A azul, ou a vemelho?

Aprendizagem é dialogia. O diálogo é policromático. O monólogo é monocromático

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José Pacheco


Sempre que tropeça nos absurdos das escolas que ainda temos, o professor Filipe partilha comigo essas experiências.


Ouçamo-lo.


"Um aluno perguntou: ‘Professor, o sumário é para escrever a azul ou a vermelho?’
‘Decide tu meu rapaz, a escolha é tua’ – foi o que lhe respondi.
‘Nas outras disciplinas, eu escrevo o sumário a vermelho e o resto a azul’ – replicou o moço. Em cinco anos de escolaridade, não conseguiram ensinar a este rapaz se deverá escrever a azul ou a vermelho. A escola fez um trabalho notável neste aluno: tem boas notas, é bem comportado (não perturba a aula, nem faz perguntas sobre as matérias). Mas, se a escola não lhe ensinou a decidir entre o azul ou o vermelho, o que irá ele fazer, quando tiver de tomar decisões? Telefonará ao professor?"

O Filipe possui um apurado senso crítico. E reflectiu: "O pior de tudo foi que eu me revi naquele aluno. Também me ensinaram que tudo estava pré-determinado. Nunca escolhi caminhos, porque a escola sempre me conduziu. Durante dezasseis anos, foi como se entrasse numa escada rolante de um shopping e, sem me mexer, conseguisse subir e descer andares…"


Escutei o Filipe, com solidária atenção. Fiz-lhe ver que já era assim, no tempo em que eu era um jovem professor, como ele é. Evoquei episódios semelhantes, para que compreendesse que nada mudou, desde há meio século para cá – "Professor, deixo uma ou duas linhas?"
Por que razão os alunos fazem perguntas a preto e branco? Por quê planos de aula para o cinzento "aluno médio", se cada aluno é um ser único e irrepetível, se uma turma é uma paleta de cores e é imensa a gama de tons?


Eduardo Galeano colheu uma frase, escrita numa parede de Quito e divulgou-a no seu livro "Palavras Andantes": "Quando tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas". Passaram séculos sobre a criação da escola das respostas, da velha escola, que não se interroga – dá respostas, sem que se aperceba de que as perguntas mudaram.


Durante a visita a uma velha escola, ouvi um velho e esclerosado professor (que tem a mesma idade do Filipe) exclamar: "Nesta turma, tenho um aluno que faz muitas perguntas e que me quebra o ritmo da aula! Ainda se as perguntas tivessem relação com o meu plano de aula, ainda vá!… Mas nem isso!"


As aulas do tempo em que eu tinha a idade que o Filipe tem eram da cor do quadro preto. De sala em sala, o monocromático modelo se repetia. De sala em sala, o monocromático modelo se repete. Eu não o repliquei. E, quando me perguntam se a aprendizagem deve estar centrada no conteúdo, no professor ou no aluno, eu respondo que está centrada na relação. Na relação entre os alunos, entre os alunos e o saber, na relação entre aluno e professor, na relação entre professores. Aprendizagem é dialogia. O diálogo é policromático. O monólogo é monocromático.


Professores como o Filipe dão cor a escolas onde ainda reina o preto e branco e o daltonismo pedagógico. Professores como o Filipe buscam a escola em arco-íris, onde caibam todas as possibilidades. Sem eles, o que seria do amarelo?




JOSÉ PACHECO


Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal).  
josepacheco@editorasegmento.com.br


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