A barreira da comunicação

Estudantes saem do barco e caminham até a van escolar: percurso até a cidade dura quase quarenta minutos O único barulho que se escuta …

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Estudantes saem do barco e caminham até a van escolar: percurso até a cidade dura quase quarenta minutos

O único barulho que se escuta é o do motor da van escolar. O automóvel tenta andar sobre o barro da estrada de terra entre o Porto das Figueiras e Iporanga. Às seis horas da manhã, Jucemar leva o primeiro grupo de alunos, com seis crianças, para a escola no centro da cidade. Os meninos saem de Praia Grande de barco e chegam até o porto – de lá, são quarenta minutos até a escola.

Dentro da van, o silêncio predomina. Os alunos fogem do gravador e da máquina fotográfica. O comportamento chama a atenção porque, via de regra, esses equipamentos costumam atrair as crianças. Não é difícil vê-las à frente de câmeras, prontas para ser fotografadas ou ter suas imagens registradas em vídeo. Naquele ônibus, o máximo que se escuta são risadas abafadas e envergonhadas de meninos e meninas que resistem para se comunicar. Raí, 12 anos e aluno da 5ª série, não gosta de falar – ou ao menos não o faz na presença de estranhos. "Eles gostam de falar, mas estão com vergonha. Aqui no carro, são tudo bagunceiro", revela Zenilda Rosa de Matos, 14 anos e aluna da 8ª série.  Zenilda, a única que se manifesta (ainda que com respostas lacônicas), estudou no bairro de Praia Grande até a 6ª série. Foi transferida para o colégio do centro da cidade antes mesmo do fechamento da "escola do sítio" – lá, só estudavam alunos até essa etapa.

Zenilda lembra que a escola não era feita de pau a pique e nem de concreto – era construída com os populares blocos de cimento, ou tijolos baianos. Sobre a experiência de estudar em Iporanga, Zenilda se considera feliz. "Na Praia Grande tinha pouco aluno, agora tem bastante", justifica. Ela não sabe dizer se os colegas da cidade são parecidos com eles, moradores de Praia Grande. Mas sabe identificar uma característica importante: a qualidade do ensino na nova escola aumentou. "O estudo é melhor lá. Os professores são melhores", conta. A muitas perguntas, Zenilda responde "humm, humm". Quando é questionada sobre o tempo que leva o trajeto completo de sua casa até a sala de aula, ela tem uma reação curiosa: não sabe dizer. "Eu não sei dizer quanto tempo, sabia? Não é muito nem pouco. É, não é muito, não", diz. (
B.R.

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