A avaliação sai do vermelho

Escolas procuram conhecer melhor seus alunos

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Daniela Tófoli



Foi-se o tempo em que um boletim repleto de notas vermelhas significava fracasso escolar. Primeiro porque boa parte dos boletins já pode ser acessada on-line, sem o azul e o vermelho para distinguir as notas. Segundo, porque em várias escolas, as notas se transformaram em conceitos. E, por fim, uma prova mal sucedida não quer mais dizer que o estudante seja incompetente. Pode indicar apenas uma dificuldade de manifestar alguma habilidade, das dezenas que caracterizam o bom aluno.


Avaliar todas essas características, que variam da solidariedade até a capacidade de expressão oral é o grande desafio da escola moderna. Diretores, coordenadores e professores aprenderam que não basta aplicar duas provas a cada bimestre, somá-las, dividir por dois e pronto. Para saber se um estudante está realmente assimilando o que se passa na sala de aula e, acima de tudo, se desenvolvendo enquanto ser humano é preciso muito mais. É necessário usar observação, paciência, método, criatividade e muita autocrítica. Pode-se descobrir que, às vezes, as dificuldades de aprendizagem de um aluno não residem propriamente nele, mas no professor.


E é para lidar com todas essas questões que os estabelecimentos de ensino se acham cada vez mais preocupados em discutir suas formas de avaliação. Na Escola Nossa Senhora das Graças, zona sul de São Paulo, o principal tema de trabalho entre o corpo docente do biênio 2005/2006 será justamente as formas de avaliar crianças e jovens.


“Estamos sempre repensando nosso método de avaliação, propondo mudanças e observando os resultados”, explica uma das coordenadoras do colégio, Nausica Riatto. “É uma necessidade definir novos critérios e, por isso, elegemos esse tópico para aprofundar”.No Gracinha, como a escola é conhecida, a avaliação se faz por meio de notas, mas leva em conta uma série de outros itens. “É claro que temos o exame bimestral, mas as atividades, como lição de casa e participação na aula, também somam pontos”, explica. “Hoje o aluno precisa estar preparado para a vida. Não basta apenas ter o conteúdo na ponta da língua”.



Não basta verificar o que o aluno aprendeu


A Coordenadora do Colégio Magno, Myriam Tricate, assume que as escolas ainda têm bastante dificuldade para avaliar seus estudantes. “Os professores tendem a ver a avaliação apenas como uma verificação do que o aluno aprendeu, mas ela precisa ser muito mais”. Para Myriam, este procedimento não pode se restringir apenas à média de exames escritos ou de testes. “Ela deve ser mais abrangente e flexível. Aqui no Magno exigimos no mínimo três notas por bimestre que devem ser atribuídas para provas, trabalhos e chamadas orais”. E acrescenta que essas provas não precisam seguir o modelo tradicional, podem ser em grupo ou com consulta. Até a quarta série, os alunos recebem conceitos. Notas, só a partir da quinta.


“Estamos sempre discutindo e revendo nossos métodos. Essa é uma área onde ainda temos muito a progredir. E não são só os colégios que precisam evoluir”, lembra Myriam. “As famílias estranham muito quando não recebem um boletim com notas vermelhas ou azuis. Eles sempre esperam a avaliação formal. Por isso, o sentido de todas as mudanças devem ser muito bem explicado para os pais”.


Explicar cada detalhe para as famílias foi o que fez a Escola Santo Inácio quando mudou seu processo de avaliação. Até a quarta série, os alunos não fazem provas nem recebem notas ou conceitos. Eles são avaliados diariamente pelos professores e, assim, os pais recebem periodicamente um relatório informando como estão se desenvolvendo em cada matéria. “No começo, as famílias acharam estranho a ausência de um boletim com as notas, porque não estavam acostumadas com o novo sistema”, lembra Beka Cury, a diretora-pedagógica do colégio. “Mas agora todos se adaptaram aos relatórios, porque eles avaliam o aluno por inteiro e são bem completos. Avaliamos desde o comportamento em relação ao grupo, até seu desenvolvimento físico e artístico. Dessa forma conseguimos satisfazer os pais e acompanhar melhor os estudantes, ajudando-os a desenvolver suas potencialidades”, conclui.



Uma nota para o
saber

e outra para o
ser




Quando chegam à quinta série, os alunos da Santo Inácio passam a receber notas, para poderem saber melhor quais são seus mais fortes e fracos. “Mas nesta avaliação não queremos ver apenas quais conteúdos o estudante aprendeu. Também damos uma nota para o
ser

, que tem o mesmo peso da nota do
saber

“, acrescenta Beka. Neste início de ano, os professores do colégio estão reunidos para discutir e avaliar todo o processo.


Buscar uma avaliação mais completa é o caminho que as escolas devem seguir, afirma a pedagoga Célia Godóy, que elabora um livro sobre o tema e oferece consultoria em escolas de São Paulo. Segundo ela, “muitos colégios se apegam apenas aos conteúdos conceituais e obtêm uma avaliação descontextualizada da prática diária. É preciso que os professores exercitem diariamente a observação e não encarem o assunto apenas como o ponto final de um trabalho”.


Célia concorda que promover a mudança é um processo complexo porque o professor também precisa adotar novas posturas e, além disso, ter condições objetivas para realizar novas formas de avaliação. “Se ele tiver uma turma muito grande, por exemplo, não conseguirá observar os alunos direito, porque é necessário tempo para examinar a personalidade e as atitudes de cada um”. Para que um processo de avaliação dê certo é preciso, ainda, que ele esteja vinculado à proposta pedagógica da escola.


Em abril, a pedagoga dará um curso sobre avaliação no Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeesp). O presidente do Sieeesp, José Augusto de Mattos Lourenço sente que as escolas estão cada vez mais preocupadas com seus métodos de avaliação. “Elas sabem que estão preparando seus estudantes para a faculdade e para a vida”. Lourenço observa que “muitos colégios passaram a levar em conta a participação na sala de aula para compor as notas e que alguns já exigem que seus alunos de ensino médio apresentem monografias. A cada ano surge um novo tipo de avaliação, o que é excelente para pais, alunos e professores.”



Informações sobre o curso do Sieeesp podem ser obtidas pelo telefone (11) 5583.5500. Sobre a consultoria de Célia Godóy, ligue para o (11) 6979.3133.

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