10 questões para uma educação política

As eleições de 2014 aproximaram a população da política, mas o que conseguimos aprender ou o que ainda temos de aprender com o que observamos?

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A disputa pela presidência do país neste ano de 2014 aproximou a população da política. O que é positivo. Certamente a politização traz (e trouxe) o risco do ódio e da intolerância.  O que é negativo. Mas no final das contas o aprendizado é proveitoso.

O que conseguimos aprender ou o que ainda temos de aprender com o que vivemos e observamos recentemente?
 
1) Aprender a divergir do outro sem romper o contrato da boa convivência.
Se recebermos uma adequada educação política seremos mais racionais e exigentes. O radicalismo boboca leva a comportamentos agressivos e estéreis. O radicalismo inteligente ajuda a aprofundarmos a nossa  visão de mundo. Uma boa dose de ironia socrática é saudável em todos os diálogos.
 
2) Aprender a expor nossas ideias com clareza, fundamentando as afirmações e eventuais denúncias.
Língua portuguesa é mais do que verbo conjugado corretamente ou regência verbal ortodoxa. Também é isso, sem dúvida. É duro ter de ouvir discursos carregados de dissonâncias, tropeços e anacolutos. Mas linguagem política é, sobretudo, adequação da palavra à realidade. Poesia é sempre uma excelente orientação.
 
3) Aprender a rebater com elegância os pontos de vista contrários.
Quem recorre ao xingamento ou ao deboche tem é preguiça de estudar. Não leu os sermões de Pe. Antônio Vieira ou os aforismos de Wittgenstein. Além disso, em toda proposta adversária existe algo de bom. Não existe plantação apenas de joio. A estratégia é jogar fora o joio e aumentar a produção de trigo.
 
4) Aprender a propor realidades a serem construídas coletivamente.
Prometer mundos e fundos é fácil. Já a proposta realista requer senso de planejamento. Proposta que faz sentido dá trabalho. E possibilita que todos se envolvam, em busca de algo que a maioria considere necessário e factível. Duas leituras: A revolução dos bichos de George Orwell para prevenir autoritarismos e Utopia de Thomas More para nos proteger dos ceticismos.
 
5) Aprender a ganhar…e a perder.
Que o vencedor jamais despreze o perdedor. Não merece vitória alguma quem, chegando à frente, despreza o adversário. E quem não ganhou deve aprender a perder. O jogo político não precisa se converter em guerra eterna. O perdedor que repensa o porquê da derrota está preparando para si mesmo um futuro melhor.
 
Política na escola
Lugar de discutir e de viver política é em casa, é na rua, é na mídia e é na escola.

Bullying político em sala de aula acontece. Quando alguém se sente impedido de manifestar sua opinião, há algo de errado. Se nós optamos pela democracia, esta se converte em objetivo de todos. Política tem a ver, por isso, com polidez. A cortesia entre pessoas que pensam de modo diferente facilita a compreensão mútua.

Algumas ideias básicas contribuem para essa compreensão. Há dados e fatos que não pertencem a ninguém. Trata-se de realidade que se impõe e temos o dever de conhecer. São coisas que, de maneira transversal, podem surgir em aulas de diferentes disciplinas:
 
6) O poder compartilhado.
Concentrar o poder nas mãos de um ou de uns poucos é o perigo maior. O perigo da tirania. Separar os poderes está na base da organização democrática. Compartilhar o poder entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário evita a tentação do poder absoluto. Mesmo assim, abusos de poder se repetem, e daí a necessidade de que outros poderes entrem em jogo: o ministério público, a imprensa livre, grupos religiosos, movimentos sociais, associações civis e, ganhando atualmente contornos imprevisíveis, as redes sociais na internet.
 
7) Distribuição das responsabilidades.
Nem todo mundo deve fazer tudo. Existem espaços municipais, estaduais e federais. É uma gafe, por exemplo, reclamar que o prefeito não cuidou daquilo que cabia ao governador, ou recriminar o presidente por algo que cabia ao prefeito fazer. Lembrando, porém, a necessidade da colaboração entre esses diferentes protagonistas.
 
8) Conhecer a Constituição.
As escolas e universidades existem para promover o nosso pleno desenvolvimento como pessoas, o exercício da cidadania e nossa qualificação para o trabalho. É o que a Constituição indica. O resto (que é tudo) cabe à pedagogia. E a literatura é ingrediente fundamental para atingirmos esses objetivos.
 
9) O poder do voto.
O voto é um exercício. De reflexão, escolha e acompanhamento. No Ensaio sobre a lucidez, o escritor José Saramago nos faz pensar no voto em branco e suas possíveis consequências. Branco ou não, o voto sempre requer eleitores (e leitores) lúcidos.
 
10) Igualdade, liberdade, solidariedade.
Os valores que desejamos para uma vida em sociedade mais humana precisam ser vividos por todos. Até pelos políticos! Igualdade de oportunidades. Liberdade com integridade. Solidariedade com responsabilidade. Toda idade é boa para viver esses valores. Isso tudo faz parte da política. Foi o que aprendi no livro Política, de João Ubaldo Ribeiro, e no mais recente Política: para não ser idiota, um diálogo entre os filósofos Mario Sergio Cortella e Renato Janine Ribeiro.

*Gabriel Perissé é professor e pesquisador da Pós-graduação em Educação da Universidade Católica de Santos -www.perisse.com.br

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