A arte que ensina

Autora mostra, entre outras coisas, como um rico período do desenho foi destruído pela ditadura Vargas

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Imagens extraídas de Redesenhando o desenho

 

Redesenhando o desenho – educadores, política e história, livro de Ana Mae Barbosa,  é mais um marco de sua reflexão sobre a história do ensino da arte em nosso país. Sua leitura permite aos educadores conhecer as raízes sociais e políticas da área de arte e da linguagem do desenho na educação, nos segmentos das escolas primárias e secundárias. Neste título, como nos demais livros, o olhar da autora privilegia a experiência e a contextualização da arte, seguindo sua filiação às ideias de Paulo Freire e John Dewey. Para ela, arte é cultura e expressão; assim, é necessário ao aluno consumar experiências vendo, fazendo e sabendo contextualizar as criações artísticas.

Nessa esteira de pensamento, Ana Mae nos traz a história como campo de compreensão do tempo presente, que contém resquícios de outras épocas. As relações entre arte e educação se evidenciam ao longo do conjunto de textos que compõem a obra, basicamente quanto ao ensino do desenho e das artes visuais da década de 1920 à de 1950, tendo como fontes de investigação artigos e notícias de jornais do período.

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Imagens extraídas de Redesenhando o desenho

A obra está ordenada em três partes: a virada industrial e o início do século 20; a virada modernista e a formação modernista dos professores de arte no Brasil. Ao longo dessas partes podemos encontrar, além da história do ensino da arte do período tratado, as metodologias da escola tradicional, da modernista e da pós-moderna.

Os textos nos apontam, ainda, a presença de raízes americanas e europeias em nossas práticas didáticas, desde o período no qual Rui Barbosa valorizou o ensino do desenho, com apoio nas ideias de Walter Smith, arte-educador inglês que imigrou para os Estados Unidos e lá influenciou as escritas curriculares. Já no período modernista, a influência americana nos chegou do Teachers College, da Columbia University de Nova York, onde John Dewey deu aulas e Anísio Teixeira estudou. Segundo a autora, na pós-modernidade ocorreu a associação entre arte e design por intermédio do currículo inglês.

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Redesenhando o desenho – educadores, política e história, de Ana Mae Barbosa (Cortez Editora, 456 páginas, R$ 78)

Com ideias claras e avançadas, Ana Mae questiona a abordagem da cultura visual na arte-educação, porque ela exclui a arte do rol dos conteúdos escolares. Nossa autora opta pela concepção da educação visual que, acredita, nos ensina a postura crítica em relação às imagens.

O livro se encerra com uma entrevista de Viktor Lowenfeld, encontrada por Ana Mae nos arquivos de arte-educação da Universidade de Miami em Oxford, Ohio (EUA). A entrevista, gravada em fita cassete, foi transcrita e traduzida pela autora, e sua publicação em português é, sem dúvida, um presente ao leitor, dada a beleza e o caráter simultaneamente libertário e político de Lowenfeld nas questões artísticas, educacionais e sociais de sua época. Por tudo isso, a leitura de Redesenhando o desenho: educadores, política e história, de Ana Mae Barbosa, é imprescindível à formação dos profissionais da área de arte.


Rosa Iavelberg, doutora em artes pela ECA/USP, é professora e pesquisadora dos cursos de graduação e pós-graduação em Pedagogia da Faculdade de Educação da USP.

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