A arte de ler criativamente

Um modo inteligente de ler transforma até mesmo os livros menos bons em leituras relevantes para nosso crescimento intelectual e pessoal

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Este é o título de um dos mais recentes livros do pensador espanhol Alfonso López Quintás: El arte de leer creativamente. A palavra leer, no idioma do autor, guarda ainda, nesse duplo “e”, lembranças do verbo latino legere. Ao longo do tempo, como aconteceu em casos semelhantes (o verbo amare tornou-se “amar”), o “e” final caiu, e caiu igualmente o “g” (como aconteceu com regis, que virou rey em espanhol e “rei” em português).

No português arcaico tínhamos leer também. E não só. Tínhamos creer, teer e veer. De fins do século 13 em diante verificou-se um fenômeno de fusão dessas vogais: “crer”, “ter” e “ver”. E assim chegamos ao nosso “ler”!

Em latim, legere significava “escolher”, significado este que ficou escondido na palavra de tamanho menor. A etimologia revela, portanto, que ler (ainda) é escolher. Não só escolher o livro que você vai ler, mas escolher o modo como vai ler o livro que escolheu!

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Uma questão de escolha

López Quintás se preocupa mais com o como podemos ler, e não tanto com o que devemos ler. Por vezes é esta última questão o que mais incomoda. E nos perguntamos o que é preciso ler, quais são as obras imprescindíveis para realizar uma prova, desenvolver-se numa profissão, esquecendo que ainda mais decisivo em nosso aprendizado é o modo como lemos, é a forma como abordamos as linhas e entrelinhas dos textos que estamos lendo.

Um modo inteligente de ler (em outras palavras, um modo criativo de ler) transforma até mesmo os livros menos bons em leituras educadoras. O importante é desenvolver nossa capacidade de ler com agilidade, agudeza, amplidão e profundidade. E então nossa leitura será criativa, e faremos descobertas pessoais relevantes para nosso crescimento intelectual e pessoal.

Entre os princípios e critérios que López Quintás nos sugere em seu livro, um dos mais inspiradores refere-se à tensão entre significado e sentido.

Pensando sobretudo em obras literárias, podemos afirmar que os escritores não se limitam ao significado das palavras. O significado encontra-se no dicionário. Mesmo que uma palavra tenha mais de um significado, ali estão, devidamente registradas, essas diferentes possibilidades. E é por isso que eu posso consultar um dicionário e decifrar as palavras de um texto para apreender o que lá está sendo dito.

Suponhamos que eu não sei o que significa a palavra “energúmeno” que acabou de surgir numa narrativa que estou lendo. Vou ao dicionário e agora eu sei do que se trata. Ótimo, isso me ajuda a prosseguir na leitura. Ampliar o vocabulário é um dos efeitos desse esforço que vai incorporando palavras novas ao nosso “glossário” pessoal.

Mas além do significado existe o sentido das palavras, e o sentido do texto. O sentido requer interpretação. Temos de traduzir para nós mesmos o que está escrito. Não me refiro ao sentido figurado, que também em geral está registrado no dicionário como alternativa já prevista. Por exemplo, a palavra “pai” significa o homem que teve filhos, pai é o progenitor, e, em sentido figurado, indica o fundador de uma doutrina ou o inventor de uma máquina: Santos Dumont é o pai da aviação, Kierkegaard é o pai do existencialismo.

O sentido interpretado requer criatividade. Segundo López Quintás, ser criativo é saber estabelecer relações, vislumbrar entrelaçamentos entre realidades distintas. O leitor criativo cria nexos entre palavras e novos sentidos. Tal criação não é arbitrária, pois faz surgir uma luz que se projeta para além do livro e esclarece questões existenciais. Os sentidos da leitura fazem aspectos da nossa vida ganharem novos sentidos.

A voz que faz sentido

O escritor escolhe determinadas palavras. Temos de lidar com este fato. E as palavras possuem significados registrados e reconhecíveis. A partir desta base semântica comum, podemos explorar desdobramentos, experimentando novas possibilidades, escolhendo uma forma original de abordagem.

Vejamos esse pequeno trecho de Textos para nada, do escritor irlandês Samuel Beckett:

Para onde eu iria, se pudesse ir, o que seria, se pudesse ser, o que diria, se tivesse uma voz, quem é que fala assim, dizendo que sou eu? Respondam simplesmente, que alguém responda simplesmente.

Seria um texto para nada mesmo? O “eu” que escreve oferece uma charada. Como um professor que fizesse uma pergunta e esperasse a resposta dos alunos. Mas parece que nem ele, ao perguntar, sabe a resposta exata. Pede apenas que seja uma resposta simples.

O mestre mostra. Mostra o aparente nada, espaço que tem de ser preenchido pelos leitores, que se tornam alunos dispostos a aprender. Aprender, aqui, é criar uma resposta que faça sentido. A pergunta sobre “quem fala assim” é intrigante. Quem fala assim? O que diria essa pessoa, se tivesse voz? O escritor escreve para que o leitor leia com sua própria voz.

A palavra “voz” significa “complexo de sons produzidos pelo ser humano”. Se o escritor tivesse uma voz… essa voz seria a voz do leitor.

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