A ampulheta

Se as “chamadas ao quadro” reforçavam o exercício de uma violência explícita, ao estilo da ditadura, o vestibular é uma tortura simbólica.

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JOSÉ PACHECO Educador e

escritor, ex-diretor da Escola

da Ponte, em Vila das Aves

(Portugal) josepacheco

@editorasegmento.com.br

A Adélia sabia a matéria na ponta da língua. Fizera a mnemónica das fórmulas e repetira ladaínhas em voz rezada, na crença de que a memória a não traísse. Saiu vitoriosa da contenda travada com uma pilha de livros: decorou-os, um por um. Mas acabou derrotada por uma… ampulheta. Abdicou da balada e da novela. Fez cursinho, porque com o vestibular não se brinca. Supremo sacrifício! – o namorado foi-se, ao cabo da segunda semana de clausura. Quem diria que se deixaria intimidar por um diabólico aparelho de medir o tempo? Ingloriamente, a presença de uma ampulheta na sala da prova deitou por terra todo o investimento realizado.


Iniciada a prova e anunciado o tempo para a sua realização, Adélia fixou um olhar de hipnotizada na areia que caía, caía, caía… Bloqueou-se a mente, tolheram-se os movimentos. As folhas da prova ficaram em branco e humedecidas por lágrimas.


Decorridos alguns dias, teve crises de choro, incontinência urinária. Nada que a competência dos médicos e alguns sedativos não conseguissem dissipar. O que não é possível disfarçar é a inutilidade de provas como o vestibular. E será preciso alertar para efeitos colaterais e perversões.


Enquanto a Adélia me descrevia o seu drama, eu evocava outras situações absurdas em que as escolas de antigamente eram pródigas. Conheci um professor que distribuía tapas pelas razões mais comezinhas. Mas do que ele gostava mesmo era da cruel “chamada ao quadro”. Quando o “Senhor Engenheiro” (não permitia que o tratassem por professor, e nisso estava certo) sadicamente acariciava a caderneta dos alunos e a abria numa página ao acaso, um silêncio tumular prenunciava a tormenta – quem seria a vítima do dia?


“Fulano de tal! Ao quadro! Já!” – E o fulano lá ia, como ovelha para a degola. Eu fazia parte do grupo dos afortunados. Apenas fui contemplado com duas “chamadas ao quadro”. Safei-me sem tapas. Mas o Dimas fazia parte do grupo dos mártires. Já havia sido contemplado com monumentais sovas, que lhe deterioraram a auto-estima de jovem com quinze anos feitos.



 

Naquele dia, o “Engenheiro” estava mais carrancudo que o habitual. As tábuas do estrado rangeram de um modo mais tenebroso. A sua voz saiu mais cavernosa, e o que era habitual não aconteceu. O Dimas escutou o seu nome, mas não se levantou. Ouvimos um gotejar semelhante ao da chuva no telhado. Era o Dimas, que urinava sentado.


Antigamente, as “chamadas ao quadro”, à semelhança de outros rituais e instrumentos de tortura a que dão o nome de prova e que nada provam, reforçavam o exercício de uma violência explícita, ao estilo da ditadura. Hoje, a violência é apenas simbólica, mas não estaremos muito longe do espírito de antanho. O vestibular pouco ou nada avalia. Como outros absurdos em que a escola é fértil, não contribui apenas para colocar jovens psicologicamente mais frágeis à beira de um ataque de nervos, nem é apenas responsável por crises de sudação, choro e incontinência urinária. Mais que um potencial descontrolador de esfíncteres – o vestibular é, em si mesmo, uma porcaria (eu ia escrever merda, mas optei pelo eufemismo, para não ferir sensibilidades).



José Pacheco – Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)



josepacheco@editorasegmento.com.br


 

 

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