas a manter de 10 a 30 relações sexuais por dia, e se resistiam eram mortas. Algumas das sobreviventes, depois de anos de luta nos tribunais, conseguiram obter do governo do Japão algum tipo de compensação financeira.

A Unidade 731 – O maior programa de armas biológicas desenvolvido na 2ª. Guerra estava sediado em Tóquio. Mais de 10 mil prisioneiros chineses, coreanos e russos foram mortos, muitos com espantosa crueldade – há registros, por exemplo, de homens dissecados vivos e sem anestesia -, ao servir de cobaia para cientistas empenhados na invenção de armamentos letais. Que, depois, acusa a China, foram usados contra a população chinesa.




Um esqueleto no nosso armário




A Guerra do Paraguai (1864-1870) foi, sem dúvida, um episódio importante na história do Brasil. Mas, para o Paraguai, onde ela é chamada de Guerra Grande, foi um divisor de águas: devastado, o país, que era próspero, nunca se refez. Nas escolas do país estudam-se os lances diplomáticos e militares contra o Paraguai. E as centenas de milhares de vítimas do conflito são reverenciadas no dia 1º de março, data da morte do então presidente e herói nacional Francisco Solano López  O governo brasileiro, assim como o argentino, não reconheceu o genocídio praticado. O do Uruguai avançou mais: devolveu ao Paraguai documentos e armas, os chamados troféus de guerra.





Reportagem: Bias Arrudão




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